
Escândalos de natureza pessoal, como casos extraconjugais ou uso de drogas, têm impacto mais devastador na carreira de executivos do que fraudes financeiras, segundo um novo estudo.
O caso recente da chamada “câmera do beijo” em um show do Coldplay exemplifica como a exposição pública pode comprometer a reputação e a posição de um CEO. Ou seja, trair a esposa ou o marido é pior do que roubar uma grande corporação.
Talvez porque a traição seja algo muito mais próximo da realidade prática da grande maioria das pessoas do que dar um golpe financeiro de milhões de dólares para uma empresa que visa o lucro.
Quem sabe a maioria de nós, meros mortais, queremos que essas empresas se ferrem.
Mas isso é assunto para outro artigo.
Recapitulando o caso Andy Byron
Andy Byron, CEO da empresa Astronomer, foi exposto após aparecer em vídeo comprometedor com a chefe de Recursos Humanos da companhia, já que o flagra foi no já constrangedor “kiss cam” do Coldplay.
Não tem como fugir da humilhação quando você é flagrado em um show do Coldplay (e peço desculpas aos fãs do Chris Martin, mas a piada é quase inevitável).
A gravação viralizou nas redes sociais e trouxe à tona não apenas sua vida pessoal, mas também críticas sobre seu comportamento autoritário dentro da organização, abrindo uma Caixa de Pandora que foi bem difícil para o Andy fechar depois.
Além disso, ex-colegas como Stefan Manfreda aproveitaram a repercussão para denunciar antigas práticas questionáveis do executivo. E não tem timing melhor do que esse para explanar contra o próprio chefe.
Apesar de acusações de envolvimento em fraudes financeiras no passado, Byron havia se mantido no topo até que um escândalo sentimental levou ao fim imediato de sua carreira.
Não dá para saber se alguém dentro da empresa sabia dos escândalos financeiros. Mesmo assim, quando o pior veio à tona, descobrimos todos os demais problemas que o Andy causou para a sua empresa.
Explicando o fenômeno das escolhas morais
O professor Michael Nalick, da Universidade de Denver, analisou 400 casos de escândalos envolvendo CEOs e concluiu que os de cunho pessoal têm cinco vezes mais chances de resultar em renúncia do que aqueles relacionados a finanças.
O desempenho positivo da empresa, em muitos casos, não é suficiente para proteger a imagem do executivo nestes casos mais complexos.
Questões como infidelidade, relacionamentos impróprios e consumo de drogas tendem a minar a credibilidade de um CEO de maneira irreversível. Já irregularidades financeiras, ainda que graves, são vistas como problemas mais administráveis dentro do ambiente corporativo.
Porque dá para disfarçar que você roubou a sua empresa, mas não que você foi pego pegando uma funcionária. E todo mundo agora sabe disso.
O estudo mostra que, mesmo quando empresas são acusadas de manipular resultados financeiros, a punição aos executivos é mais branda. Muitos conseguem se manter no cargo ou ao menos preservar parte de sua carreira após os episódios.
Por que as pessoas perdoam mais os golpes financeiros?
A explicação, segundo os pesquisadores, está no fato de que fraudes financeiras podem ser relativizadas ou atribuídas a outras áreas da companhia.
E… fica a dica: sempre é possível jogar a responsabilidade dos seus erros para as costas dos outros.
Já os escândalos pessoais expõem diretamente a integridade e a reputação do executivo, sem margem para desvios de responsabilidade. Não tem como dividir com o seu colega de trabalho ou esposa esse relacionamento coma chefe do RH.
O levantamento revela que cerca de metade dos CEOs envolvidos em fraudes financeiras conseguem sobreviver no cargo. Em contrapartida, crises relacionadas à vida pessoal têm impacto devastador e, muitas vezes, irreversível sobre a trajetória profissional.
Os especialistas destacam que a percepção pública e o impacto emocional em funcionários e acionistas tornam os escândalos pessoais mais intoleráveis. A quebra de confiança nesses casos é imediata e deixa poucas alternativas de recuperação para o executivo.
O caso de Byron deixa evidente como a exposição em um episódio íntimo pode ser mais letal do que acusações de corrupção ou falência empresarial.
No final das contas, ser um líder de uma empresa pode cobrar muito caro de sua vida pessoal. E muito mais caro do que as práticas financeiras questionáveis e de comportamento extremamente duvidoso.
Acredito que, de alguma forma, todo mundo aprendeu uma lição com tudo isso.
Só não sei se foi uma das lições mais edificantes de sua vida. Afinal de contas, todo mundo pode esquecer disso rapidamente em pouco tempo.
