
Você se lembra daquela sensação quase ritualística de abrir a caixa de um jogo novinho em folha? O cheiro do manual, a arte do disco reluzente… Para muitos de nós, gamers de longa data, essa experiência é parte intrínseca da paixão pelos videogames.
Os mais nostálgicos certamente vão se lembrar da alegria em conectar cartuchos de videogames nos consoles. Do ritual de soprar as fitas, na ilusão de que isso ajudaria a fazer o item funcionar. E a sensação em levar as caixas de jogos para casa após a visita na locadora no sábado de manhã.
Tudo isso faz parte de uma experiência sinestésica e emocional, que está simplesmente desaparecendo com a era dos jogos digitais.
É correto dizer que a era da mídia física nos jogos de videogames finalmente acabou?
A Sony tentou alertar sobre o futuro
Houve um tempo, não muito distante, em que a Sony capitalizou essa conexão de forma brilhante com um anúncio icônico de apenas 21 segundos, ensinando com uma simplicidade genial como compartilhar jogos de PlayStation 4: bastava entregar a caixinha para um amigo.
Essa peça publicitária não era apenas sobre o compartilhamento. Era uma alfinetada direta e certeira na complexa política inicial da Microsoft para o Xbox One, que flertava perigosamente com o fim da posse física como a conhecíamos, exigindo verificações online constantes.
Na época, o console da Microsoft contava com sistemas que bloqueavam aquela cópia física do jogo ao console que realizou a primeira ativação, acabando com a possibilidade de empréstimo de jogos para outras pessoas.
A mensagem da Sony ecoou forte na comunidade: não mexam nos nossos preciosos discos!
De lá para cá, tudo mudou

Parece incrível pensar que essa batalha cultural aconteceu há pouco mais de uma década, não é mesmo?
Hoje, aquele anúncio da Sony soa quase como uma relíquia de um tempo que teima em desaparecer diante dos nossos olhos. Aliás, as campanhas publicitárias dos jogos de videogames nem exibem os gameplays. São produções cinemáticas com os personagens do jogo e nada mais.
O cenário atual dos games está passando por uma transformação silenciosa, mas implacável, que redefine nossa relação com a propriedade e o acesso aos jogos. Mais do que isso: todo mundo entendeu que não somos donos de nada, e que a indústria agora controla tudo com mãos de ferro.
Os números não mentem e pintam um quadro impressionante: as vendas de jogos em formato físico despencaram drasticamente nos últimos anos, representando menos da metade do que eram em 2021.
É uma tendência de declínio que, segundo especialistas como Mat Piscatella da Circana, vem se acentuando desde 2008, muito antes daquela famosa “guerra” de marketing entre Sony e Microsoft sobre o compartilhamento.
Por que a mídia física nos videogames acabou
Vários fatores convergem para impulsionar essa mudança massiva em direção ao digital, criando um ecossistema onde o disco físico parece cada vez mais um item de colecionador do que a norma.
A conectividade quase universal dos consoles modernos é, talvez, o principal motor dessa revolução. Com praticamente 99% dos consoles PlayStation e Xbox conectados à internet, a conveniência falou mais alto.
A facilidade de comprar, baixar e jogar instantaneamente, sem sair do sofá, superou para muitos a satisfação tátil do disco.
Some a isso o fato de que as lojas físicas estão dedicando cada vez menos espaço para games, e as próprias publicadoras, de olho na redução de custos de distribuição e logística, lançam menos títulos em formato físico. É uma tempestade perfeita que está remodelando a indústria diante dos nossos olhos.
Logo, não é difícil pensar que, infelizmente, os jogos de videogames em mídia física estão praticamente extintos. Existem algumas poucas vozes de resistência, onde a mais eloquente é, sem sombra de dúvida, a Nintendo. Mas ela vive em um mundo à parte, e não sabemos até quando manterá a sua postura.
Via The Verge

