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Entramos na era do “deepfake tourism”

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Lendo a história, pode parecer engraçado (e é um pouco engraçado, não vou negar). Mas parando para pensar, esse problema pode acontecer com qualquer um de nós.

Um casal de idosos da Malásia protagonizou uma história que parece ter saído de uma distopia digital ou de um episódio de Black Mirror: após assistirem a um vídeo impressionante nas redes sociais, decidiram viajar mais de 350 quilômetros para visitar o deslumbrante teleférico “Kuak Skyride”.

O problema é que a atração simplesmente não existe. Nem existiu. Nem em projeto. É 100% ficção gerada por IA.

O vídeo, que simulava uma reportagem turística profissional, foi produzido por meio do Veo n3, ferramenta de vídeo com inteligência artificial desenvolvida pelo Google, e publicado no canal TV Rakyat, um desses perfis com aparência jornalística que pipocam nas redes.

 

O resultado de um vídeo ultrarrealista

No vídeo, um apresentador – também criado por IA – descrevia animadamente sua suposta visita ao teleférico, enquanto imagens de florestas tropicais, vistas aéreas cinematográficas e passageiros sorridentes reforçavam o realismo da encenação.

Para o espectador desatento (ou menos familiarizado com os truques do Vale do Silício), tudo parecia legítimo. Porém, dava para ver um detalhe que denunciava a farsa: um discreto logotipo do Veo 3 no canto da tela – algo que claramente passou despercebido para o casal.

Empolgados com o que viram, eles fizeram reservas de hotel, planejaram o roteiro e pegaram a estrada rumo à pequena vila de Kuak Hulu, no estado malaio de Perak.

Ao chegarem ao hotel e perguntarem pelo famoso teleférico, foram recebidos com risadas nervosas e expressões de confusão.

Os funcionários, surpresos com a situação, explicaram que não havia nenhum teleférico na região – muito menos uma atração turística com aquele nome.

O constrangimento só aumentou quando os hóspedes insistiram que tinham provas em vídeo. Afinal, “estava na internet, como poderia ser falso?”

A reviravolta mais tragicômica da história veio quando a senhora declarou que pretendia processar o jornalista que aparece no vídeo. Foi então que descobriu que ele também era uma criação artificial.

Sim, ela queria processar um deepfake.

A essa altura, qualquer roteirista de ficção científica pediria uma pausa para respirar.

 

Vamos falar um pouco mais sério

Esse episódio, por mais absurdo que pareça, expõe de forma alarmante o estágio atual da tecnologia de geração de conteúdo por IA.

Ela já é capaz de produzir não apenas rostos, vozes ou textos, mas realidades inteiras. A partir de uma simples ideia e com o auxílio de ferramentas como o Veo 3, é possível criar vídeos imersivos de lugares que jamais existiram, com direito a cenários convincentes, trilhas sonoras inspiradoras e personagens digitais que falam com naturalidade.

Segundo um levantamento da empresa de segurança digital Signicat, as fraudes envolvendo deepfakes cresceram incríveis 2.137% nos últimos três anos.

Antes vistas como curiosidades tecnológicas ou recursos cômicos para filtros de aplicativos, essas falsificações entraram de vez no radar das ameaças reais, com impactos que vão de prejuízos financeiros a distorções cognitivas e sociais.

Embora o caso do casal malaio não tenha envolvido perdas econômicas diretas, ele representa um sintoma claro de como a percepção da realidade está sendo corroída por conteúdos cada vez mais indistinguíveis do real.

E o turismo é, neste momento, um campo particularmente vulnerável.

A prática da “instagramificação” das viagens – quando as pessoas escolhem seus destinos pensando mais nas fotos que vão tirar do que na experiência em si – já vinha descolando o ato de viajar da realidade concreta.

Com as IAs generativas, o cenário evolui de forma preocupante: agora, o destino nem precisa existir de verdade.

Basta parecer bonito no feed.

 

Como não cair nesse tipo de golpe?

  1. Desconfie da perfeição: vídeos excessivamente cinematográficos, com ângulos perfeitos e iluminação de filme da Disney, merecem uma pausa para investigação.
  2. Procure fontes confiáveis: confirme se a atração turística aparece em sites oficiais, como órgãos de turismo, mapas verificados e publicações jornalísticas reconhecidas.
  3. Fique atento aos detalhes digitais: marcas d’água, logotipos de ferramentas de IA (como o Veo3) ou inconsistências visuais (pessoas sem sombras, mãos com dedos demais, etc.) são alertas importantes.
  4. Não confie apenas nas redes sociais: por mais tentador que seja, o Instagram, o TikTok e similares não são agências de turismo nem veículos de imprensa. Eles servem ao algoritmo, não à verdade.
  5. Use o bom senso: se o lugar parece mágico demais para ser real, talvez ele seja exatamente isso: uma fantasia convincente feita por robôs famintos por cliques.

O caso dos idosos malaios pode parecer engraçado, mas mostra claramente que estamos nos aproximando de um ponto onde a realidade é apenas mais uma narrativa entre tantas possíveis.

O risco implícito é que todos nós comecemos a viver em função de ilusões cuidadosamente fabricadas e vendidas como experiências legítimas.

Afinal, se você acredita que pode visitar um lugar que só existe na nuvem, talvez o que precise de férias não seja o seu corpo, mas a sua capacidade de discernimento.

Pense nisso.


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@oEduardoMoreira