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Com o passar do tempo, a rivalidade que eu alimentava contra a Argentina foi desaparecendo. Esse processo se chama maturidade. Quando você se torna um adulto mais consciente e racional sobre os efeitos das palavras que você fala e escreve, você começa a admirar no diferente aquilo que falta em você.

A tal rivalidade com a Argentina foi embora de vez em mim com o 7 a 1 de 2014. Pensando bem, aquela goleada evitou uma humilhação maior: já pensou perder a Copa do Mundo em casa, no Maracanã, para a seleção do Messi?

Melhor nem pensar.

Com os argentinos, a rivalidade acabou. Reconheço que o churrasco deles é o melhor do mundo, Paola Carosella foi um presente que esse país mandou para a nossa gastronomia, e a música produzida pelos hermanos (que, por sinal, guardam um absurdo respeito e admiração pela nossa música) é excelente.

Fito Páez é um excelente argumento para a minha teoria. Um dos mais populares e influentes musicistas argentinos de todos os tempos tem canções emblemáticas, com referências que vão de Pablo Neruda até a ditatura militar daquele país. E muitos dos seus discursos se alinham com as batalhas que os brasileiros enfrentaram ao longo de décadas.

E como a música está me salvando em tempos de pandemia…

Uso as palavras de Fito Páez para conversar com você nessa segunda-feira, que poderia ser uma segunda-feira qualquer, mas não é. Ultrapassamos os 100 mil casos positivos de COVID-19. Perdemos mais de 7.000 vidas.

Hoje, perdemos Aldir Blanc, emblemático compositor brasileiro. Mais tarde, vou escrever sobre “O Bêbado e a Equilibrista”. Preciso fazer isso para mim mesmo.

Hoje, nessa segunda-feira que promete uma chuva que nunca vem em Florianópolis, ouço parte da letra da canção “El Diablo de Tu Corazón” para tentar expressar o que sinto nesse momento, onde vejo colegas jornalistas sendo agredidos por aqueles que abraçaram o negacionsimo como ferramenta de fuga para uma realidade que alcança os olhos de todos.

Eu deveria me acostumar com isso. Ao longo da história, os jornalistas foram considerados inimigos do sistema, por contar as verdades que alguns não querem que sejam reveladas. Jornalista no Brasil está acostumado a apanhar em protestos e manifestações. As cicatrizes falam muito mais sobre nós.

Mas não vamos nos calar. Vamos continuar. Mesmo porque calaram Vladimir Herzog. Logo, todos nós, jornalistas, precisamos usar megafones para sermos ouvidos.

Porém, o que me deixou realmente chocado foi ver um grupo de pessoas que se trasvestem de patriotas agredindo profissionais de saúde em nome dos seus ideais. As pessoas que estão na linha de frente para enfrentar a maior pandemia da minha geração recebem a violência de pessoas que não se importam mais com a dor do próximo.

Chegamos no fundo do poço. E Fito Páez está jogando a corda nessa canção.

Sinto tudo desmoronar ao nosso redor. Ao mesmo tempo, sinto um perigoso mix de decepção e raiva pela ingratidão dessas pessoas. Pela falta de humanidade, empatia, respeito e consideração pelas vidas perdidas. Pela irracionalidade explícita.

Tudo isso está me envenenando. É como se, literalmente, o diabo estivesse morando em meu coração. E isso é perigoso demais para alguém que passou uma vida se esforçando para ser digno de empatia do próximo, entregando muitas vezes mais de si do que normalmente recebe do outro.

Realmente… hoje estamos comendo muita merda. Viver em um Brasil assim é uma grande e fétida merda.

Desculpe pelo palavreado, mas se faz necessário nesse momento.

E… o que me resta? “Sacar El Diablo de Mi Corazón”.

A COVID-19 vai exigir de cada um de nós o que temos de melhor. Aguentar a elevada pressão social, psicológica e moral, na esperança (agora, quase crença) que tudo vai ficar melhor no final. Porém, para alcançar esse estágio, é fundamental tirar do coração agora o tal diabo que fica sussurrando no seu ouvido “vai lá e dá na cara do desgraçado que está batendo em médicos e enfermeiros”. Sei que vontade não falta, mas existem outras ferramentas para deter os insensatos e violentos.

Sim. Estamos todos com medo e assustados com o Brasil de 2020, mas a música sempre ajuda a ver caminhos melhores. Está difícil entender como as pessoas estão pensando ou por que elas estão se comportando desse jeito.

Há muita raiva solta nas ruas. Estamos cercados de angústias. Há muita desesperança no ar.

Porém…

Vamos seguir as palavras de Fito Páez:

“La puta madre que los remilpario
Por que nos cuesta dando el amor
Yo quiero ver tu risa
Y besar tu boca
Sacar el diablo de tu corazón
(…)

No te asustes amor
Las cosas tienen que estar bien
Ya no se puede estar peor
Las cosas van a estar mejor
Vas a ser feliz
Sácate el diablo de tu corazón
(…)

Vayamos juntos a patear el sol
Sácate el diablo
De tu corazón”

 

AMÉM, FITO PÁEZ! QUE ASSIM SEJA!

 

 


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