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IA premium, a nova segregação econômica

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O Google está cobrando US$ 250 mensais pelo Gemini Ultra mais avançado. A OpenAI cobra US$ 200 pelo ChatGPT mais poderoso. E a Anthropic cobra US$ 200 pelo Claude menos burro.

Percebeu que temos um padrão aqui?

Está criada uma clara distinção ou segregação econômica, baseada no poder de compra dos usuários. E o discurso inicial de acesso universal à tecnologia de inteligência artificial foi completamente esquecido.

As versões mais poderosas de qualquer IA são exclusivas para assinantes que pagam mensalidades de três dígitos mensais.

Quer fazer mais com a IA? Que pague!

Para os demais… migalhas!

 

Uma nova divisão social

Antes, as pessoas eram divididas entre usuários e não usuários de plataformas de inteligência artificial. Agora, é no modo “quem pode pagar a mais por isso”.

A grande parcela da população vai ficar com plataformas de IA que fazem o básico bem feito, mas sem raciocínio mais profundo, maior poder de processamento e potencial criativo expandido para soluções mais complexas.

Quem vai usar a IA para listas de compras, receita de miojo e conversa com o psicólogo não vai reclamar de nada disso, e vai achar o artigo coisa de esquerdista.

Mas o buraco é sempre mais embaixo.

As plataformas mais avançadas de inteligência artificial são sistemas operacionais completos para o trabalho intelectual. São assistentes que compreendem contexto, mantêm memória, executam ações, geram conteúdo e automatizam processos de forma integrada.

São versões de IA tão poderosas, que podem ser consideradas a evolução definitiva para o próximo passo: os agentes autônomos.

Podem executar tarefas que iriam levar dias para qualquer ser humano fazer, e entregando resultados superiores. O conceito de produtividade será redefinido com as plataformas mais avançadas.

E também vamos redefinir questões como a desigualdade no mercado de trabalho e o fosso social entre os profissionais.

Quem pode pagar a mais tem mais chances de manter seus empregos, por exemplo.

 

Estão tratando a IA como se trata uma Ferrari

Não estamos falando da capacidade tecnológica das plataformas de inteligência artificial mais básicas. Insisto que elas atendem bem aos menos exigentes.

Estamos falando do viés de concentração financeira para receber a melhor versão dessa tecnologia.

Passaram a tratar as plataformas mais avançadas como produtos de luxo, e não como ferramentas fundamentais para melhorar a vida dos usuários.

As empresas criaram vantagens competitivas invisíveis para as castas mais elevadas da população, mas que causam impactos profundos em um grande coletivo de usuários.

Quem pode acessar os modelos mais avançados opera em uma curva de aprendizado acelerada e uma economia de resultados superior. Enquanto isso, aqueles sem condições financeiras permanecem limitados a versões menos capazes, criando uma disparidade crescente de oportunidades.

O paralelo histórico com a Revolução Industrial é evidente, onde o maquinário inicialmente multiplicou a produtividade apenas para aqueles com recursos para adquiri-lo. A situação atual espelha esse padrão, com a IA avançada se estabelecendo como uma infraestrutura de elite.

E é inacreditável ver que, de tempos em tempos, voltamos para conceitos arcaicos entre as relações econômicas e laborais.

Ou nunca deixamos tais conceitos na prática.

A analogia com o acesso inicial à internet é particularmente relevante, como se essa tecnologia fundamental estivesse disponível apenas para usuários dispostos a pagar milhares de dólares anuais.

No caso da internet, isso não aconteceu nem no seu início de vida para o grande público. Se você não tinha uma conexão em casa, poderia ir para uma universidade para acessar, ou com sorte a sua escola tinha computadores disponíveis para isso.

A inteligência artificial já possui uma profunda influência na forma em como as pessoas aprendem, tomam decisões e competem no mercado do trabalho.

É um impacto que não se vê de imediato, mas que se constrói progressivamente. Hoje, trabalhamos com menos atrito, estamos mais informados na tomada de decisões, produzimos conteúdos com uma qualidade superior e gastamos um tempo menor na hora de realizar tarefas que antes eram maçantes.

É injusto ver que a maior parcela da população vai ficar à margem do máximo potencial dessa evolução, com acesso limitado ao básico.

Enquanto isso, a nova elite dominante da tecnologia vai avançar rapidamente, consolidando ainda mais o seu poderio financeiro e, agora, tecnológico/intelectual.

E se você ainda acredita em meritocracia depois de ler tudo isso, me desculpe, mas você é um trouxa.

E Deus abençõe o DeepSeek!


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@oEduardoMoreira