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O Herbert estava sem voz.

O que já era difícil para alguém na condição dele, que dependia da voz para sobreviver. Isso mesmo: sobreviver, e não viver.

Herbert não mais vivia depois de perder a Lucy daquela forma. O acidente de avião tirou a mobilidade de suas pernas, mas ele trocaria a sua vida saudável e feliz para que ela continuasse a ser o sol da vida dele, mesmo que essa vida não mais existisse. Mas viver não é o que queremos o tempo todo.

Ele lutou pela vida, mesmo sem querer. Passo a passo. Teve que reaprender tudo: a tocar, a falar, a cantar. Reaprendeu as suas músicas e em como interagir com as pessoas. Não conseguiu reaprender a andar. Se viu preso na cadeira de rodas.

Herbert hoje olha para as rodas das cadeiras, pensando para onde ir. Ainda mais agora, que está sem voz. Sem poder cantar ao mundo o que sente e pensa.

Sem expressar a sua dor e indignação com ele mesmo.

Até que, em um dia qualquer, alguém deu voz para Herbert.

Fernanda e John, mais que amigos. Fãs.

Inspiraram suas vidas ouvindo as canções que Herbert escreveu e, assim como vários de nós, em várias oportunidades encontraram naquelas palavras do amigo a força e o consolo para seguir em frente. Aquele casal enxergava em Herbert uma espécie de “guru” que sempre sabia qual era a palavra certa. Aquela palavra que faz o mundo andar.

Porque Herbert um dia teve a coragem de escrever “A Palavra Certa”, Fernanda e John escreveram “Me Explica”. Para colocar uma voz para um ser humano que tentava sobreviver sem ter a própria voz para expressar a sua dor.

Sem saber, Herbert se viu fazendo aquele desabafo para uma força superior que ele não mais acreditava existir, questionando por que Lucy desapareceu daquela forma:

“Me explica
Havia você e o céu
Havia você e o mar
E já não há
Me explica
Me diz onde vim parar
Pois quem sempre esteve aqui
Já não está”

Herbert se recusava a passar pelo processo de luto. Até aquele momento.

Quando ele percebeu que não estava passando por aquela dor sozinho, e que outras pessoas tentavam de alguma forma dimensionar o quão triste era aquele momento (sem conseguir, pois essa dor é exclusiva de quem perdeu), Herbert entendeu como ele conseguiu sobreviver até aquele momento. Entendeu também por que ele não foi com ela para um lugar que ele nem sabe qual é.

E começou a pensar nos motivos para ficar por aqui por mais algum tempo.

Herbert permanecia sem voz. Mas compreendeu que Fernanda e John só poderiam emprestar uma voz para ele porque, em algum momento, foi o próprio Herbert que ofereceu a sua voz desafinada do seu coração para milhões de corações.

Perder a voz é uma dor que ainda pode ser remediada. É o seu corpo pedindo uma pausa. É a natureza pedindo para você ouvir mais e falar menos.

Perder a voz é se permitir estabelecer um silêncio para ouvir a voz do coração, e ouvir o próximo também. É inquietante não poder falar o que penso ou cantar o que sinto, mas entendo que é necessário. Pois quando a minha voz voltar, ela certamente será ouvida de forma mais aberta e fraterna.

Se eu perdi a voz, então eu vou encontrá-la novamente.

A minha voz vai voltar. Lucy, não.

Não posso reclamar. Herbert perdeu muito mais do que eu.

Logo, só me resta ser paciente. E seguir em frente. Assim como Herbert fez e continua fazendo por todos nós.

Seguir os passos do “guru”. Mesmo que ele esteja de cadeira de rodas.

 


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