Eu disse em um post que iria falar sobre a “Síndrome do Pacheco”, onde sempre temos que arrumar culpados para quando as coisas não dão certo. Agora, vou falar sobre como usam essa síndrome para mostrar o seu pior lado: o pré-conceito.

A eliminação do Brasil envolve um problema do coletivo, e não do individual. Se olharmos individualmente, a maioria falhou em alguma coisa. Incluindo o menino Neymar que, nesse caso, nem acho que mereça críticas. Olhando para o cenário geral, jogou o jogo, fez o que pode, não estava nas melhores condições e nem no seu melhor dia. Já fico feliz por ele não ter feito nada para cavar faltas e pênaltis, ou se vitimizou diante do fracasso. Mostrou que ainda tem um cérebro pensante em sua cabeça.

Talvez o Tite deve ter maior responsabilidade em relação aos erros do Brasil. Demorou para perceber a armadilha tática que o treinador belga armou para envolver a seleção brasileira (Lukaku, teoricamente um centro-avante, puxando o contra-ataque para servir De Bruyne no segundo gol, é apenas um exemplo do que estou falando), e demorou demais para mudar nas peças que não estavam funcionando (Gabriel Jesus e Paulinho). E acredito que, por convicção e caráter, Tite vai assumir para ele a responsabilidade pelo fracasso, inclusive para proteger os seus escolhidos.

Tite pode até ter culpa no cartório por ter mantido Fernandinho em campo, uma vez que ele realmente não estava fazendo um bom jogo. Eu mesmo comentei isso nas redes sociais, e entendi que ele precisava ser substituído.

Agora… culpar APENAS o Fernandinho pela derrota, e usar como argumento comentários racistas?

Pode isso, Arnaldo?

 

 

Nas últimas horas, a internet explodiu, e liberou o chorume da humanidade com a explosão. Uma massa fétida de acéfalos invadiram os canais oficiais de Fernandinho nas redes sociais, e o resultado disso foi uma série de ofensas pessoais contra o jogador. Um dos argumentos utilizados pelos detratores foi o fato de Fernandinho estar em campo no fatídico 7 a 1 contra a Alemanha em 2014. Somado com o jogo ruim que ele fez contra a Bélgica, o cenário estava pronto para uma execução pública por parte do torcedor imbecil que sofre da “Síndrome do Pacheco”.

O que piora a situação é o fato de não ser suficiente para esses “torcedores” apenas criticar o desempenho do jogador, mas se valer disso para manifestar o seu ódio contra a raça negra, com níveis de racismo simplesmente deploráveis. Como se o fato dele ser negro fosse um dos fatores determinantes para um desempenho ruim, uma vez que “preto e macaco” não são inteligentes o suficiente para jogar futebol.

Sim, amigos. A inteligência agora se nivela pela cor da pele. A inaptidão do futebol brasileiro está resumida ao fato de Fernandinho ser negro.

Pelé manda um abraço para vocês.

Aliás, antes de falar do presente, vamos falar do passado.

O Brasil JAMAIS seria o que é no mundo do futebol sem os negros. JAMAIS. Aceita isso. Historicamente, os negros sempre foram decisivos para os cinco títulos mundiais que temos. Aliás, a tal “Síndrome do Pacheco” existia no brasileiro médio burro antes mesmo do próprio Pacheco nascer, já que, em 1950, o grande “culpado” pela tragédia do Maracanã contra o Uruguai foi o Barbosa, goleiro negro, que não defendeu o chute do Varela no segundo gol da final. Em nenhum momento foi o clima de “já ganhou” que tomou conta do Brasil na época, ou um regulamento que claramente beneficiou a seleção brasileira até a final, onde de forma absurda o nosso time jogava por um empate em um jogo decisivo (ninguém questiona isso até hoje?), ou o efetivo salto alto de uma seleção que marcou o 1 a 0 e parou de jogar, esperando o tempo passar. E não combinou com os uruguaios que faria isso.

Ninguém olha para esses detalhes. Mas preferem culpar o cara negro que estava no gol.

Aí, vem cinco títulos mundiais, onde os nossos negros foram decisivos. Pelé, Garrincha, Jairzinho, Romário, Cafú, Rivaldo, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Roberto Carlos… a tão maravilhosa seleção de 1982 tinha como principais craques Sócrates e Zico e NÃO VENCEU! Poderia atribuir isso ao fato de não ter negros como craques? Acho que seria burrice da minha parte, pois entendo que a questão é mais ampla do que a cor da pele. Mas é inegável que o Brasil sempre teve como JOGADORES DECISIVOS os atletas negros.

Aliás, os negros são os melhores na maioria dos esportes de alta performance. São mais fortes, mais atléticos e mais habilidosos. E, se você ainda quer justificar o seu racismo afirmando que os negros são intelectualmente inferiores, devo dizer que Pelé, o melhor jogador de futebol de todos os tempos, não apenas era fisicamente superior, mas tinha uma visão de jogo absurda. Assim como tem hoje Kylian Mbappé, o camisa 10 da seleção francesa, com apenas 19 anos de idade, e Romelu Lukaku, centro avante da seleção belga, que teve visão de jogo para puxar o contra-ataque para o segundo gol da seleção belga.

Logo, qual é o fundamento para os ataques racistas contra Fernandinho? Ah, porque ele fez o gol contra e isso desestabilizou o time brasileiro? Devo lembrar, meu caro amigo racista imbecil, que aquela jogada de cobrança de escanteio com bola na primeira trave é uma fraqueza histórica da seleção brasileira, e vem nos rendendo eliminações em copas desde 2006 pelo menos. Ou você se esqueceu do gol do Henry que eliminou o Brasil naquela Copa, exatamente da mesma forma como o primeiro gol belga de ontem?

Ah, e Fernandinho apenas ocupou o espaço em campo que seria do zagueiro belga Vincent Kompany, outro negro, que até resvalou na bola que bateu no brasileiro, que resultou em um gol contra. Alias, Kompany tem MBA em Manchester, o que mostra que ele, como negro, é mais inteligente que eu e você, juntos.

Aliás, não estamos juntos nessa. Não me misturo com racistas ou pré-conceituosos.

Entendo que todo racista que torce para a seleção brasileira é hipócrita. Afinal de contas, dos 11 titulares que jogaram a Copa 2018, 10 eram da raça negra. Apenas o goleiro Becker é considerado “branco” e, mesmo assim… Ou seja, para torcer pela seleção brasileira, você ignora que são os negros que dominam o jogo. Mas quando tudo dá errado, são os negros os culpados? E você usa o fato dele ser negro para levar a culpa?

Cara… você está tão errado…

Mas esse post não é para mudar a cabeça de um pré-conceituoso. Quem tem o pré-conceito dentro de si dificilmente vai mudar. É preciso um grande choque de realidade para um adulto com convicções formadas mudar de opinião sobre alguma coisa. Essa mudança deveria acontecer nas primeiras fases da vida. Sim, pois o pré-conceito é algo que algum adulto ensina para a criança.

Esse post vale muito mais para conscientizar os meus amigos brancos. Os meus amigos de verdade. As pessoas que eu sei que gostam de mim, mas que, em partes, tem a culpa disso tudo acontecer. Porque acham que o pré-conceito é algo “normal”. Eu já ouvi de uma amiga minha que “todo mundo tem pré-conceito sobre alguma coisa”. Errado! Não me lembro de Jesus Cristo ter autorizado a se ter exceções no “amar ao próximo como a ti mesmo”. Você pode não amar todo mundo, mas não tem o direito de ser seletivo em função da cor da pele, idade, condição sexual e outros fatores tão menores do que o caráter, personalidade e respeito.

Infelizmente, os meus amigos brancos se calam em casos de racismo. Porque eles imaginam que é inacreditável que alguém pense dessa forma nos dias de hoje. Eu até entendo essa visão de mundo, mas é justamente a falta de credulidade que resulta no silêncio sobre tais episódios. Entendo que está na hora dos meus amigos brancos começarem a acreditar que o racismo existe, e que podem me ajudar a combater isso de forma efetiva e prática.

Como? Denunciando o racismo.

Denunciar os racistas para autoridades. Assinar manifestos públicos sobre o tema. Denunciar com os amigos sobre o quanto essa prática é nefasta, e convencer outras pessoas sobre a necessidade da denúncia para coibir a prática. A melhor forma de combater o racismo no Brasil é colocar medo nos racistas. Sim, pois eles morrem de medo das consequências dos seus crimes.

De novo: não vamos mudar a mente dos racistas sobre a forma que eles encaram os negros dentro de suas crenças e ideologias. Mas podemos criar um movimento coletivo onde as pessoas de bem precisam saber o que fazer e, de forma efetiva, fazer a coisa certa para ajudar a nós, negros, a combater esse verdadeiro câncer da sociedade. Entendo que muita gente acredita que nós negros temos que ser ouvidos, que merecemos ter a nossa voz alcançando as massas para mostrar como somos afetados diariamente pelo racismo. Mas vocês, brancos, podem ser o nosso eco. Podem fazer com que a nossa voz alcance a todos.

Eu sempre digo que jamais um branco vai entender os efeitos morais e psicológicos de uma ofensa contra um negro. Só quem está na pele consegue entender a raiva consumindo por dentro por não poder responder a altura em algumas oportunidades, ou a humilhação por achar que, por mais que se esforce individualmente para mostrar as nossas melhores capacidades físicas e intelectuais, sempre vai ter um imbecil que vai nos diminuir por algo que não podemos mudar, como é o caso da cor da pele.

Mas também entendo que, tão condenável quanto o pré-conceito dos brancos imbecis, é a omissão e o silêncio dos brancos de bem, que entendem que o racismo é errado, mas não fazem nada de efetivo para nos ajudar a coibir essa atitude deplorável. E tal postura pode ser mudada. Não é uma questão de cor da pele. É uma questão ética e moral. É fazer a coisa certa pelo próximo.

Por causa de dias como o de hoje, onde Fernandinho é humilhado por ser um atleta negro que falhou na tentativa de vencer, é que o Dia da Consciência Negra perdura. Um dia que é sim de celebração da cultura afro. Mas que deveria ser de profunda reflexão também dos brancos em sobre como estão atuando dentro da sociedade para garantir que todos sejam tratados da mesma forma, com respeito, educação e dignidade.

Mais uma vez, o brasileiro médio mostra o seu pior. Dessa vez, disfarçado na paixão pelo futebol.

E, se nada acontecer, só vai pior. O discurso de ódio e pré-conceito só está ganhando eco com as redes sociais.

Não é difícil imaginar o que virá depois disso. É só olhar dois passos adiante.

Eu, como negro, consigo ver claramente o que pode acontecer conosco. E você?