
Nem sei por onde começar. Ou melhor, sei sim.
Tem gente que tem o pai corno e a mãe na zona. Só com muito ódio no coração para usar a inteligência artificial para algo tão podre.
E estou cagando para quem quer defender a liberdade de expressão neste caso. Erotizar o maior crime cometido na história do Brasil é algo que me deixa completamente revoltado.
Para quem não está sabendo do que está acontecendo, vou contextualizar.
Canais no YouTube estão lucrando com a romantização da escravidão no Brasil, impulsionados por inteligência artificial. Esses vídeos retratam relações de desejo entre senhoras bem mais velhas e pessoas escravizadas, enfatizando a diferença de idade e o fetiche de muita gente.
O resultado disso é triste e até óbvio: milhões de visualizações com capas de homens negros musculosos e sem camisa, se envolvendo com mulheres brancas.
O que está acontecendo

A reportagem da BBC identificou pelo menos 150 canais que publicam esse material, somando 80 milhões de visualizações. Aparentemente, as plataformas digitais “estão deixando passar”, uma vez que não se trata de um conteúdo explicitamente racista ou com apologia à escravidão.
Especialistas afirmam que o conteúdo reforça estereótipos racistas e apresenta invenções como fatos históricos, o que gera sérios danos à memória coletiva. E o que mais me irrita em tudo isso é que, mais uma vez, as pessoas estão reescrevendo a história do povo preto no Brasil.
A produção em massa desses vídeos visa a monetização, utilizando títulos chocantes e narrativas fictícias para engajar o público. Um criador de conteúdo admitiu usar a estratégia apenas para alcançar os requisitos do YouTube, trocando de tema depois de garantir os ganhos.
As histórias frequentemente reciclam os mesmos enredos, copiando personagens e situações de envolvimento afetivo, de cunho sexual e até de violência. E essa não é uma problematização vazia.
Estamos falando de reforços de estereótipos combinada com uma grande distorção retórica. A ausência de fontes históricas e a mistura com elementos realistas de IA confundem os espectadores, que muitos acreditam tratar-se de relatos verdadeiros.
O YouTube alega remover conteúdos que violem suas diretrizes, mas a proliferação desses vídeos persiste. A erotização da violência escravista e a naturalização de relações abusivas são apontadas como um problema grave por historiadores e pesquisadores.
Por que isso me deixa puto
Antes de continuar, nem tenta me chamar de hipócrita.
Todo mundo sabe que só me envolvo com mulheres mais velhas. Bem mais velhas. E, na esmagadora maioria dos casos, mulheres brancas.
Fato. Sinto tesão nesse tipo de relação. E não vejo isso como um problema. Muito menos um crime. E quando quiser descobrir a origem dessa minha preferência no sexo, vou levar o assunto para a terapia.
O que é repulsivo nesse caso, além da objetificação de pessoas (nos dois lados), é todo o arquétipo construído para as pessoas pretas.
Sei que existe o fetiche. Tem um monte de coroas aqui em Florianópolis que estão doidas para trepar com um negão. Algumas já foram para a cama comigo.
Mas nenhuma dessas relações foram pautadas pela subserviência ou ausência de condição isonômica.
Vou me explicar melhor.
Não fui escravo ou empregado de nenhuma coroa que foi para a cama comigo. Não fingi ser empregado de ninguém em nome de um fetiche ou fantasia.
Não me rebaixei em nome do prazer do outro.
O uso da inteligência artificial para esses propósitos (e aqui, tenho plena convicção em afirmar que tais conteúdos são produzidos SIM por pessoas brancas) é algo que me dá asco. Pois reforça uma narrativa que tento derrubar todos os dias na minha vida.
Nas minhas relações pessoais, no meu trabalho e em todas as atividades de coletivo.
Não é um exagero da minha parte.
Poderia ver tudo isso apenas e tão somente como um fetiche e nada mais. Mas estão fazendo isso pelo dinheiro. Em nome da viralização e da monetização fácil.
YouTube, Instagram, TikTok, Facebook e outras redes sociais estão cagando e andando para isso, pois o que interessa para as plataformas é a visibilidade e alcance. Elas também lucram com tudo isso.
Então, que ao menos as autoridades brasileiras façam alguma coisa.
É revoltante saber que alguém está lucrando com uma mazela que deixa cicatrizes históricas na maior parte do povo brasileiro.
E tudo isso deveria ser considerado inaceitável para você também.
