
“F1: O Filme”. Bom, vamos lá.
Pense na seguinte situação: você é um cara sessentão que teve uma grande oportunidade na vida, mas o esporte tirou essa chance de você. Aí, um dos seus antigos rivais em pista quer te colocar de novo no grid para tentar salvar a equipe dele.
Essa é a premissa de “F1: O Filme”.
Você sabe onde esse filme vai parar, como vai terminar, o que vai acontecer. Mas quem liga para o roteiro quando se tem Joseph Kosinski — sim, o nome correto é Kosinski —, diretor de “Top Gun: Maverick”, colocando a evolução do conceito daquele filme neste aqui?
Senhoras e senhores, que baita filme!
Não estou falando da história. Eu não quero saber da história deste filme. Eu não me importo.
Fui ao cinema com o objetivo, apenas e tão somente, de ver carros de Fórmula 1 correndo. E eu recebi isso.
Mas também recebi um pouco mais.
Os clichês que, neste caso, a gente gosta

Ao assistir esse longa protagonizado por Brad Pitt, me deparei com pitadas de conceitos e reflexões que a gente leva para casa depois da sessão.
Primeiro, a clássica história do cara que estava fora do jogo e volta depois de 20 ou 30 anos para reescrevê-lo. Ele tem uma segunda chance na vida. Todo mundo merece uma segunda chance, inclusive Brad Pitt, com seus 60 anos de idade.
Segundo, temos o clássico duelo entre o velho e o novo: o piloto veterano que enfrentou dificuldades no passado e retorna para ser o mentor de um jovem promissor, porém marrento.
O personagem de Damson Idris cumpre bem esse papel. Dá até para lembrar do início da carreira de Lewis Hamilton, em 2007, 2008 e 2009, quando ele se revoltava, tinha como affair Paris Hilton e era melhor amigo do Neymar.
Temos registros disso.
Há um contraste entre gerações. O veterano aprendeu com os próprios erros e os usa para beneficiar o novato e a equipe.
Sim, é um clichê das narrativas de duelo entre gerações, mas — de novo — quem se importa, quando carros de Fórmula 1 são filmados de um jeito nunca visto antes no cinema?
Uma evolução de algo que foi incrível

A fusão entre CGI e live-action é tão bem-feita, que não conseguimos distinguir uma coisa da outra. Esse é um dos grandes méritos de Kosinski.
Ele eleva o conceito de “Top Gun: Maverick” — que já era visualmente sensacional — a outro nível. Por isso, há quem afirme, e com razão, que este novo filme pode ser indicado ao Oscar de Melhor Filme, por mais absurdo que isso possa parecer.
Mas lembre-se: “Top Gun: Maverick” também foi indicado, justamente pelo fator inovação.
A trilha sonora de Hans Zimmer é outro ponto de destaque: fantástica, espetacular, imersiva. Ela te coloca não só dentro da ação, mas também na vibração dos personagens.
A terceira grande lição do filme é: a Fórmula 1 — ou melhor, a Liberty Media — colocou muita grana nessa produção para conquistar o público norte-americano.
Brad Pitt não protagoniza esse longa à toa. O objetivo é claro: atrair os EUA para a Fórmula 1. E esse esforço não é recente. Desde que assumiu a categoria, a Liberty Media promove a F1 em massa nos Estados Unidos.
A produção executiva tem participação direta da Fórmula 1.
Stefano Domenicali, presidente da categoria, e Toto Wolff, chefe da Mercedes, são produtores executivos. Para os fãs mais radicais que rejeitam a ideia de um filme com envolvimento de Lewis Hamilton, saibam que Wolff e Domenicali também assinam a produção.
Aliás, Verstappen aparece bastante na narrativa das corridas — embora não interaja com os personagens —, mesmo sendo um filme produzido por Hamilton.
Ele só não aparece no ápice da corrida principal, que é o evento central da trama. E a razão para isso é óbvia: Hamilton é produtor executivo do filme, e quis reescrever a narrativa de um evento recente na categoria.
Sem spoilers, mas esse episódio envolvendo Lewis Hamilton é altamente inspirado em fatos reais, e ainda está na mente de todos os fãs da Fórmula 1.
Quem acompanha a categoria vai entender muito bem a referência.
Quem se importa com roteiro?

O roteiro do filme é linear, óbvio, com absurdos como pilotos se recuperando milagrosamente de acidentes ou protocolos de corrida que não seguem o regulamento da FIA.
Mas isso é ficção baseada em fatos reais. E mesmo os momentos mais críticos do filme se baseiam em eventos verídicos da história recente e moderna da Fórmula 1.
Para quem é mais rigoroso com regulamentos e procedimentos, recomendo ligar a suspensão da descrença. O filme não é um documentário, embora tenha um tom quase documental, especialmente pela proposta estética de Kosinski na captura de imagens e na construção dos cenários. Tudo é feito para te colocar dentro da atmosfera da Fórmula 1.
“F1: O Filme” é pensado para quem vive, respira e ama automobilismo. O longa nos leva aos bastidores, aos conflitos, conchavos e até às sabotagens — tudo aquilo que já vimos acontecer na categoria. E tem coragem de contar isso em uma história ficcional, com grande imersão.
São 2h40 de filme que passam voando. A narrativa alterna bem entre ação e bastidores, sem cair no piegas, mesmo com algumas obviedades — afinal, Brad Pitt é o protagonista, e algumas coisas precisam favorecê-lo.
Mas o filme prende do início ao fim. Há ação, tensão e uma rivalidade crível entre os protagonistas, reforçada pela diferença de idade entre eles.
Talvez o ponto mais inverossímil seja a presença do personagem Sonny Hayes como piloto de F1 aos 60 anos. Mas ignore isso. Pense no filme como um “Rocky Balboa” ou um “Creed”, que também exploram a relação entre o velho e o novo.
Tudo faz parte de uma construção narrativa que nos faz pensar por que gostamos tanto de automobilismo, Fórmula 1 e até do Brad Pitt atuando — mesmo que ele interprete o mesmo tipo de personagem há uns quatro ou cinco filmes.
Eu simplesmente não me importo.
Recebi exatamente o que o filme prometia nos trailers e nas primeiras divulgações.
Um baita filme sobre Fórmula 1

Parabéns aos envolvidos.
Com certeza, este longa deve receber indicações ao Oscar.
Alguns afirmam que ele pode ser indicado a Melhor Filme, assim como “Top Gun: Maverick” foi.
Pode parecer exagero, mas talvez não seja, por um motivo simples: “F1: O Filme” melhora tudo o que “Top Gun: Maverick” fez tecnicamente. É um passo à frente, um degrau acima.
Em muitas cenas, não dá para distinguir o que é real e o que é CGI. Sabemos que há elementos digitais, mas é difícil detectá-los. O filme é tão bom que até o Roscoe — o cachorro do Lewis Hamilton — está nos créditos.
Sim, até ele.
Max Verstappen, por sua vez, recusou gravar cenas com Brad Pitt.
Fresco, chato.
Enquanto isso, Gunther Steiner, Fred Vasseur, Toto Wolff e Stefano Domenicali interagem com um personagem que foi cinco vezes campeão com a Ferrari como mecânico — uma referência clara aos cinco títulos de Michael Schumacher no início dos anos 2000.
Há referências a Ayrton Senna, a acidentes históricos da F1, ao escândalo de espionagem da McLaren, a modificações aerodinâmicas, fiscais da FIA, parque fechado… Tem de tudo. “F1: O Filme” preenche todos os requisitos para ser um grande filme sobre a categoria.
Poucas vezes o cinema foi tão imersivo sobre o automobilismo.
É claro que comparações com “Rush” surgirão.
Para mim, “Rush” ainda é meu queridinho, meu filme preferido de F1. Mas este longa tem seu próprio brilho.
Tem Brad Pitt. E isso conta.
Vale a pena ver no cinema. É uma experiência rara dentro do automobilismo nas telonas.
Agora, só falta a continuação de “Dias de Trovão”. Tom Cruise, pode trazer para a mesa.
Depois de assistir a este filme, ele com certeza largou a cerveja e disse: “Segura aqui que eu já volto”.
Daqui a uns dois ou três anos, anote: teremos “Dias de Trovão 2”.

