Eu mesmo fui pego de surpresa quando vi essa noticia ontem. Bom, na verdade, nem tanto. Mas enfim, foi publicado ontem (21) que o IBDI (Instituto Brasileiro de Direito da Informática) vai processar a Apple por práticas comerciais abusivas no anúncio do iPad 4 sete meses depois do iPad 3. É claro que muitos vão dizer: “o seu iPad 3 não parou de funcionar com o lançamento do iPad 4, certo?”. Mas lá atrás, eu disse que o buraco é mais embaixo. Pois bem, o processo ilustra bem o quão embaixo é esse buraco.

Você amigo leitor… já ouviu falar em “obsolescência programada”? Ah, e não vale dizer que ouviu isso em uma música dos Engenheiros do Hawaii. Bom, vou explicar: você tem um produto, e sabe o quanto pode evoluir com ele. Mas por saber disso (e por saber que as pessoas vão comprar qualquer coisa que você lançar nesse momento), você lança esse produto “capado” de propósito, sem toda aquela bala na agulha que você sabe que pode colocar nele. O motivo disso? Adicionar todo esse poder de fogo depois, em um novo produto. Que muita gente vai comprar.

Ao lançar esse segundo produto mais parrudo, o primeiro modelo, lançado meses antes, automaticamente se desvaloriza. E aí está configurada a obsolescência programada: a desvalorização de um produto previamente planejada pelo fabricante de um produto, e não por cumprir um ciclo natural de atualizações.

No ato do lançamento do iPad 4, eu fui xingado por vários fanboys por afirmar, de forma categórica, que o iPad 3 estava morto no mercado de tablets. A própria Apple reforça essa tese, preferindo manter no mercado o iPad 2 por um preço menor e descontinuando o iPad 3. O fato aqui não é se o iPad 3 parou ou não de funcionar depois do anúncio do novo iPad. O que poderia ter parado foi o coração do consumidor, que uma semana antes comprou um iPad 3, achando que estava comprando o tablet mais top da empresa, mas na semana seguinte, ficou com um produto não só obsoleto, mas descontinuado nas mãos.

Para o IBDI, o iPad 4 não apresenta nenhuma inovação que justifique ser considerado um produto “novo”. Ele é uma nova geração do iPad, mas apenas com o dobro das capacidades técnicas da geração anterior. Ok, tem um processador mais rápido e um conector de dados mais veloz. Mas convenhamos: não são inovações. Não são adições consideradas relevantes para que configuremos como uma nova geração de um produto. Para quem acompanha mais de perto o mercado de tecnologia, sabe que muita gente dentro da Apple deve ter pensado o seguinte: “lançamos o iPad 3 incompleto; precisamos lançar o iPad 4 para corrigir o que não deu tão certo”.

Além disso, o IBDI bate em teclas importantes, como por exemplo o paradigma de expectativas de lançamentos anuais. Tá, você pode dizer “se a Apple quiser lançar um tablet novo por mês, pode fazer isso; afinal, a Samsung faz…”. Por partes: a Samsung lança tablets e smartphones a rodo, quase toda semana, mas nunca são modelos de uma mesma linha ou mesma série. Exemplo clássico: a linha Galaxy (a principal) tem ciclos de lançamentos anuais, que é uma expectativa que a própria empresa criou, e que vem seguindo de forma exemplar.

A Apple quando lança um tablet sete meses depois do seu último lançamento quebrou o seu próprio paradigma (que também era de um ano), e sem uma justificativa minimamente aceitável para fazer isso. A prática não só é equivocada perante o valor de mercado do produto, mas também é abusiva. Mais ainda no Brasil, onde o iPad 4 foi anunciado apenas cinco meses depois da chegada do iPad 3 no Brasil. De novo: a questão não é se o produto antigo funciona tal como o novo, mas sim de fazer o consumidor de otário. Ainda mais quando retira do mercado a versão anterior.

Se condenada, a Apple pode ser obrigada a restituir todos os compradores do iPad 3 no Brasil, o que na minha opinião não é nenhum absurdo. O iPad é um produto caro, é um investimento, e se alguém se sentiu lesado pelo fato do produto que acabou de comprar ter uma nova versão que elimina a recém comprada do mercado, deve buscar os seus direitos. Afinal de contas, é direito de qualquer pessoa ter o melhor e não o “ah, era o melhor na semana passada”. Acho que cabe a algumas pessoas (e alguns blogs especializados) compreenderem que tudo na vida tem os dois lados, e que nesse caso, muita gente se sentiu lesada por isso.

Por enquanto, tudo o que eu digo é “eu avisei”.