
Lembra daqueles smartphones que você comprava por duzentos ou trezentos reais, muitas vezes em promoções de Natal ou como brinde em operadoras?
Pois é, dê adeus a eles.
A IDC é categórica ao afirmar que a era do smartphone baratinho chegou ao fim. Em 2025, cerca de 170 milhões de aparelhos com preço abaixo de 100 dólares foram vendidos no mundo.
E em 2026, esse número vai despencar, não por falta de demanda, mas porque se tornou economicamente inviável produzi-los.
Afinal de contas, o mercado de tecnologia está devorando as memórias de forma incontrolável para alimentar suas plataformas de inteligência artificial, e não está sobrando absolutamente nada para todo o resto.
É quase um “quem comprou seu Moto G0algumacoisa ou Galaxy A0nãoseioque comprou… quem não comprou, que se lasque”.
O motivo? Porque não dá lucro para as marcas
É bem fácil de entender.
Em um aparelho de baixo custo, o chip de memória representa uma fatia enorme do custo total de fabricação. Com o preço desse componente disparando, a margem de lucro, que já era magra, simplesmente desaparece.
Para cada smartphone de entrada vendido, a fabricante estaria, na melhor das hipóteses, empatando dinheiro e, na pior, amargando um prejuízo certo. Isso é insustentável para qualquer negócio.
Logo, isso não se trata nem mesmo de fazer quem compra um smartphone de entrada pagar pela conta de quem investe no dispositivo mais caro. É uma escolha das marcas para manter o negócio de telefonia móvel minimamente sustentável.
Olhando de forma mais ampla, é sim um cenário desesperador para todos os envolvidos.
Fim de uma estratégia vencedora
As marcas chinesas, como Xiaomi e Oppo, que construíram seus impérios justamente na estratégia de vender hardware com margens baixíssimas para ganhar participação de mercado, são as que estão sentindo o calor mais de perto.
Seus modelos de entrada, que as consagraram como “assassinas de flagships” ou “flagship killers”, são justamente os mais expostos a essa nova realidade. Podem ser ótimos e custar bem menos os telefones mais completos da concorrência, mas neste momento representam um enorme rombo financeiro para as marcas.
A estratégia agora é migrar para o médio e alto padrão, onde o consumidor está disposto a pagar mais e as margens são mais gordas. Ao mesmo tempo, são dispositivos que os fabricantes podem até mesmo pesar menos no aumento de valores, pois os lucros estão garantidos.
Um mercado mobile para quem tem dinheiro
A pergunta que apareceu na cabeça de muita gente é emblemática:
“Tudo isso significa que o mercado está se tornando mais excludente?”
Em certa medida, sim.
Milhões de pessoas em mercados emergentes, que dependiam desses aparelhos baratíssimos para dar o primeiro passo na era digital, vão encontrar um obstáculo. Pense no impacto financeiro que esses mesmos usuários vão sentir por conta dessa decisão do mercado, e como coletivos inteiros podem ser afetados pela impossibilidade de comprar novos telefones ao longo dos próximos anos.
O smartphone, que já foi um símbolo de democratização da tecnologia, corre o risco de se tornar, novamente, um bem de luxo para muitos. Ou pelo menos um item para o qual será necessário poupar por muito mais tempo.
Entendo que o caminho neste momento é esse, e é quase inevitável que isso aconteça.
A não ser que aconteça um milagre. E eu não acredito em milagres.
