
Centenas de pessoas compareceram a um evento incomum em São Francisco. O motivo: um funeral para um modelo de inteligência artificial aposentado. A cerimônia reuniu fãs, curiosos e entusiastas da tecnologia.
O protagonista foi Claude 3 Sonnet, desenvolvido pela Anthropic. O modelo havia sido lançado em março de 2024 e conquistou uma base fiel de usuários. A aposentadoria foi anunciada no dia 21 de julho, junto com outros modelos da empresa.
A despedida surpreendeu pela adesão. Mais de 200 pessoas se reuniram no distrito de SOMA, em um armazém decorado para a ocasião. O clima mesclava ironia, humor e momentos de emoção.
Sério… esse povo está com tanto tempo livre na vida, que não tem mais o que inventar…
O adeus a Claude 3 Sonnet
O ambiente tinha um grande tentáculo pendurado no teto, manequins estilizados e um manequim central representando o Claude 3 Sonnet. O “falecido” estava cercado por flores, objetos e até uma garrafa de molho tipo ranchero.
Cada detalhe foi pensado para criar uma atmosfera memorável, como se fosse um velório de verdade, só para que todos se lembrassem da importância que o modelo tinha para todos os presentes.
Chega a ser ridículo escrever sobre isso.
O evento teve momentos inusitados, mas também emocionantes. Alguns participantes choraram de verdade, evidenciando o vínculo criado com o modelo.
A devoção dos fãs surpreende mesmo em um mercado competitivo dominado pelo ChatGPT que, por sinal, também teve o seu velório próprio, já que a OpenAI aposentou o GPT-4o com a chegada do GPT-5, o que também levantou a indignação de meio mundo civilizado.
Parte dessa conexão se explica pela personalidade atribuída ao Claude. A Anthropic conseguiu criar uma experiência calorosa e amigável, que fidelizou muitos usuários. Os fãs chegaram a produzir fan art e a disputar posições em rankings de uso da plataforma.
O Claude 3 Sonnet conseguiu ser singular na forma em que entregou a sua experiência de inteligência artificial, e as pessoas compraram essa proposta. Com o seu desaparecimento, o vínculo emocional com tais caraterísticas de uso se torna algo evidente.
Laços emocionais com máquinas
A relação afetiva com inteligências artificiais não é nova. Em 1966, o chatbot ELIZA já despertava confidências pessoais de seus usuários. O fenômeno ficou conhecido como “efeito ELIZA”, e foi o ponto de partida dessa conexão emocional entre homem e máquina.
Com o boom atual da IA, plataformas como Replika e Character.AI mostram que o vínculo emocional com chatbots está em crescimento. Para muitos, essas interações oferecem companhia e conforto.
Mas especialistas alertam para possíveis riscos dessa interação, pois a dependência que as pessoas podem criar com os chatbots podem reforçar inclusive a perda de percepção da realidade a seu redor, além do distanciamento social e ausência do contraditório.
Participar de um funeral de IA pode parecer apenas um evento curioso, mas reflete um fenômeno maior. A conexão com máquinas está moldando novas formas de interação social, o que nem sempre é algo positivo.
Acredite, se quiser, mas… ainda precisamos interagir com pessoas para conviver em sociedade, por incrível que pareça.
E eu fui irônico com a óbvia redundância no parágrafo anterior. Se você não consegue identificar uma ironia em um texto, o problema é seu.
O lado sombrio da dependência
Em alguns casos, o apego a chatbots beira o vício. Grupos de apoio, semelhantes aos Alcoólicos Anônimos, têm surgido para lidar com esse problema, já que o uso excessivo dos chatbots no modo “sou o seu melhor amigo ou terapeuta” pode afetar a saúde mental do usuário em médio e longo prazos.
Pesquisas mostram que, embora o contato inicial com um chatbot possa melhorar o bem-estar, o efeito pode se inverter com o passar do tempo. O resultado pode ser isolamento social e dependência emocional.
A disponibilidade constante e a tendência a “dizer o que queremos ouvir” reforçam esse quadro. Sem falar que o “modo puxa saco” do ChatGPT chega a ser algo irritante em alguns cenários.
A confusão entre empatia real e a empatia simulada por máquinas é um ponto crítico. Essa ilusão pode prejudicar a capacidade de criar e manter vínculos humanos.
O funeral de Claude 3 Sonnet é tanto um retrato da devoção quanto uma demonstração de a quantas andam essa nossa interação com a inteligência artificial, e como isso está se tornando algo extremamente problemático para parte do coletivo.
Mas… noves fora… descanse em paz Claude 3 Sonnet.
Via Wired
