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Vamos falar da saudade. Essa máquina do tempo emocional que todos nós carregamos no coração.

Nossa memória é, definitivamente, algo impressionante. Eu me lembro que ouvia essa canção quando eu era criança, e ela sempre me trouxe uma sensação de tristeza profunda, mesmo sem compreender direito o que o texto queria dizer.

Quando somos crianças, certos sentimentos não estão completamente consolidados e compreendidos em nossa essência. Amor e saudade, por exemplo, são sentimentos que só compreendemos quando chegamos, quem sabe, na adolescência. Na infância, simplesmente gostamos de mamãe e papai e de alguns amigos da escola.

Mas não compreendemos exatamente o que é o amor. Perder um grade amor então… nem pensar! No máximo choramos muito quando nosso brinquedo favorito quebra.

Ou será que essa é a forma de começarmos a compreender o que é o amor? Talvez sim. Talvez não. Não existe uma regra universal. Cada um tem o seu tempo e momento de identificar, compreender e assimilar o que é o amor.

Mas quando eu era criança, eu me emocionava com essa canção. Assim como me emocionei com tantas outras: Porto Solidão, Luíza, O Bêbado e a Equilibrista… talvez fosse a minha alma musical já despertando para a sensibilidade que hoje seria necessária para fazer música.

Enfim, de qualquer forma, eu não compreendia direito o que a letra queria dizer.

Foi apenas chegando na vida adulta, depois de perder pessoas muito queridas na minha vida, que consegui efetivamente interpretar o que era o verdadeiro amor. E por que eu sinto saudades por amar alguém.

Aliás, saibam vocês que a palavra SAUDADE só existe em português. Para outros idiomas, o mais próximo dessa palavra é a expressão “eu sinto sua falta”. O que, obviamente, não é a mesma coisa.

Dito isso, em uma canção que fala essencialmente de saudades, hoje eu percebo que, naquela época, eu sentia as saudades daquilo que ainda não havia vivido. Talvez fosse um presságio de como eu iria me sentir no futuro em relação às pessoas que eu amo. Eu realmente sinto saudades de algumas pessoas que me foram especiais na minha jornada. Na verdade, ainda são especiais, pois permanecem em meu coração.

Sim… saudade é um troço que dói dentro da gente. É uma dor emocional que se torna física. De tempos em tempos eu sinto dores no peito por pensar demais em algumas pessoas, e justamente por sentir saudades dessas pessoas.

O melhor remédio nessas horas? Chorar. Deixar essas saudades se traduzirem em lágrimas. Faço isso até mesmo para poder respirar novamente.

Sentir saudades de alguém é a forma que seu coração tem para dizer que ama essa pessoa. Muitas vezes as pessoas saem da nossa vida não porque decidem sair, mas porque acabam escolhendo outros destinos. É difícil para nós entendermos que não fomos abandonados, mas sim que essas pessoas que amamos decidiram fazer o que normalmente faríamos no lugar delas.

Correr atrás da felicidade.

Diante disso, temos aquele sentimento agridoce de saber que aquela pessoa teve a coragem de partir para ser feliz, mas a dor de ficarmos sem a sua presença. De coração, eu torço pela felicidade das pessoas que eu amo, porque não tem preço ver a alegria dessas pessoas diante das realizações.

Já as saudades daquelas pessoas que foram virar estrelas no céu… essas são diferentes. Nos lembramos com carinho e alegria os bons momentos. Ficamos com a certeza de que esses seres agora nos observam, nos protegem e torcem para que nossa jornada seja a mais plena e feliz possível.

Com sorte, essas estrelas no céu sentem saudades de nós lá em cima. E, quando choram, brilham mais forte, por causa da luz refletida com as lágrimas de saudades que rolam de tempos em tempos.

Enfim, amor e saudade são sentimentos que sempre estiveram comigo. Provavelmente estarão até o fim da minha vida. Afirmo isso porque, de tempos em tempos, eu digo para algumas pessoas que me entrego completamente a qualquer coisa que faço na vida.

E para sentimentos tão fortes, não seria diferente.

Talvez a gente se faça prisioneiros do amor e da saudade por vontade própria. Escolhemos viver assim porque nos sentimos confortáveis com as lembranças de tempos felizes. Porque, nos momentos de tristeza e solidão, queremos nos sentir melhor lembrando dos momentos em que fomos mais felizes.

Talvez o destino nos faz prisioneiros de nossas lembranças felizes, como uma única alternativa para traçar uma linha do tempo alternativa ao nosso momento presente. O destino, em determinados momentos, pode nos oferecer uma máquina do tempo emocional, nos transportando de volta para esses momentos.

Seja como for, cabe a cada um de nós escolher como e em quais condições voltaremos no tempo. Mas entendo hoje que é inevitável fazer essas viagens de tempos em tempos. Mas… cuidado com o que vai levar e trazer na bagagem. Jamais carregue algo a mais do que o seu coração pode suportar.

Quem diria… você jamais poderia imaginar que uma canção tão fora da curva, tão diferente de minhas preferências musicais, fosse falar de sentimentos tão relevantes.

Eu mesmo me surpreendi com isso.

Mas fico feliz em ver que esse projeto cumpre o seu papel: revisar minha vida com todas as possibilidades musicais.

E a melhor parte é que faço isso com uma canção que ouvi desde criança. Onde tive momentos realmente muito felizes.

Como é bom ter histórias para contar. E ter saudades de algumas delas.

“Idas e Voltas”
(Paulinho Rezende, Paulo Debétio)
Matogrosso e Mathias, 1985


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