
Juro que saí de casa para assistir “Karate Kid: Lendas” com a expectativa no chão e totalmente convicto que receberia mais um filme caça-níquel na cara. E havia um grande motivo para pensar dessa forma: o sucesso (até inesperado) da série “Cobra Kai”, que chegou ao fim na Netflix.
Mesmo que o filme não esteja diretamente conectado com a série, o timing era perfeito, pois aproveita o hype de forma direta. Se o lançamento fosse em 2026, absolutamente ninguém iria se importar.
Tá, estou exagerando. Os fãs mais nostálgicos da franquia se importariam de qualquer maneira. Mas a galera nova, o público da série de TV, não perderia tempo saindo de casa com uma estreia tardia do filme.
Então… “Karate Kid: Lendas” não é exatamente o caça-níquel que você espera.
A nostalgia dá dinheiro

“Karate Kid: Lendas” aposta na estratégia de amarrar tudo o que foi apresentado até aqui que recebe o nome “Karate Kid”, o que poderia ser considerado como algo ousado.
Porém, o roteiro resolve isso de forma prática e bem simples: uma pequena história contada nos primeiros cinco minutos do filme pelo Senhor Narhiyoshi MIyagi explica por que caratê e kung fu se uniram um dia.
Pronto. Podemos seguir em frente.
Aliás, o filme presta uma eficiente homenagem para o ator Pat Morita e seu personagem, que foi transformado em elemento comum ou ponto de conexão para que Mr. Han (Jackie Chan) e Daniel LaRusso (Ralph Macchio) formassem a parceria para treinar Li Fong (Bem Wang), o protagonista dessa história.
E aqui, devo dizer que “Karate Kid: Lendas” é sim filme de fan service, mas faz isso com o máximo de respeito possível. todos os personagens do passado são tratados com uma mínima dignidade, a ponto de crescerem em tela trabalhando juntos.
Preciso assistir a alguma coisa antes?

Essa era uma das minhas preocupações antes mesmo de me interessar em ver “Karate Kid: Lendas”.
Me preocupei se tinha que assistir a alguns dos filmes anteriores da franquia que simplesmente pulei porque… pra mim, Karate Kid é Daniel LaRusso é acabou.
Logo, “The Next Karate Kid” (1994) com Hilary Swank e “Karate Kid” (2010) com Jackie Chan e Jaden Smith foram filmes que eu não vi, e sabia que iriam entrar no cânone da franquia original.
Prometo que vou ver os dois no futuro, e conversar com você sobre o que achei deles.
Mas a minha grande preocupação era mesmo com “Cobra Kai”, série da Netflix que é sequência direta dos acontecimentos dos três primeiros filmes.
Estou bem atrasado com a série. Estava com sérios receios de que seria obrigado a fazer uma maratona relâmpago para me atualizar antes de ver “Karate Kid: Lendas”.
Para a minha felicidade, os eventos do filme de 2025 não contam com qualquer tipo de conexão direta com a série da Netflix, atuando como um filme “stand alone”.
“Karate Kid: Lendas” pode ser visto de forma totalmente independente, e você não perde absolutamente nada da experiência. Seus eventos acontecem DEPOIS de “Cobra Kai”, mas até mesmo o fato de o cenário do filme ser Nova York já colabora para a construção de uma história mais desconectada.
Bom… vale a pena ter assistido a, pelo menos, a trilogia original de “Karate Kid” para absorver a importância do Senhor Miyagi para esse legado. Sua experiência será muito melhor se compreender a importância dele na vida dos outros dois mestres.
E sobre paradeiro do filho do Will Smith?
Ninguém sabe. Ninguém viu.
Fórmula que se repete, mas com identidade própria

O roteiro de “Karate Kid: Lendas” é muito calcado na história que foi contada pelo primeiro “Karate Kid”, mas combina elementos de “Karate Kid 2” e até mesmo de “Rocky Balboa” em universo invertido.
Vou explicar.
Várias referências narrativas, estéticas e conceituais do passado estão presentes neste filme. Mas são complementadas por conceitos de outras histórias e ajustes culturais e temporais para tentar uma identidade própria.
Assim como aconteceu como Daniel LaRusso, Li Fong chega em uma terra completamente desconhecida, se mete em um monte de problemas, e precisa resolver tudo na base da porrada.
A diferença é que Fong já chega sabendo tudo de Kung Fu, pois é discípulo do Mr. Han. Mas como precisa justificar suas habilidades, acaba treinando Victor (Joshua Jackson), que é ex-lutador de boxe, mas que quer ser mais ágil para voltar a lutar para ganhar dinheiro para pagar o agiota.
Que, por coincidência (ou não), é o dono da academia de karatê onde treina o (e aqui, outra coincidência assustadora) ex-namorado da filha do Victor…
…que vira interesse amoroso de Fong.
E como o filme se chama “Karate Kid: Lendas” e Fong sabe lutar Kung Fu, chamem o Mr. LaRusso para treinar o moleque.
Sim, eu sei. É meio confuso, mas funciona, de alguma forma.
Não é o roteiro mais inteligente do mundo, mas ao menos ele não se leva a sério demais para te chamar de trouxa. Algumas partes do filme são previsíveis para quem assistiu aos filmes originais, mas isso não chega a acabar com a experiência do filme.
“Karate Kid: Lendas” se salva (e muito) pela competência do seu elenco principal, com personagens bem definidos em muito carismáticos.
Onde a história escorrega um pouco é no desenvolvimento das motivações e conflitos pessoais dos seus personagens.
Tudo bem que o Li Feng é um ótimo aluno de artes marciais. Mas ele precisaria ser um gênio (e ele não é – e as aulas de reforço de matemática que ele tem deixam isso bem claro) para aprender karatê em uma semana.
E o karatê do torneio dos cinco bairros é em “modo freestyle”, pois permite o uso de artes marciais mistas nos golpes.
Além disso, não é Feng quem tem a coragem de seguir o seu próprio caminho. É o caminho que o escolhe, já que absolutamente tudo e todos ao seu redor decidem por ele na maior parte do tempo.
Como é que um garoto tão habilidoso como ele é desprovido de uma personalidade forte para tomar decisões importantes na sua vida?
O que chega até a ser contrastante com o fato dele lutar Kung Fu tão bem e aprender karatê em tempo recorde.
E dói ver um roteiro expositivo em excesso, a ponto de deixar claro para todo mundo qual seria a solução do conflito, jogando na nossa cara o que deveria ser um efeito surpresa.
É como se todo mundo soubesse como o LaRusso iria derrotar o Johnny Lawrence no primeiro filme na metade. E o cinema perderia uma de suas cenas mais icônicas em toda a sua história.
Afinal… é caça-níquel?

Totalmente caça-níquel? Não. Mas quer o dinheiro dos nostálgicos.
“Karate Kid: Lendas” tem os personagens, as homenagens, as referências e o fan service para agradar a quem viu aos filmes anteriores, mas permite que os paraquedistas assistam ao filme sem maiores dificuldades.
Ele até tem aquele “agrado” aos fãs de “Cobra Kai”, já que em uma única cena o roteiro conecta a série de TV com o filme. Tudo de forma simples, direta e minimamente crível.
Os problemas de roteiro tornam o filme previsível, mas não absurdamente estúpido na história a ser contada. Ele até consegue entregar um plot de fundo muito interessante, já que fala de resiliência e superação.
Uma história que carrega um legado e homenageia o passado, tentando de alguma forma seguir adiante com uma nova geração. Mas faz isso questionando se devemos mesmo nos prender aos eventos do passado que nos impede de seguir em frente.
Talvez as cenas de luta com um excessivo movimento de câmera acabem incomodando a algumas pessoas com traumas desse efeito nos filmes da franquia “Transformers” (é o meu caso). Mas nem isso prejudica a nota final do filme.
Eu diria que “Karate Kid: Lendas” é um bom filme de Sessão da Tarde. Não é o melhor da franquia, passa bem longe de ser inovador, mas faz o arroz com feijão na medida certa, sem exageros ou soluções absurdas.
Dá para ir assistir de boa e sem muitos medos. Ou esperar o filme desembarcar no streaming mais próximo de você.
A decisão é sua.

