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Eu precisava fugir deles. Eu precisava me salvar.

Mas só ela poderia me ajudar. E ela me ajudou. Porque ela precisava ser salva por mim.

– Pule. Feche os olhos e pule. Faça isso para não morrer! 

Eu estava desesperado no meio daquele tiroteio. Vi minha vida passar diante dos meus olhos por três vezes naquela madrugada. As balas quase acertaram meu coração, mas só pegaram de raspão no meu braço. Na verdade, eu não tinha medo de morrer ali. Tinha medo de ter minha alma destruída, de ter minhas convicções destroçadas. De ter meus sonhos aniquilados.

A voz dela era firme. Determinante. Não demonstrava ter medo, mas eu sabia que ela estava apreensiva com tudo aquilo. A vida dela também estava em risco, e ela dependia da minha iniciativa para seguir escapando daquele prédio.

Eu disse que não ia conseguir. Ela não desistiu de mim:

– Pelo amor de Deus… pelo amor que você tem por mim… feche os olhos e pule! Confie em mim! 

Era o oitavo andar. A chuva era constante. Ela atrapalhava a minha visão. Eu não conseguia ver onde eu iria cair, pois não conseguia enxergar nada lá embaixo, com a neblina densa que a chuva formava.

Isolei da mente a ideia de que poderia morrer na queda.

Fechei os olhos… e deixei o meu corpo ir para baixo, em um movimento suspenso e único.

Eu senti a ação da gravidade me puxando. Senti o peso do meu corpo agindo, em uma energia que percorria da cabeça aos pés. Senti o vento batendo no meu rosto, como eu nunca tinha percebido que ele era capaz de bater assim.

Então, naquele momento, eu entendi o que ela quis dizer. Entendi o que ela queria quando pediu com tanta ênfase para que eu pulasse.

Ela queria a minha liberdade.

Viver, estar vivo, ser livre… é se atirar de olhos fechados ao desconhecido. É se arriscar. É deixar o vento bater no seu rosto, mostrando como a vida pode ser vibrante, dinâmica e especial. Só vive de verdade aqueles que se arriscam em nome da liberdade. Aqueles que são livres de corpo e de espírito. Aqueles que sabem que vale a pena arriscar tudo para ter uma história para contar.

Quem se arrisca, quem salta para o desconhecido de olhos fechados, vence seus medos. Naquele momento, eu estava aprendendo a valiosa lição de não ter medo da vida, de não ter medo de viver, de querer viver. De não ter medo de morrer em nome dos seus ideais, de convicções. Que a mais nobre luta pela sobrevivência é aquela que garante o seu direito de seguir vivo, prosperando, lutando e vencendo.

A queda ao desconhecido, de olhos fechados, me ensinou tudo isso.

Mas uma hora eu tinha que cair. E eu caí no quinto andar.

Ela chegou logo depois de mim. Se certificou que eu não tinha me machucado na queda, verificou se havia alguma coisa quebrada, e me pediu para que eu levantasse. Ainda tinha um longo caminho até escapar dos soldados que dominaram o prédio.

Homens fortemente armados. Com armas perigosas, como revólveres, escopetas, metralhadoras… mas esses mesmos soldados traziam nas mãos armas ainda mais violentas: o preconceito, o ódio, a indiferença, Soldados disfarçados de falsos profetas, engravatados, pseudo-sociólogos e filósofos da cultura urbana.

Nem mesmo o capitalismo selvagem era tão perigoso que esses homens que destruíam os sonhos das pessoas, aprisionavam almas, acorrentavam corações. Suas armas de destruição em massa não acabam com cidades, mas deixavam pessoas desabrigadas de alegrias e perspectivas, devastavam de suas mentes os planos de dias melhores.

Nós estávamos lutando contra esse império de sofrimento coletivo há muito tempo. Faltava muito pouco para ver essa tirania cair. Mas parecia que a luta era tão pesada, tão massacrante… por muitas vezes me faltavam forças para caminhar e seguir batendo, atirando, lutando… e por muitas vezes ela não me deixou desistir.

Ela foi a minha forte aliada na minha maior batalha da minha vida. E agora, se aproxima o momento que preciso salvá-la.

Os soldados se aproximavam. Eram aproximadamente 50 no quinto andar, e no quarto e sexto andares haviam mais ou menos outros 80, somando os dois. Era muita gente, muitas armas. Os tiros ecoavam pelos corredores, misturados aos gritos desesperados das pessoas que tentavam sobreviver ao cenário de dor e sofrimento.

Os elevadores estavam bloqueados. O que não fazia diferença, pois na descida seríamos emboscados.

Aqueles soldados estavam tomando as escadas com muita velocidade. Ocupando os espaços.

Era um cenário impossível de escapar.

A nossa sorte é que, com ela, o impossível não existe.

De novo, ela assumiu o comando:

– Vamos ter que fazer o inimaginável. Temos que passar cinco andares, voando por cima de todos os soldados. 

Na minha cabeça, rapidamente veio a ideia de que…

– Eu sei que você está pensando que isso é impossível, mas tire essa ideia da sua cabeça.

Sim… ela estava na minha mente.


– Segure a minha mão, e olhe nos meus olhos. Apenas nos meus olhos. Você verá em mim tudo o que você precisa para ultrapassar esses soldados.

Minhas mãos gelaram. Era muita gente. Muitas armas.


– Não tenha medo. Confia em mim. Vamos sair daqui. Juntos. Vivos! 

Eu confiei nela. Eu sempre confiei nela.

Ela segurou minha mão. Eu senti a sua mão acolhedora, firme e confiante.

– Olhe sempre nos meus olhos. Não desvie o seu olhar, em nenhum momento. 

Naquele momento, eu sabia que estava aprendendo outra lição: a não perder o foco, em nenhum momento, independente da dificuldade e adversidade.

Manter o meu olhar fixo naquilo que é essencial, no que é o melhor para mim. Não me deixar levar pelos problemas, pelos obstáculos. Não perder em nenhum momento a visão do que está bem na sua frente. Do que está lá adiante.

Eu olhei para ela. E começamos a levitar.

Foi tudo muito rápido. Tentaram nos acertar, mas os tiros eram rejeitados pela resistência do ar durante o voo. Os soldados ficaram desesperados, porque conseguiam nos ver, mas suas armas não poderiam nos atingir.

Exceto é claro uma bomba que jogaram para cima de mim.

Eu ia cair. Ela disse.

– Eu vou te proteger, custe o que custar. Sua coragem está me salvando. Não posso deixar você ficar pelo caminho. 

Ela se jogou para me proteger da bomba. A bomba explodiu.

Nós dois sobrevivemos.

Conseguimos chegar no térreo.

Eu estava ainda atordoado, mas sabia que ainda não tinha terminado. Me levantei rapidamente, e comecei a lutar com alguns dos homens que cercavam o prédio. Homens cheios de ódio e rancor no coração, desferindo golpes covardes.

Naquele cenário, não havia mais dor. Não havia mais sofrimento, feridas machucados. Eu tinha a coragem. A força para lutar. E seguir lutando.

O detonador do prédio estava pelo lado de fora, em um poste do outro lado da rua. Derrotei na sequência 38 soldados das forças inimigas. Alcancei o detonador.

Esperei ela chegar até mim. Queria fazer isso com ela. Queria que esse momento representasse um recomeço para mim. Um recomeço para todos. Um renascimento de nossos sonhos por dias melhores. De dias de menos lágrimas rolando pelos rostos de mães que choram os filhos que se perdem. De dias com menos pais desesperados para manter uma família. Dias onde teremos o sol da manhã para nos aquecer, mostrando que um novo tempo chegou.

Ela chegou. Agora sou eu que pedi para ela segurar a minha mão.

Acionamos o detonador.

Aquele prédio, cheio de homens que vibravam energias negativas por todos, começou a emanar energias positivas. Os que eram puros e bons começaram a se sentir em paz, e calmamente se dirigiram para a saída do prédio, em segurança. Os que pensavam em ódio, preconceito e destruição, simplesmente ficaram inconscientes. Alguns deles nunca mais acordaram.

A chuva, que até então era torrencial, diminuiu. O sol começou a surgir no horizonte. Um novo dia estava nascendo. Era o sinal que tudo pelo qual lutamos resultou em algo bom. Derrotamos aquele império de terror. Derrotamos aquele exército de medos. Derrotamos os medos que estavam dentro de nós.

Ela me olhou, com olhos cheios de alegria. Um olhar que era vibrante, radiante.


– Obrigado por me salvar. Obrigado por salvar a mim se salvando. Obrigado por ter derrotado os seus monstros internos em nome de uma causa maior: você. Ao se salvar, salvou a mim, aos seus amigos, e as pessoas que você mais ama. Eu estou muito orgulhosa de você. 

Nos abraçamos. Ficamos ali, parados, em silêncio. Deixamos que aquele abraço falasse por nós o que sentíamos naquele momento. Palavras não iriam traduzir o que aquele gesto falava tão bem.

Meus olhos estavam cheios de lágrimas. Mas lágrimas de felicidade. Sentia o sal dessas lágrimas se misturar com o suor do meu rosto e com o sangue na minha boca. Entendi ali que essa era a combinação vencedora dos fortes, dos determinados e resilientes. Essa era a poção mágica daqueles que não desistem.

Eu tenho quase certeza que, nesse momento, muitos de vocês se perguntam quem foi “ela”, que me ajudou nessa jornada.

Essa é a companheira fiel dos soldados incansáveis, dos guerreiros das causas perdidas. Ela não é uma pessoa. É a força motriz de quem não abandona seus sonhos, de quem não se torna refém dos seus medos. De quem não se aprisiona pelas suas escolhas.

Quem me salvou nessa aventura fantástica?

Ela… a Esperança. 

“Eu Tive Um Sonho”
(George Israel, Paula Toller)
Kid Abelha, 1993


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