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Se apaixonar novamente… é dar mais uma chance para você mesmo.

Ele sentia aquele frio na barriga de novo, e não era fome. O jantar com ela foi ótimo: o restaurante era ótimo, com uma comida espetacular, música ao vivo agradável. Tudo era perfeito. Tudo estava propício para um pedido ou anúncio especial.

Ele estava saindo com ela há seis meses, como amigos. Se davam muito bem, pois ela era uma simpatia. Articulada, sabia se expressar muito bem, muito culta e educada. Ele via tantas qualidades nela, que era difícil para ele enumerar todas. Ele se sentia feliz e especial ao lado dela. Ela também gostava muito dele: via como ele era inteligente, gentil, igualmente educado, honesto, cavalheiro…

Ele era o homem que toda mulher gostaria de ter, mas ela queria aquele homem apenas para ele.

Eles seguiam conversando normalmente, sobre temas do cotidiano. Assuntos banais, mas que não traziam preocupações de lado a lado. Era uma conversa agradável, onde os dois estavam se conhecendo melhor, até mesmo para identificarem se estava na hora daquele relacionamento seguir adiante.

Os olhares entre eles se cruzaram várias vezes naquela noite. Não por estarem sentados um diante do outro, mas principalmente porque havia aquela cumplicidade boa de duas almas que se encontram.

Logo, alguém tinha que dar o primeiro passo. E esse alguém foi…

…ela.

Ele começou a ouvir atentamente o que ela tinha a dizer. Ela falou de como a companhia dele a fazia bem, de como ela se sentia perto dele, de como ela pensava nele o tempo todo, de como o seu coração se enchia de felicidade ao constatar que ele estava na vida dela… em como ela não queria mais que ele saísse da vida dela.

Por fim, ela se declarou, pedindo ele em namoro. Algo incomum nos tempos de hoje, mas era um sinal claro de que ela era uma mulher forte, decidida e que sabia o que queria.

Ela queria ele.

Ele ficou pensando por alguns segundos, parado, estático. Olhando para ela.

Naquele curto espaço de tempo, ele ficou pensando no seu último relacionamento. Um casamento que chegou ao fim por conta de uma traição de sua ex, que preferiu ficar com um babaca qualquer da academia, apenas e tao somente porque ele era fisicamente mais atraente. Mal ela sabia depois que ela seria apenas mais uma na lista de conquistas dele.

A ex tentou voltar. Ele não quis. Ele sofreu demais por tudo aquilo. E nesses segundos em que refletiu sobre sua história de amor que chegou ao fim de forma desastrosa, ele sentiu medo. Sentiu novamente a dor da separação, da perda, da frustração.

A moça apaixonada ficou preocupada com ele. Perguntou se ele estava bem, se ele tinha ouvido a proposta dela, ou se precisava chamar o serviço de resgate por conta do aparente choque emocional que ele sofreu.

Ele respirou fundo, e pensou umas dez vezes antes de abrir a boca. Não queria magoar a amiga. Não queria simplesmente descartá-la, pois realmente gostava dela.

E disse:

“Não é o meu momento… eu tenho medo… medo de sofrer de novo.”

Os olhos dela se fecharam. Ela não se sentiu rejeitada, mas precisava contornar a situação rapidamente para não perder aquele homem. Ela sabia que, por ele, valia a pena lutar todas as lutas que viriam pela frente. E sabia que aquela era apenas a primeira de outras tantas que viriam.

Ela respirou fundo. Segurou nas mãos dele, com ternura. Começou a acariciar as mãos daquele homem que mostrava sua fragilidade diante da possibilidade de amar de novo. Ela entendia o lado dele: testemunhou parte do processo de divórcio entre os dois, e viu como o amigo ficou no chão nas primeiras semanas após assinar o papel.

Ela abre os olhos. Volta a olhar nos olhos dele, para que ele possa acreditar no que ela está prestes a dizer. Ela quer que ele veja nos olhos dela que ela é sincera nos seus sentimentos e propósitos.

E diz:

“Não tem momento… o momento é agora… a vida passa tão depressa… não tenha medo de tentar ser feliz…”

Ele fecha os olhos e começa a chorar.

Ela se preocupa, pois talvez não tenha enxergado o lado dele. Afinal de contas, ele é um ser humano. Tem sentimentos. Com certeza está sofrendo porque sente falta de como era feliz, mesmo que essa felicidade era falsa, ou uma aparente ilusão. Ele não queria sair da realidade em que ele se condicionou a sofrer pelo fim de uma história onde ele dedicou a vida dele para terminar em um cenário desolador.

Ela pede de novo para que ele olhe nos olhos dela. Segura as mãos dele com mais força, como se ela estivesse dizendo que não queria perder aquele homem. Que não queria desistir do sentimento dela. Acreditando que ela poderia fazer aquele moço feliz, e ser feliz ao lado dele.

Ele cria coragem para olhar para ela mais uma vez.

Ela diz:

“Viver com medo é como não viver… e viver é correr riscos…. mas… olhe nos meus olhos… do fundo do meu coração… eu quero te ver feliz… quero ser feliz ao seu lado… se dê essa chance… e me dá essa chance também…”.

Ele sente um arrepio nas costas. Volta a sentir o frio na barriga. Aquelas palavras falaram fundo nele.

Ele se acalma. Ela enxuga suas lágrimas. Ela acha lindo o fato dele ser sensível a ponto de não ter vergonha de chorar. Nesse momento, ela se apaixona ainda mais por ele, reforçando o seu desejo de iniciar uma história de amor com ele.

Ele começa a falar. Pausadamente:

“Me prometa que não vai destruir meu coração… me prometa que seremos cúmplices antes de namorados, amantes ou casados… me prometa que vai me fazer entender que posso amar de novo… porque eu já te amo por você me amar, mas tenho medo de me machucar…”

Ela entende as palavras dele. Ela entende que tudo o que ele quer é amar e, em troca, ser amado. É a síntese de qualquer romance.

Naquele momento, ela entende que tem como principal missão primeiro cuidar daquele homem, que no futuro vai cuidar dela. Ela compreende que a sensibilidade que ele traz dentro de si é a sua maior força, e não um sinal de fraqueza.

Ela entende que não só precisa prometer. Mas sim criar um pacto com ele. Algo que seja definitivo. Muito mais sagrado que um SIM na igreja ou uma assinatura em um cartório.

Então, ela percebe que não está tocando música alguma no restaurante. Vê que o piano está vazio, e que o músico responsável pelo couvert artístico da noite está no bar.

Ela convida ele para dançar. Havia um vão livre no restaurante, que permitia que algumas pessoas que assim desejassem dessem alguns passos curtos.

Ele ressalta que não tem música alguma tocando naquele momento. Ela pede que ele confie nela.

No meio do caminho, ela delicadamente pede licença para seu parceiro. Se dirige ao músico, cochicha algo no ouvido dele por aproximadamente 20 segundos. E volta para o seu parceiro.

Eles se colocam no meio do restaurante, no tal vão livre. Eles se posicionam, e começam a dançar. Lentamente.

A situação para ele é surpreendente e desconfortável. Mas ele decidiu confiar nela. Rapidamente, ela encosta a cabeça no peito dele. E diz:

“Me deixa ouvir o seu coração… me deixa ouvir o que ele está dizendo… e eu acho que eu sei o que ele diz… e todo esse restaurante vai ouvir a partir de…. agora.”

No piano, começa “If I Fell”, The Beatles. E ele amava The Beatles.



“If I fell in love with you
Would you promise to be true
And help me understand
‘Cause I’ve been in love before
And I found that love was more
Than just holding hands


If I give my heart to you
I must be sure
From the very start
That you would love me more than her”

Essas palavras absorveram ele de imediato. Ele entendeu o recado. Ele a abraçou com força.

Ela mais uma vez olha nos olhos dele, para dizer as palavras mais importantes da sua vida até aquele momento:


“Me dá uma chance para te fazer feliz… se eu conseguir, eu tenho certeza que você vai me fazer feliz também… e isso é tudo o que eu mais quero na minha vida…”

Ele acaricia o rosto dela. Era o sinal de que ele estava silenciosamente aceitando ela em sua vida, em um contexto completamente novo. Ele estava se permitindo. Ele estava aceitando o novo amor. Estava se dando mais uma chance. Mais uma chance para reforçar as suas convicções de verdadeiro amor.

Ele estava dizendo SIM.

Ela fechou os olhos.

Ele se inclinou, e beijou seus lábios de forma apaixonada.

Um beijo acolhedor, que não necessariamente era sensual. Era uma entrega de sentimentos muito nobres que ele tinha para dar para aquela mulher. Esse amor todo que ele tinha o tornava especial aos olhos de muita gente, mas para ela o tornava único.

O beijo durou o restante da música. Eles não dançavam mais. Apenas sentiam um ao outro, de forma branda e apaixonada.

A música terminou. Não ouviram aplausos dos demais clientes, pois esta não é uma cena de Hollywood, mas sim a vida real. Tudo foi visto por todos, mas era tão bonito, que foi apenas uma visão de contemplação para outros casais. Uma fonte de inspiração, que serviu de reflexão para muitos presentes naquele restaurante.

De mãos dadas, eles voltaram para a mesa.

Ele olhava para ela com um sorriso nos lábios. Um olhar diferente, com um brilho nos olhos que era único. Ela se embevecia ainda mais com aquele homem, e estava radiante por ser escolhida por ele também.

Ela pergunta:


“Eu ouvi o seu coração, mas agora gostaria de saber de você… o que você está pensando nesse exato instante?”

Ele segura as mãos dela, e responde de imediato:


“Por onde devo começar a fazer você feliz?”

“If I Fell”
(John Lennon/Paul McCartney)
The Beatles, 1964


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