
O outro lado da moeda.
Não faz muito tempo que escrevi um artigo abordando o fracasso de “Elio”, novo longa de animação da Pixar, nas bilheterias ao redor do planeta.
No texto, abordei o fato de que as pessoas realmente não estão mais interessadas em histórias originais, investindo dinheiro apenas nos reboots, remakes e continuações em franquias que já conhecem.
Também considerei o fato de que o próprio cinema como meio de entretenimento passa por uma crise criativa imensa, com novas histórias sendo desinteressantes e pouco originais.
Naquele contexto, ignorei completamente o fato de que existe um grupo de pessoas que não admite, de jeito nenhum, os temas de inclusão e diversidade nos filmes. E que nos Estados Unidos existe uma política de Donald Trump que prevê – veja só – sanções para as empresas que contam com essas políticas que promovem negros, imigrantes, povos originários e membros da comunidade LGBTQIAPN+.
Então… a Disney decidiu abraçar as regras do jogo.
E… olha só que coisa…
Se “quem lacra não lucra”, quem não quer lacrar se ferra do mesmo jeito.
Disney fez da Pixar o que a Warner Bros. fez com a DC (só que pior)

“Elio” passou por profundas mudanças durante seu desenvolvimento, que acabaram por apagar completamente a identidade e a proposta original do filme.
Inicialmente concebido por Adrian Molina — roteirista e codiretor de “Viva: A Vida é uma Festa” e abertamente gay — “Elio” pretendia abordar, de maneira sensível e não didática, questões de identidade, diversidade e representatividade LGBTQIA+.
O protagonista seria um garoto queer com interesses considerados fora do padrão normativo masculino, como moda, arte e meio ambiente.
Uma proposta ousada, considerando que estamos falando da Disney que, até o meio da década de 1990, sequer admitia a possibilidade de mortes em suas animações.
Que dirá promover um garoto “fora dos padrões” para a insuportável “sociedade conservadora tradicional”.
De acordo com reportagens como a do The Hollywood Reporter, essas intenções foram totalmente subvertidas após intervenções dos altos executivos da Pixar, preocupados com a recepção do público e com possíveis controvérsias.
As primeiras versões do roteiro e do personagem foram diluídas até se tornarem irreconhecíveis. Itens simbólicos — como pôsteres no quarto de Elio que sugeriam sua atração por meninos — foram removidos.
Características como sua sensibilidade ecológica e gosto por moda também foram retiradas ou esvaziadas.
O que restou foi um detalhe isolado: a capa que Elio cria, sem qualquer conexão emocional significativa com o enredo.
Quando o seu personagem central é totalmente desfigurado, apenas para atender aos mandos e desmandos de executivos que defendem a todo custo as visões heteronormativas (o que pode muito bem ser encarado como MILITÂNCIA), o filme perde totalmente o seu sentido.
Inclusive o sentido de existir.
A galera que abandonou “Elio”

Essa descaracterização levou ao afastamento de Molina da direção do projeto. Porém, de forma oficial, nem Disney, nem Pixar trataram a decisão como “divergências criativas”. Mas internamente todo mundo sabe que foi, e o que aconteceu ao redor reforçam essa tese.
Inicialmente, Molina saiu temporariamente, alegando envolvimento em uma possível continuação de “Viva”. Foi só depois que ele recusou abertamente o retorno à produção, diante das repetidas mudanças que aniquilaram sua visão criativa.
A direção passou então para Madeline Sharafian (do curta “Burrow”) e, mais tarde, para Domee Shi, autora de “Red: Crescer é uma Fera”. Indivíduos com visões obviamente diferentes, que tentaram colocar suas respectivas personalidades na história.
Agora, some isso às exigências da Pixar, e você facilmente vai testemunhar a criação de uma colcha de retalhos em “Elio”.
Ao longo do processo, vários membros da equipe original também abandonaram o projeto, insatisfeitos com o rumo tomado.
As alterações não ficaram restritas ao roteiro. A dublagem também sofreu mudanças significativas, que também são consequências da decisão da Disney em atender a pauta dos lacradores conservadores.
America Ferrera, anunciada como a mãe de Elio, abandonou a produção. Sua personagem foi reformulada e passou a ser interpretada por Zoe Saldaña, agora como a tia do protagonista.
Segundo fontes internas, a saída de Ferrera se deu, em parte, pela falta de representação latina em cargos de liderança criativa e pelas regravações sucessivas de falas causadas por alterações constantes no roteiro.
E… antes que você comece a berrar “mas a Zoe Saldaña também tem origem latina… é só olhar para o sobrenome dela…”
Existe uma enorme diferença aqui, seu ignorante.
As duas nasceram nos Estados Unidos, mas Saldaña tem descendência porto-riquenha e dominicana, países cm relações diplomáticas e culturais muito mais estáveis no país comedor de hambúrguer.
Já Ferrera é filha de pais imigrantes de Honduras. E como filha de imigrante, sofre muito mais do preconceito estabelecido pelos conservadores norte-americanos, inclusive dentro da própria indústria de Hollywood.
Mas… vamos voltar a falar do time técnico de “Elio”.
Fontes dentro da Pixar descreveram o ambiente como tóxico e frustrante, com diversas decisões editoriais sendo tomadas para suavizar ou eliminar qualquer menção à sexualidade do protagonista.
Um ex-artista do estúdio, que preferiu o anonimato, declarou que o filme perdeu completamente sua alma:
“’Elio’ não fala mais sobre absolutamente nada. O personagem antes era adorável, engraçado e único. Agora é genérico, previsível e sem vida.”
E o filme se tornou exatamente isso para o grande público: um copo de água qualquer.
Um desastre nas bilheterias

Com um orçamento estimado entre 150 e 200 milhões de dólares, “Elio” arrecadou apenas US$ 73 milhões mundialmente — o pior desempenho da história da Pixar.
Críticos e analistas atribuem o fracasso não apenas ao marketing fraco ou ao estilo de animação (que recebeu críticas por seu design de personagens e estética visual), mas à evidente ausência de propósito e personalidade no produto final.
Com isso, cai por terra a tese imbecil do “quem lacra não lucra”. Mesmo porque temos vários filmes que apostam em pautas como diversidade, inclusão, combate aos preconceitos e questões ambientais que foram sucessos de bilheteria ao longo da história.
O problema de “Elio” não foi a lacração. Foi, por incrível que pareça, tirar a lacração e entregar um grande balde de nada para o público.
E para a Pixar, o cenário passa a ser dramático, já que o caso de “Elio” não é o único nessa ideia desesperada de mudar aspectos narrativos para atender as pautas dos conservadores.
A série “In Victory or in Defeat” teve um episódio censurado pela Disney por abordar questões de identidade de gênero. Já o projeto “Hoppers” precisou reduzir drasticamente seu tom ambientalista e evitar qualquer menção ao divórcio.
A percepção crescente é de que a Pixar — que antes era vista como um símbolo de inovação e liberdade criativa — tem recuado diante de temas progressistas, cedendo a pressões conservadoras internas e externas.
O que é um desastre pois, na prática, a essência da Pixar – e tudo o que fez ela ser o estúdio de animação amado por crianças e adultos – está desaparecendo diante dos nossos olhos.
É triste. Muito triste.
A Disney está matando a Pixar

O apagamento criativo de “Elio” lança um alerta sobre os riscos da autocensura em grandes estúdios, algo que se intensificou nos últimos anos por conta de tudo o que aconteceu na esfera política e social no planeta.
Ao tentar agradar a todos, a Pixar comprometeu sua integridade artística e perdeu a oportunidade de oferecer uma história autêntica, emocionalmente rica e culturalmente relevante.
Em vez de se firmar como um símbolo de resistência em tempos de retrocesso ideológico, “Elio” acabou como um exemplo (negativo) do que acontece quando vozes criativas são silenciadas em nome da neutralidade comercial.
A Disney não entendeu que o problema da Pixar (assim como acontece com a Marvel Studios) não é a promoção de pessoas pretas, LGBT+, de povos originários, de imigrantes ou de qualquer grupo considerado “diferente”.
O grande problema é a entrega de histórias ruins, que são desconfiguradas e retalhadas por conta de visões corporativas estúpida.
A Warner Bros. fez exatamente a mesma coisa com o Universo DC nos cinemas. Não exatamente em nome das pautas progressivas, mas com o mesmo perfil corporativista, onde executivos acreditavam cegamente que sabiam mais do que os criativos.
Tudo bem, isso não muda o fato de que Zack Snyder tem grande culpa no cartório, já que suas decisões conceituais não agradaram de qualquer maneira #SaveMartha.
Mas olhando para o cenário como um todo, posso imaginar o pesadelo que foi para Zack lidar com os engravatados da Warner na maior parte do tempo.
Quem fez “Elio” ser esse fracasso todo foi Bob Iger, Bob Chapek e outros executivos da Disney, que priorizaram essa lacração insuportável dos conservadores, que entendem que todo o problema do mundo é o garoto ser uma pessoa queer.
Gente com mente atrasada e ideologicamente estúpida, que ainda acredita que um personagem de ficção pode transformar a essência de uma pessoa em algo diferente do que eles entendem ser “o normal”.
São seres humanos que não entendem, de jeito nenhum, que as pessoas nascem como elas são. No máximo vão revelar quem são para o mundo no futuro.
Talvez o objetivo do apagamento da personalidade original de “Elio” seja exatamente esse: impedir que quem é diferente se manifeste ao mundo.
Um pensamento que só funcionava no século passado.
A pergunta que fica é: teria sido mais lucrativo — e mais honesto — manter a visão original do filme, oferecendo uma narrativa diversa e representativa em um cenário cada vez mais carente dessas histórias?
A resposta, infelizmente, talvez nunca seja conhecida.
Mas o legado de “Elio” agora serve como um caso emblemático do impacto destrutivo da censura interna na indústria do entretenimento.
Que a Disney aprenda com a lição: quem não lacra no mundo de hoje pode perder muito mais dinheiro.
Já que, ao que tudo indica, a maioria quer o mundo em transformação, com maior diversidade e representatividade.

