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Duas vezes.

Eu assisti Star Wars: A Ascensão Skywalker duas vezes. Então, eu posso falar do filme com propriedade. Assim como assisti aos dois filmes anteriores por duas vezes (pelo menos, porque revi os dois filmes dessa trilogia antes de assistir ao terceiro). Ou seja, sobrou em mim boa vontade para gostar. Mas… não rolou! Mesmo!

Spoilers daqui pra frente.

 

 

Eu não queria a ereção Skywalker desse jeito!

 

Antes de mais nada, eu quero deixar bem claro que eu gostei de Star Wars: A Ascensão Skywalker, e digo desde já que este não é um filme ruim. Ele só é um filme decepcionante, previsível e covarde para a conclusão de uma saga de mais de 40 anos. Por isso, é preciso separar bem as coisas para que as pessoas entendam.

Eu me diverti com o filme de um modo geral. O problema é quando começamos a olhar para os detalhes.

É totalmente compreensível os esforços de J.J. Abrams em dar um final digno para a Princesa/General Leia (em função da morte de Carrie Fisher), e se o roteiro original do filme dependia muito dela, o mesmo foi seriamente prejudicado. Tem lógica ser ela a concluir o treinamento Jedi de Rey, e um dos pontos altos do filme foi justamente a sua morte.s

Porém, a montagem final não conseguiu evitar a sensação que tudo ali foi encaixado para poder aproveitar aquelas sobras de cenas da Carrie Fisher, o que prejudicou a narrativa do filme. A decisão de Rey em ir atrás de Palpatine não demonstrou qualquer tipo de conflito ou resistência por parte da General, pois não haviam cenas ou falas para esse conflito acontecer.

Mesmo assim, é um desfecho até digno para a personagem. Porém, esses momentos eram apenas sinais que tais problemas não apareceriam apenas por conta da morte da atriz, mas sim por um roteiro que é confuso, previsível e, principalmente, decepcionante.

O senso de urgência proposto o tempo todo foi totalmente aniquilado pela necessidade absurda em inserir o máximo de fan services possível em apenas 2h20 de filme. Todos os filmes são lembrados, mas de forma embolada, o que faz com que os personagens e o público tropecem em acontecimentos em sequência que só ocorrem porque a perseguição de gato e rato leva a ação de um lugar para outro… porque tudo aquilo precisa acontecer.

Se as pessoas reclamaram da sequência do cassino em Os Últimos Jedi, o que dizer do tour intergalático que Rey, Finn, Poe, Chewie, C-3PO e BB-8 fizeram em A Ascensão Skywalker? OK, eles precisavam chegar a um lugar que eles não sabiam qual era, mas a impressão que fica é que deram tantas voltas de propósito, apenas para preencher o tempo da história.

Não foi uma busca que parecia ser orgânica ou natural. Jamais foi uma jornada ao desconhecido pela aventura ou até mesmo pelo senso de urgência. Foi um ligar os pontos desenfreado que, no final das contas, não empolga. Foi tudo apenas pela necessidade.

As lutas desnecessárias entre Rey e Kylo Ren foi outra coisa que me incomodou.

 

 

Antes disso, é preciso deixar claro que eu entendi qual era a finalidade dessa história: romper de vez com o passado para assim escrever um novo futuro. É um clichê clássico essa história de “você precisa terminar com o que o seu pai ou o seu avô começou”, entregando a falsa sensação da jornada do herói como o destino a ser cumprido, e não apenas e exclusivamente a necessidade nata em agir pelo bem maior.

Dito isso, Rey e Kylo Ren se enfrentaram por três filmes, onde em A Ascensão Skywalker foram DOIS DUELOS (que são outros pontos positivos do filme) para que, quando Rey finalmente derrota Kylo Ren (livrando em partes ele da maldição de ser controlado por Palpatine e se sentir culpado pelos seus crimes), o vilão é RESSUSCITADO PELA FORÇA porque a heroína percebeu o ponto de conexão emocional entre Ben Skywlkaer (nome verdadeiro de Kylo) e Leia Organa.

Tá. É bonito, é emblemático, é significativo. Mas… pra quê ressuscitar o cara?

Ele não serviu para nada depois. Não ajudou a destruir Palpatine, foi morto do mesmo jeito, e só voltou para RECEBER O BEIJO da Rey (mostrando para o mundo que Star Wars é da Disney mesmo, pois a gente podia ficar sem essa) e desaparecer.

Inútil. Desnecessário. Recurso shakesperiano barato.

Os personagens secundários também acabaram virando adereços narrativos sem qualquer relevância.

 

 

Finn virou um avulso looser perdedor sem a Rose (que virou uma qualquer porque os xiitas preconceituosos acabaram com a atriz na internet, e a dona Disney, para atender esse bando de pseudo nerd virjão de 40 anos que não pega nem gripe – que dirá mulher -, praticamente removeu a menina do filme), e no final das contas é praticamente humilhado pelo roteiro preguiçoso, pois nunca disse o que queria para a Rey (o último grande mistério de Star Wars é esse aí, minha gente… que derrota…), e até poderia ter algum envolvimento mais próximo com uma das novas personagens que apareceram nesse último filme, mas toma um olé do Lando na terceira idade. Ou seja, terminou a trilogia sozinho.

Ou melhor… que terminou com aquele que sempre foi a sua outra metade da laranja na saga, o Poe. Ele que, por sinal, virou um insuportável de um filme para outro (ele já estava chato em Os Últimos Jedi, mas nesse aqui… que vontade de socar a cara dele), onde descobrimos que ele tinha a mesma profissão que Han Solo (contrabandista… de especiarias…).

Aliás, uma correção… esse filme tem outro grande mistério: qual foi a mulher que teve a coragem de fazer sexo com o Palpatine para resultar na Rey? Então… de alguma forma isso aconteceu…

E por falar em passado…

 

 

Um filme agarrado demais ao passado

 

 

Eu entendo que Star Wars: A Ascensão Skywalker tinha a missão de encerrar uma história que tem mais de 40 anos, e que as referências de todos os filmes estavam lá para agradar quem era realmente fã da saga. Porém, o festival de fan services resultou na volta do Palpatine, algo que é preguiçoso e desnecessário nos aspectos narrativos.

Menos pior foi a volta de Luke e Han Solo, onde J.J. Abrams traz o mestre Jedi para modificar tudo o que foi feito com o personagem em Os Últimos Jedi (mudanças essas que eu aprovo, pois as pessoas mudam em 30 anos) como parte da sua releitura dos acontecimentos, e até mesmo para corrigir algo que muita gente não gostou em O Despertar da Força, que foi a morte de Han (algo que tem mais jeito de ser pedido de Harrison Ford do que uma decisão criativa de J.J.).

Mesmo assim, esse apego desesperado ao passado da franquia quando tudo apontava para a resolução pelas mãos do novo (algo inevitável ao meu ver, pois era a ideia inicial da nova trilogia e o desfecho óbvio com ou sem Palpatine) fez com que a história não surpreendesse, ficando no lugar comum. Star Wars: A Ascensão Skywalker tem uma jornada e conclusão totalmente previsível, sem surpreender ou ousar.

Era sabido que só Rey poderia derrotar Palpatine. Mas… ela precisava mesmo ouvir as vozes dos demais guerreiros Jedi para entender que ela não estava sozinha naquele momento? Ben Skywalker não poderia surpreender e se sacrificar para acabar com o vilão? Não, não podia… até porque era ele quem tinha que “dar a vida dele” para Rey em um beijo, como toda princesa da Disney precisa para seguir vivendo!

Muitos de nós esperaram pelo novo. Pela surpresa. Por decisões ousadas. Nada disso aconteceu. Nada disso veio. É um filme que segue o protocolo Disney do começo ao fim, adotando decisões de gosto duvidoso e, em alguns casos, que geram vergonha alheia.

Como é o caso da cena final do filme.

Quem se importa com o sobrenome da Rey a essa altura do campeonato? Se ela não queria assumir ao mundo que era uma Palpatine, tudo bem. Mas daí a pegar um sobrenome que não era seu, apenas e tão somente por causa do legado? Que péssimo recado final que Star Wars deixa ao mundo: em tempos onde tem pessoas que acreditam que são melhores que as outras porque tem dinheiro, poder e nome, um filme como esse ao menos poderia deixar a lição positiva em mostrar que o que importa de verdade é quem você é por dentro e o que você pode fazer para contribuir com o mundo. O nome? Não importa.

E eu nem vou falar dos amiguinhos do J.J. vindos de Lost para fazer ponta nesse filme, pois essa é uma vergonha alheia só do diretor.

 

 

Deixou um gosto amargo na boca

 

 

De novo: como filme e somente como um filme, Star Wars: A Ascensão Skywalker é bem produzido, bem finalizado, é divertido e é bom. Mas só isso. Ele falha miseravelmente em ser um desfecho para uma das maiores sagas cinematográficas da história. Ele falha em não trazer a sensação do “valeu a pena assistir por mais de 40 anos”. Ele falha em não deixar marcas inesquecíveis (pelo lado positivo), ou uma história que vamos nos lembrar para sempre, como foi O Império Contra-Ataca.

Como desfecho de saga, ele é comum, insípido e pouco inspirado. Foi aquele Tom e Jerry milionário da Disney, com um ritmo frenético, cheio de fan services e com uma montagem problemática. Seu roteiro e preguiçoso, acomodado, previsível e covarde, com escolhas que jogam fora boa parte do que poderia ter sido e não foi.

Eu entendo quem gostou do filme. E entendo também quem não gostou. Só espero que todos entendam também que esse filme, dentro do contexto que ele tinha e o seu posicionamento em uma saga de nove filmes, foi um lamentável fracasso criativo.

É uma pena, mas… não deu certo!

 


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