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A Ingrid passou uma vida inteira sonhando em dançar balé. Realizou o seu sonho, mas isso não era o suficiente.

Viver em um mundo onde nem tudo é pensado para você é um estímulo para promover pequenas transformações que podem transformar a você e ao coletivo ao seu redor de forma significativa e definitiva. Para a maioria, o gesto pode parecer pequeno. Mas para você, é algo gigantesco.

Ingrid passou os últimos 11 anos de sua vida dançando o balé e pintando as suas sapatilhas de marrom.

Por que fazer isso?

Porque ela é uma mulher negra, basicamente.

Eu estou usando um argumento genérico para a iniciativa da Ingrid. Eu não sei quais foram os pensamentos que passaram na cabeça dela, nem os sentimentos que nortearam o seu coração. Mas eu tenho quase certeza em afirmar que a sua iniciativa em pintar as suas sagradas sapatilhas na cor que mais se aproximava da cor de sua pele era para se sentir representada na íntegra.

Ingrid queria se sentir por inteiro no palco. Plena. Totalmente entregue para a arte que ela decidiu abraçar e amar para o resto da vida.

Uma sapatilha pode parecer algo insignificante para a maioria das pessoas. Mas para uma bailarina, é a sua ponte de passagem para o mundo sagrado dos palcos. É quando um humano deixa a realidade para expor sua sensibilidade para os demais mortais. Em alguns casos, a bailarina encontra a imortalidade na arte, mesmo que tenha que morrer em Cisne Negro.

Da mesma forma em que Ingrid não vai conseguir expressar exatamente o que eu sinto enquanto eu estou cantando, eu também não sei dizer o que ela sentiu quando finalmente recebeu o seu primeiro par de sapatilhas pensadas na sua negritude.

Só consigo dimensionar a sua alegria através da mensagem publicada por ela no Twitter. Quem sabe imaginar a emoção em saber que alguém ou alguma empresa pensou nela como um ser humano por inteiro, merecidamente representada como um elemento de talento da raça negra, e compreendendo as suas aspirações em buscar uma maior diversidade no universo da dança.

Pode ser algo pequeno para os olhos de muitos de vocês. Mas no mês da Consciência Negra (e do Novembro Azul também; eu não me esqueci disso, mas vou falar sobre esse assunto em outro momento), onde vários discursos que clamam por um olhar mais digno para o povo negro no Brasil, esse pequeno passo pode ser considerado uma grande vitória.

Uma vitória gigantesca em busca de um coletivo que olha para as diferenças com maior desejo de igualdade de condições. Um avanço enorme em tempos onde alguns grupos entendem (e defendem) que o diferente deve ser marginalizado… por ser diferente.

Agora, Ingrid não vai mais precisar colocar a mão na tinta para se sentir inteira nos palcos. Estará plena, apresentando a sua arte, e usando um símbolo visual que reforça a mensagem que todos são capazes de alcançar os seus sonhos. Eu tenho certeza que ela estará linda e vibrante na estreia de suas novas sapatilhas.

Você pode usar a cor que você quiser. Azul, Rosa, Branco, Amarelo. Inclusive o marrom ao dançar balé.

Quem sabe agora deixam de identificar a Ingrid no palco como a bailarina negra (com sapatilhas cor-de-rosa), mas sim como a talentosa bailarina profissional que ela sempre foi.

Não que a cor da sapatilha vai influenciar no talento dela. É bom deixar isso bem claro.


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