Compartilhe

Somos todos iguais? Mesmo?

Eu não assisto ao BBB há muito tempo, e pouco sei sobre o que está rolando no BBB 19. E o pouco que eu sei já é o suficiente para ficar bem longe do programa. Só sei que tem uma menina lá, a tal de Paula, que pode vencer o programa, mesmo sendo a participante mais racista da história do reality. Dizem.

Na opinião de Paula, não deveria existir cotas para negros nas universidades. Esse é um tema polêmico, pois eu mesmo sou contra a cota para os negros, desde que o Estado garanta uma educação de base decente para todos. Porém, reconheço que, sem tais cotas, os negros mais promissores que nós temos não teriam qualquer chance.

Para Paula, existe o racismo reverso. Aqui, não há polêmica: quem acredita em racismo reverso também acredita em unicórnios. Não existe racismo reverso. Não existe uma mulher branca, loira e de olhos azuis como Paula ser diminuída por essas características. Na prática, ela ainda pode virar inspiração para uma letra de música da Bossa Nova.

Para Paula, humor negro é fazer um monte de piadas racistas diante de uma pessoa negra. Aqui, vemos a ignorância dela e, muito provavelmente, de muitos brasileiro médio, que também deve entender mais ou menos a mesma coisa. Aproveito a oportunidade para que todos aprendam um pouco sobre o assunto: o humor negro é um subgênero do humor que utiliza situações mórbidas, de politicamente incorretas, para extrair comicidade, ou que insere elementos mórbidos, macabros e/ou trágicos em situações cômicas. Entre os temas retratados pelo humor negro estão a morte, doenças, desgraças, entre outros.

Ou seja, não tem nada a ver com fazer piadas racistas. Aliás, piada racista não é humor. É racismo mesmo, tá?

Muitos estão reclamando que Paula pode vencer o BBB 19 com essa visão de mundo. Se ela vencer um reality cujo objetivo final é fazer a audiência dar R$ 1.5 milhão para O CANDIDATO MAIS POPULAR (e não aquele que tem alguma habilidade ou talento especial, como acontece em programas como MasterChef e The Voice), está mais ou menos confirmada a teoria que, em linhas gerais, o brasileiro médio é sim racista. Ou melhor, se alinha com a visão de mundo que Paula tem, e não se importa com isso.

Outro elemento de prova do que eu estou falando é o recente vídeo compartilhado nas redes sociais, onde duas garotas brancas (uma loira e uma morena) começam a humilhar um atendente negro de uma unidade do Bob’s, que está ali, fazendo o seu trabalho, cuidando de sua vida, varrendo o chão da loja.

Aqui, eu nem acho que há o tal crime de racismo, apesar de eu mesmo me perguntar se o tratamento seria o mesmo se o funcionário fosse um loiro de olhos azuis, ou se fosse um clone do Cauã Reymond. Nesse caso do incidente do Bob’s, o que rolou foi mais uma humilhação mesmo. Diminuir o outro que está fazendo o seu trabalho honestamente. Chamar de “fudido” e sugerindo que o cara tinha que lamber o chão por estar naquela situação.

O que eu temo é descobrir aos poucos que o brasileiro médio é assim. É aquela pessoa que vê alguém tentando vencer na vida de forma honesta, e acha que essa pessoa é uma fudida, e que quem humilha se deu bem e venceu.

 

 

Há muito tempo que eu abracei a teoria do “o brasileiro só é solidário no câncer”. Na verdade, a frase original é “o mineiro só é solidário no câncer”, e é de autoria de Otto Lara Resende, que a inseriu no livro “Bonitinha, Mas Ordinária”. Sabe, o título do livro e a frase é quase uma metáfora sobre o brasileiro médio. Sobre a patricinha branca loira de olhos azuis.

Bonitinha, mas ordinária.

Não foram poucas as pessoas que eu conheci na vida que se comportam como Paula presa por meses em uma casa para ganhar R$ 1.5 milhão, ou como a menina que chamou o funcionário do Bob’s de “fudido”. Não foram poucas as vezes que eu ouvi um “negro de alma branca”. Viver em uma região do Brasil onde o racismo é algo incorporado no inconsciente coletivo só ressaltou a minha impressão que o racismo não é algo regionalizado, mesmo entendendo que tudo o que eu encaro aqui é bem pior do que eu vivi até mesmo no meu estado de origem.

Não entender o que é humor negro, acreditar em racismo reverso, chamar um funcionário negro do Bob’s de “fudido”… o brasileiro médio pensa assim. O brasileiro médio é o retrato do “Bonitinha, mas ordinária”. E, sinceramente? Se Paula vencer o BBB 19, será um resultado absolutamente normal. E eu ainda vou ouvir um “deram o prêmio para ela justamente para mostrar que o brasileiro não é racista”.

Ou seja, “o racismo não existe no Brasil”, porque o brasileiro médio quer assim. Porém, no seu cotidiano, aplica as práticas que apontam exatamente para o contrário.

Fogo nos racistas? Ou fogo em boa parte da sociedade brasileira?

Haja gasolina para tanta gente!


Compartilhe