
A Geração Z chinesa enfrenta um dos momentos mais difíceis do mercado de trabalho recente, marcada por insegurança, salários baixos e falta de oportunidades. Com o desemprego juvenil beirando os 20%, muitos jovens passaram a transformar a frugalidade em uma filosofia de vida que se espalha pelas redes sociais.
A cultura de “viver com pouco” tornou-se um fenômeno digital que reflete não só a adaptação às dificuldades econômicas, mas também uma crítica silenciosa à pressão social e ao custo de vida urbano. Influenciadores mostram diariamente como sobreviver com um dólar ao dia e transformam a austeridade em símbolo de orgulho.
O cenário pode ser considerado ainda mais dramático, se levarmos em consideração que a Geração Z pode ser a primeira na história que não terá o direito à propriedade. E o que acontece nesse momento não é a promoção de um estilo de vida, mas a glamourização da miséria.
Influenciadores da escassez
Nas plataformas chinesas, criadores de conteúdo ensinam a reduzir gastos extremos, preparando duas refeições diárias gastando apenas US$ 1. O fenômeno se tornou tão popular que muitos internautas tratam o minimalismo econômico como uma tendência aspiracional.
Entre os rostos mais conhecidos está Zhang “Small Grain of Rice”, de 24 anos, que viralizou ao mostrar como um sabonete comum serve para todas as tarefas de higiene pessoal. Sua mensagem central é que o consumo consciente pode ajudar os jovens a aliviar o estresse e manter a dignidade em tempos difíceis.
Outros perfis, como o de Little Grass Floating In Beijing, exibem rotinas de economia radical e dietas modestas, acumulando milhões de visualizações. Esses influenciadores fazem sucesso não apenas pelo conteúdo criativo, mas também pela autenticidade ao narrar vidas marcadas por dificuldades.
Um espelho do mercado de trabalho
O excesso de automação e o avanço dos robôs nas fábricas reduziram drasticamente a oferta de vagas qualificadas, ampliando a desigualdade entre gerações. Jovens com formação superior acabam em empregos precários, iniciando o que analistas chamam de “era da sobrevivência digital”.
Essa realidade alimenta um sentimento de desapontamento com o sistema econômico, levando muitos a rejeitar o trabalho exaustivo e o modelo de produção 996 — das 9h às 21h, seis dias por semana. Cansados da pressão, alguns preferem empregos mais simples, como cuidar de animais ou limpar casas, buscando um equilíbrio mental.
A precarização também impulsionou novos movimentos culturais que defendem o “deitar e desistir” (tang ping), um protesto silencioso contra as expectativas de sucesso e consumo. Esse comportamento preocupa o governo, que tenta reverter o pessimismo entre os jovens.
Desafio ao consumo interno
A frugalidade da nova geração, embora admirada nas redes, representa um obstáculo para a economia chinesa. O país ainda depende fortemente das exportações e encontra dificuldades em estimular o consumo doméstico.
Economistas alertam que, se os jovens continuarem a evitar gastos, o impacto sobre o crescimento será profundo, limitando a recuperação pós-pandemia. A fatia do consumo das famílias ainda responde por cerca de 39% do PIB, bem abaixo dos 60% de nações desenvolvidas.
Enquanto isso, autoridades discutem formas de equilibrar o mercado, incentivando jornadas de trabalho mais curtas e políticas familiares que motivem o gasto e a natalidade. Porém, sem estabilidade e perspectiva, é improvável que a Geração Z volte a consumir com otimismo.

