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Eu quero ser sempre “Homem com H”

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É preciso ser muito homem para ser Ney Matogrosso.

 

Nascemos e crescemos em uma sociedade patriarcal, conservadora e machista. O brasileiro também é misógino e racista (pelo menos 3 de cada 10), e estabelece rótulos e concepções prévias para tudo o que é diferente aos seus olhos.

E talvez o grande spoiler que eu posso contar sobre “Homem com H”, espetacular cinebiografia sobre Ney Matogrosso, é que a grande contradição de sua existência foi justamente jamais abraçar os rótulos que pai, amigos, sociedade, imprensa ou qualquer outro acéfalo tentou estabelecer para ele.

Ney Matogrosso é. Ele existe. E isso basta.

 

Intenso, como deve ser

“Homem com H” narra os principais acontecimentos da vida de Ney de Souza Pereira, desde a infância até os 55 anos. No meio do caminho, testemunhamos um ser humano que aceitou, de peito aberto (literalmente), todas as porradas que a vida lhe deu.

A impressão que fica é que Ney sempre soube qual era o seu lugar no mundo, mesmo quando não sabia que poderia se expressar nos aspectos dramáticos através do canto.

Ao mesmo tempo, por entender quem ele era e o que tinha que fazer para ser livre dentro de suas prisões, enfrentou um pai violento ao longo da vida, a traição dos colegas de banda (Secos & Molhados), a desilusão de encontrar vários amores que não foram plenos e a perda de todos a quem amou ao longo da jornada.

Tudo isso poderia ter feito de Ney um ser humano dilacerado por dentro.

Ledo engano.

Um dos maiores intérpretes da história da música brasileira de todos os tempos se manteve firme, pois é uma força da natureza. Sempre foi.

Intenso. Destemido. Corajoso. Singular.

Sempre se comportou como a rocha no leito do rio. Mesmo que as águas correntes fossem as lágrimas no seu rosto.

 

Uma cinebiografia imperdível

Se em muitas vezes os críticos reclamaram que as cinebiografias de músicos nacionais eram um enorme balde de água de salsicha, pautado em um “mais do mesmo” sobre acontecimentos que os fãs já conheciam, “Homem com H” é o diametralmente oposto.

O filme dirigido e roteirizado por Esmir Filho vai a fundo na personalidade do seu protagonista, que escancara suas virtudes e vícios, monstros internos e inspirações, vitórias e derrotas. Tudo isso, feito de forma plena e quase visceral.

E o trabalho espetacular do ator Jesuita Barbosa, que teve a desafiadora missão de interpretar o protagonista dessa história, deixa a narrativa ainda mais imersiva. Sua performance é de entrega total, o que foi mais do que necessário para ser convincente em um papel de tamanha dificuldade.

São 2h09 que passam depressa, pois é uma história que não perde o ritmo, mesmo em seus momentos mais reflexivos. E os mais neurastênicos e rançosos que detestam musicais podem se acalmar, pois a música aparece quando tem que aparecer.

Aliás, este filme não é um musical. É um drama pesado e adulto, algo que o trailer não deixa claro. Então, recomendo aqui uma certa orientação prévia para aquelas pessoas com mentes mais conservadoras.

Ou não fala nada, e deixa essas pessoas se chocarem com tudo o que vai ver.

“Homem com H” é, com enorme facilidade, uma das melhores cinebiografias que o cinema brasileiro já produziu. Comparado com as últimas bombas como o filme dos Mamonas Assassinas, ele é um copo de água bem gelada no meio do deserto do nada.

Ah, sim, claro… o filme dos Mamonas é com copo cheio de água suja e coliformes fecais.

Só para título de comparação.

 

É preciso ser homem para ser Ney Matogrosso

Agora que sei boa parte da história, posso dizer que poucos contam com a coragem na vida para ser um Ney Matogrosso.

Não é apenas o fato de se expor e de ser transgressor ou progressista. É o fato de querer ser livre para se expressar e fazer o que quiser da vida. Isso, no mundo em que vivemos, é tão revolucionário, que naturalmente gera a polêmica.

Para o macho sem noção escroto que não pega mulher nenhuma porque acha que o que importa é ficar com um monte de homem barbudo em cima de uma montanha, eu digo: você não transou com nem a metade de pessoas que Ney Matogrosso pegou na vida.

E, ainda assim… Ney é uma alma sensível, passional e aberta para tudo e todos.

Nossa masculinidade não se define pela roupa que usamos, a barba por fazer ou até mesmo a calça jeans rasgada no corpo. Nada disso define o rótulo de macho alfa.

E definir Ney Matogrosso como homo, hétero, bi, trans… é algo tão redutivo…

Ney Matogrosso é muito maior do que isso. É infinitamente melhor.

É a materialização do mais sincero desejo a ser realizado por qualquer alma humana: ser quem se é.

Ney é tão foda, que até o Kiss plagiou ele (com os lances das maquiagens na cara).

Feliz do povo que teve em Ney Matogrosso um símbolo de livre expressão, de desconstrução do ser moral e racional. Alguém que abraçou o mundo como parte dele.

Ney Matogrosso existe. E ele simplesmente é.

E isso basta.

O bicho homem se transformou em uma entidade singular, com vida e luz própria. Alguém que tem a voz identificada até com os olhos fechados.

“Homem com H” conta, de forma brilhante, a história de um gênio incompreendido.

E se você sair do filme ainda sem entender o que é Ney Matogrosso, está tudo certo.


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@oEduardoMoreira