A própria Paula Fernandes disse que, ao realizar a versão brasileira de “Shallow”, canção co-composta por Lady Gaga e vencedora do Oscar 2019 como Melhor Canção Original (por fazer parte da trilha sonora do filme Nasce Uma Estrela), o seu objetivo “não era agradar”. Olha, moça… você conseguiu. Objetivo alcançado. Não agradou.

Tudo bem, todo mundo está achando uma piada a letra de “Juntos”, com Paula Fernandes e Luan Santana. Eu vou tentar ao máximo não dissertar sobre o quão ruim é essa dupla nos aspectos musicais, pois nesse post eu quero explicar como é infeliz a escolha de rima para a frase “Juntos e Shallow now”.

Infeliz e irracional.

Considerando a possibilidade de Lady Gaga ter autorizado a versão nacional exatamente do jeito em que ela chegou aos nossos ouvidos (e, se isso aconteceu, o processo deveria ir para a Lady Gaga), eu quero acreditar que a cantora autorizou a versão muito mais pela fidelidade musical e harmônica do arranjo do que pela letra adaptada. Inclusive considerando que foi Gaga que exigiu a utilização da palavra Shallow na canção em algum momento, algo que sinceramente acho difícil de acontecer.

 

 

Por que a palavra Shallow na versão brasileira foi infeliz?

 

Porque a maioria das pessoas nem sabe o que significa a palavra Shallow em português, muito menos o contexto em que ela foi utilizada na canção original.

Antes de qualquer coisa…

Shallow = raso, superfície.

 

“Shallow” (a canção) é o momento de maior conexão pessoal entre Jackson Maine (Bradley Cooper) e Ally (Lady Gaga) ao longo de todo o filme. É como um descobre a essência do outro, nos seus mais profundos sentimentos. Jackson e Ally se descobrem amando um ao outro por motivos muito mais nobres do que a atração física, química sexual ou conexão emocional.

Jackson estava no fim de sua carreira, e não se conformava com isso. Chegar no final e não ter mais condições de continuar entregando a música que ele sempre amou fazer era a materialização de uma morte lenta. Sua rota de fuga era as drogas e o álcool, e ele precisava de um elemento novo para seguir em frente. Ou realizar um último grande ato.

Ally nem carreira tinha. Vivia a realidade fria de abrir mão dos seus sonhos para pagar as contas. Ela também sentia a angústia e a tristeza em ser obrigada a abrir mão do direito de perseguir esses sonhos que, por considerar impossíveis de serem realizados, ficaram na zona da incredulidade. Ou só se fazia presente por alguns minutos em um bar qualquer.

Quando os dois se encontram pela primeira vez, as vidas dos dois estavam transformadas para sempre. Jackson enxergou em Ally a inspiração para continuar a cantar e tocar, apesar de todas as dificuldades. Ele se apaixonou pelo talento dela, que era enorme e precisava ser lapidado. Mais: Jackson se apaixonou por Ally porque em “Shallow” ela conseguiu traduzir os seus mais profundos sentimentos em palavras que diziam coisas que nem ele sabia que ainda existiam no mais profundo do seu ser.

Já Ally se apaixonou por Jackson porque ele a estendeu a mão em um momento onde ela não mais acreditava em seu talento, e tudo o que ela queria era uma chance. Ao segurar a mão de Jackson, Ally sentiu o amor e a proteção, mas também se sentiu puxada para cima. O impulso que precisava para criar coragem em jogar tudo para o alto e perseguir o que mais desejava.

Jackson e Ally não se apaixonaram por causa da beleza física. Eles se apaixonaram porque um ofereceu ao outro o que tinha de melhor no mais profundo do seu ser. E porque um encontrou no outro aquilo que faltava para que suas respectivas vidas ganhassem um significado maior.

Os dois só conseguiram conquistar um ao outro de forma tão edificante quando decidiram se jogar na profundidade do outro, vasculhando e revirando em seus sucessos e fracassos nas trajetórias de vida. E, ao buscarem as profundezas de suas almas, deixaram de lado a SUPERFICIALIDADE do que os olhos conseguem ver, e o RASO dos conceitos estabelecidos por todos sobre o que a aparência vende.

Não se esqueça: todos achavam que Jackson Maine era alguém bem sucedido, porque aparentemente vivia a vida de um astro da música. Ninguém queria Ally como uma artista do mercado musical, porque entendiam que a sua aparência não era vendável para essa indústria.

Todos julgando pela aparência. Pelo raso. Pela superfície.

E a letra de “Shallow”, no original, diz:

“Eu estou à beira do precipício, assista enquanto mergulho
Eu nunca vou tocar o chão
Caio através da água
Onde eles não podem nos machucar
Estamos longe da superfície agora”

E felizes daqueles que contam com a coragem para se jogar do precipício para mergulhar no mar de profundos sentimentos do próximo.

Enfim, eu defendo “Shallow” (a original) com todas as minhas forças, pois é o ponto alto de Nasce Uma Estrela, com uma letra que se alinha perfeitamente ao plot principal do filme. Não dá para aceitar “Juntos” nem de brincadeira. É uma tentativa de assassinato ao bom senso.

E da próxima vez, é melhor a Paula Fernandes nem tentar. Ou pelo menos vai consultar Roberto e Erasmo Carlos, e tomar umas aulinhas em como fazer versões de canções internacionais.

Mesmo que eu não apoie tal prática, já que esse recurso de gosto duvidoso entregou ao Brasil a intragável “Então é Natal”…