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Eu quero amar… mas é impossível!


Eu estou sentado no chão daquela sala quase vazia, nua de móveis. Olho para aquelas caixas que abrigam o que sobrou de mim. Aquilo que eu considerava mais importante dos meus bens materiais, como se bens materiais valessem alguma coisa naquele momento.

16 caixas. Não vou esquecer esse número nunca mais na minha vida.

Eu olho para as caixas, esperando o tempo passar. Esperando o táxi que vai me levar para a rodoviária chegar. E pensando em tudo o que restou de mim. E ver que não tinha nada de nós naquelas caixas.

Eu quero amar. Mas naquele momento, eu não sinto amor.

Sinto os meus pedaços quebrados se remexendo dentro de mim. Sinto a ausência de mim mesmo, na frieza da minha decisão de ir embora. Para não mais me lembrar que éramos um só, mesmo sendo dois. Eu simplesmente não queria mais me lembrar, porque lembrar ia me fazer pensar. E pensar iria me trazer dor.

E eu estava indo embora para não mais sentir dor.

E eu estava sentindo muita dor. Mas não amor.

Eu quero amar. Mas, para mim, era impossível naquele momento.

Eu me levanto, tentando fazer com que meus braços e pernas se movimentem um pouco, para fazer o sangue circular, tentando alcançar o cérebro para, quem sabe, fazer com que meu raciocínio funcione melhor. Talvez eu tivesse que raciocinar melhor antes de tudo isso acontecer. Antes de tomar uma decisão definitiva. Antes de colocar meus sonhos de ser feliz em uma caixa e me mudar para outro estado.

Eu olho as paredes vazias. Me lembro de cada móvel que estava lá. Dos retratos que estavam nas paredes (alguns deles tortos, porque a vida não é perfeita). Caminho pela cozinha…. a pia baixa, a mesa que sempre ficava bamba, mas que de tempos em tempos ficava cheia de gente ao redor, mesmo que na casa não coubessem muitas pessoas.

Eu olho o sol do final da tarde adentrando os seus últimos raios, se despedindo daquele que seria o meu último dia como morador daquela casa. É duro chamar de casa uma residência que por muitos anos chamei de lar. Ah… eu amava aquele lar. Amava poder chegar dos ensaios e te encontrar. Poder contar como era meu dia, discutir sobre política, futebol e religião com alguém que sabia como compreender com amor todas as divergências de opinião. De poder ver TV e comentar sobre o que estava assistindo.

Era um lar, sim. Um lar com alegria e amor na maior parte do tempo.

Amor. De novo essa palavra.

Eu quero amar. Sim, é claro que eu quero.

Mas com o corpo tão dilacerado, com tantas cicatrizes, com um sentimento tão acinzentado, onde eu me sentia morto por dento…

Eu não consigo amar!

Eu estava decepcionado. Decepcionado comigo mesmo, inclusive. Eu sei que eu me sentia traído por conta das circunstâncias e atitudes tomadas, mas eu confesso que traí à mim mesmo. Me sentia um derrotado diante do fato de que tudo estava chegando ao fim, quando o que mais queria era seguir até o fim. Mas o fim chegou antes. De coração, eu não queria o fim. Mas entendo que fui parte do processo para o fim.

Olho para a porta. A porta de saída. De saída dessa história, ou pelo menos desse capítulo da história da minha vida. Vejo a rua já iluminada com a luz artificial dos postes. Uma rua silenciosa, com poucos movimentos de carros. Um caminho silencioso, que ia marcar a minha saída da cidade. Do estado.

Eu quero amar. Quero amar… alguém que eu possa confiar.

Quero alguém que pelo menos queira ficar comigo até o final. Ou que me diga quando não mais acredita que serei capaz de ficar. Ao ouvir isso, pode ter certeza… eu faria de tudo para convencer do contrário. Faria de tudo para mostrar que eu não só era capaz de ficar ou que queria ficar, mas também que fiquei por amor.

Fui acusado de não saber amar, pois “quem ama, fica”. Eu concordo. Mas… tudo o que aconteceu me ensinou de forma dura a lição que, a partir do momento em que não mais poderia acreditar, que outros estavam entrando em um mundo que não os pertencia, e que a base de uma relação estava completamente destruída, que a única opção que eu tinha era amar à mim mesmo, antes de qualquer coisa.

Tive que aprender a me amar antes de amar alguém… para me salvar. E, ainda assim, depois do fim, ainda me perdi pelo caminho pelas falsas promessas, pelas ilusões, pelas mentiras, traições.

Talvez meu erro seja querer amar e, por conta disso, acreditar no amor falso daqueles que fazem de tudo para vender um falso amor que não sobrevive à ação do tempo. O mesmo tempo que me mostrou a verdade sobre tanta gente. O mesmo tempo que mostrou a verdade para mim mesmo.

O tempo mostrou quem eu sou.

Eu recosto a minha cabeça na porta, pois ela pesa. Sinto todo o peso das minhas decisões, resistindo às consequências dos meus atos, e talvez prevendo que, por causa do fim, eu iria me perder completamente em outras decisões estúpidas e equivocadas.

Eu tinha que passar por tudo isso. Eu tinha que mentir para mim mesmo que amava. Me iludir para aprender tantas lições valiosas, que hoje me deram a força e a coragem de fazer essa profunda reflexão sobre a minha vida, através das músicas que tanto amo.

Eu quero amar. Mas precisava primeiro aprender a me amar. E ir embora iria me ensinar isso.

Não ia aprender a amar em outros braços. Ia aprender a amar me abraçando. Fazendo dos meus braços forças motrizes para realizar meus sonhos, desenvolver meus trabalhos e projetos, criar e produzir música, encontrar soluções para os meus problemas cotidianos.

Ia aprender a me amar, e também a viver. Aprender com a vida como era fundamental entender algumas variantes da vida, para não me perder mais. Apender a ser só, mas ao mesmo tempo não me sentir só, já que o mundo é imenso, cheio de pessoas interessantes a conhecer e se conviver.

Reaprender a olhar para os outros com amor e fraternidade, e com sorte, receber esse olhar de volta. Deixar que meus olhos voltassem a ser as janelas da minha alma, ou o principal sinal de minha transparência de pensamentos e sentimentos. Olhar para as pessoas com alegria e esperança. A esperança de que laços indissolúveis são criados a cada conversa, a cada encontro.

Eu coloco a chave na porta pela última vez. Carrego as caixas onde abrigo meus sonhos para o carro.

Fecho a casa, que fica vazia. Deixo naquele local os meus pesares, os meus medos. Carrego comigo as minhas saudades.

Sentir saudades é uma forma de amar.

Mas… fui embora. Mudei de cidade, de estado.

Mudei bastante desde então.

Mas uma coisa é certa: eu ainda quero amar. Muito.

Mas hoje sei que quero amar de uma forma diferente.

Hoje, eu amo a ideia de saber que posso amar de novo. Iniciar uma nova história. Reescrever o meu conceito de amar alguém.

Eu amo a ideia de me dar uma nova chance para amar.

E acredito, de coração, que esta é a melhor forma que posso dizer que eu aprendi a amar a mim mesmo.

Sim… eu quero amar.

Amar de novo não é mais algo impossível.



“I Want Love”
(Elton John, Bernie Taupin)
Elton John, 2001


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