Press "Enter" to skip to content

iPad afundado no rio revela criminso

O que parecia ser apenas mais um caso arquivado ganhou novos rumos graças a um item improvável: um iPad abandonado no fundo do rio Tâmisa. Coberto de lama, o dispositivo ressurgiu anos depois como peça-chave em uma complexa investigação policial no Reino Unido.

O que ninguém imaginava é que, mesmo inutilizado, ele guardava um segredo essencial para desvendar uma tentativa de assassinato com conexões internacionais e passado criminoso.

Tá, esse poderia ser mais um caso em que todos iriam ficar elogiando a Apple por semanas, já que um produto da empresa sobreviveu a condições inóspitas por cinco anos. Mas não é bem esse o caso aqui.

As consequências foram mais graves e profundas do que a autopromoção da Apple neste caso.

 

A tecnologia perdida que virou evidência vital

O tablet foi encontrado por agentes da unidade fluvial da polícia de Londres durante buscas de rotina às margens do Tâmisa, em novembro passado. A operação estava ligada a um tiroteio ocorrido em 2019, que deixou o britânico Paul Allen paralisado após ser baleado seis vezes dentro de casa.

O iPad em si não funcionava mais, o que deixa automaticamente muitos Apple fanboys um tanto quanto tristes. Parte desse grupo certamente iria esfregar o tablet na nossa cara, só para dizer o quão incrível ele foi ao sobreviver na água por esse tempo todo.

Mas… o cartão SIM ainda estava ativo — e foi suficiente para conectá-lo a Daniel Kelly, de 46 anos, investigado desde o início.

A partir dali, o que parecia um simples aparelho descartado virou o ponto de partida para reconstruir a logística de um crime premeditado e brutal.

 

Vigilância, rastreamento e uma emboscada

A investigação revelou que Kelly e os irmãos Stewart e Louis Ahearne monitoravam Paul Allen há semanas. O grupo instalou um rastreador no carro da vítima e acompanhou seus passos com minúcia.

Eles também usaram câmeras de segurança, análise de placas e um Renault Captur alugado — veículo semelhante ao usado em um assalto anterior — para traçar o caminho que levaria ao atentado.

A movimentação detalhada dos criminosos foi cruzada com os dados contidos no iPad e, pouco a pouco, as peças se encaixaram. E tudo o que a polícia conseguiu ao descobrir o iPad às margens do Tâmisa já era o suficiente para sustentar a acusação de conspiração para assassinato.

 

De assaltante milionário à vítima de emboscada

O alvo do crime, Paul Allen, não era um desconhecido da polícia. Em 2006, ele participou do famoso assalto ao depósito da Securitas, no Reino Unido, com prejuízo estimado em US$ 68 milhões.

Após cumprir pena, Allen retomou uma vida aparentemente tranquila. Mas o passado o alcançaria em 2019, quando foi atacado em sua própria cozinha.

A investigação confirmou que o atentado não foi obra do acaso, mas resultado de uma vigilância persistente e um plano executado com precisão quase militar.

O caso tomou uma proporção ainda maior quando a polícia ligou o mesmo grupo criminoso a um roubo ocorrido em Genebra, na Suíça, um mês antes do atentado. Dois vasos da Dinastia Ming e uma xícara histórica foram levados do Museu de Artes do Extremo Oriente em uma ação igualmente meticulosa.

As conexões entre os dois eventos foram os carros alugados usados nos dois crimes, a semelhança no modo de operação e a presença dos mesmos suspeitos em ambos os países.

Stewart e Louis Ahearne acabaram extraditados para a Suíça, onde foram condenados a três anos e meio de prisão, além de multa e proibição de entrada no país.

 

A pergunta que ficou no ar

A descoberta do iPad foi descrita como “uma surpresa total” pelo detetive Matt Webb, responsável pela investigação. E ele levantou a pergunta que, para muitos que leram este artigo com a máxima atenção, considera como algo inevitável:

“Por que alguém jogaria um iPad no rio?”.

A resposta parece óbvia — destruir provas. Mas, ironicamente, foi essa tentativa de ocultação que revelou o elo entre os crimes. E o criminoso jamais poderia imaginar que um iPad era resistente o suficiente para manter os dados do SIM card salvos nele.

Mesmo com as negativas dos acusados durante o julgamento, as evidências digitais eram incontestáveis. O rastro deixado por celulares, rastreadores e câmeras de segurança selou o destino dos envolvidos.

O próprio detetive Webb comparou o caso a um roteiro cinematográfico. Havia de tudo: um passado criminal, vigilância, viagens internacionais, tecnologia resgatada e a queda de uma quadrilha organizada.

O que começou como um plano de vingança terminou em sofrimento permanente para a vítima e longas penas de prisão para seus algozes.

No centro de tudo, um iPad que, mesmo coberto de lama, resistiu ao tempo e ao esquecimento — e se transformou na peça-chave de uma investigação internacional, provando mais uma vez que, no mundo digital, quase nada desaparece de verdade.

Aliás, essa é uma regra que vale para as nossas vidas: uma vez que a sua imagem, áudio ou vídeo alcançou a internet de alguma forma, não tem mais volta. Não dá para desfazer.

E para quem desperdiçou um iPad na destruição de provas, da próxima vez, destrua as evidências do seu crime você mesmo, com suas próprias mãos.