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Os meus finais de semana sempre foram chuvosos.

Quando sentimos saudades de alguém que amamos e que não conseguimos ver há muito tempo, a tendência é que vários dos nossos dias da semana se tornem dias de chuva. Mas quem sabe é apenas uma percepção individual de alguém que insiste em olhar para a janela sem perceber que o sol brilha lá fora. Essa nossa mania de confundir as nossas lágrimas com as gotas de chuva no vidro faz com que tudo fique meio embaçado diante dos nossos olhos.

Sentir saudades de alguém que amamos é uma forma de manter viva aquela pessoa dentro dos nossos melhores pensamentos. Ao mesmo tempo, pode trazer uma dor que nos mata aos poucos. Porque é fácil concluir que aquela pessoa simboliza vida em nós. Essa é uma forma meio errada de amar alguém, pois cada um de nós constrói a própria percepção de felicidade, sem destinar ao outro a ingrata missão de fazer ao próximo alguém feliz.

Por outro lado, somos humanos. Somos falíveis. Somos extremamente sentimentais. Eu mesmo estou dramatizando em um texto sobre os meus finais de semana chuvosos, quando vivo em uma cidade onde o sol brilha mais forte, entrando pela janela do meu apartamento com toda a força.

Mas… tudo tem uma razão de ser. Tudo tem uma explicação.

Durante um bom tempo da minha vida, percebi que os finais de semana eram cinzentos e com muita chuva. O motivo? Eu me sentia sozinho. Na verdade, queria ficar sozinho por entender que a melhor companhia que eu poderia ter era a minha. Não por egoísmo, mas por talvez querer a companhia de apenas uma pessoa que tivesse um olhar de amor, um sorriso de esperança, um abraço apertado.

Isso mesmo. Carência é foda.

Por muito tempo, vendi para mim mesmo a ilusão que me isolar em um quarto trabalhando no computador nos finais de semana era a solução para eliminar um vazio que eu mesmo alimentava. Me escondi de tudo, de todos e de mim mesmo. Eu evitava olhar no espelho para não ter que encarar aquele fracassado que optou por viver sozinho porque não encontrava esse alguém.

Sozinho nos finais de semana. Que deprê, não?

Aí, vem aquela heroína, a música. Que atua no meu cérebro como a heroína (é bom eu deixar isso bem claro).

Uma simples canção. Uma letra de pop/rock que me faz compreender mais uma vez que não estou sozinho nesse mundo, e que alguém ou entendeu o que estou sentindo, ou passou pelo mesmo que eu em algum momento da vida.

Uma banal canção pop me fez compreender que a saudade é uma fina linha entre o prazer em lembrar daquela pessoa que amamos com todas as nossas forças e a dor em constatar que aquele ser não está mais ao seu lado. Diante disso, chorar é normal. Faz parte. Você não seria humano se não chorasse diante da dor.

Por muito tempo chorei de saudade, me perguntando quando voltaria a ver aquelas pessoas que recebem de mim os meus mais nobres sentimentos. E quando constatamos que, para algumas delas, a resposta é “apenas nos seus pensamentos”,você percebe que a sua única alternativa é sentir saudades. E conviver com a fina linha entre o prazer e a dor.

Essa canção fez com que eu entendesse melhor o conceito de sentir saudades sem sentir dor a cada vez que respirava fundo para buscar o ar para inflar os pulmões e oxigenar o cérebro e, assim, seguir em frente. Com o tempo, você aprende a, primeiro, enxugar as lágrimas, para depois parar de chorar e, por fim, abrir as janelas da alma novamente para deixar o sol entrar.

Com o passar do tempo, você começa a encarar o fato que os encontros e as despedidas com as pessoas ao seu redor devem ser valorizados de forma plena e intensa. Não sabemos quando vamos nos encontrar com aquela pessoa novamente ou – pior – se vamos nos encontrar de novo com aquela pessoa. A verdade é que o tempo de nossas vidas passa muito depressa, e um “até a próxima” pode ser um “adeus” que você deixou de dizer para alguém.

Tudo bem. Eu entendo que você não gosta da palavra “adeus”. Eu também não gosto. Mas… opte sempre por se despedir com alegria e amor de qualquer pessoa. Caso contrário, você corre o risco de ser obrigado a encarar caminhadas solitárias aos domingos, se lamentando pela despedida que não aconteceu.

Uma simples e banal canção pop me despertou para tudo isso.

Mas isso não impede que eu me depare com finais de semana chuvosos. Chover faz parte dos ciclos climáticos de qualquer lugar do planeta. Porém, hoje, eu estou muito mais propenso a pegar o guarda-chuva e sair para ensaiar ou simplesmente preparar uma xícara de café e sentar diante da janela do meu apartamento.

Olhando a chuva bater no vidro da janela. E pensando naquelas pessoas que eu mais amo.

Sem dor. Mas sentindo saudades, é claro.

 

 

P.S.: Se você chegou até aqui nesse texto, deixo bem claro que está tudo mais ou menos bem na minha vida, como deve estar na sua vida também. O texto que você acabou de ler é inspirado em “Here Comes The Weekend” (clique aqui para ler a tradução da música), canção da banda sueca Roxette que, em um momento difícil da minha vida, me ajudou a compreender melhor as dinâmicas da vida para um sentimento que é difícil de explicar em palavras, mas demonstramos através das lágrimas que rolam pelo rosto de tempos em tempos. Essa canção me ajudou, e acredito que pode ajudar a outras pessoas que precisam processar melhor as dores internas para seguir em frente. E essa é a minha forma de expressar à Marie Fredriksson, intérprete dessa canção, toda a minha gratidão por dar voz para milhões de pessoas que sentiram o mesmo, mas não tiveram forças para expressar tais sentimentos. Infelizmente, Marie faleceu hoje, aos 61 anos, vítima de um câncer no cérebro cujo diagnóstico apareceu em 2002. E, por causa disso, o dia de hoje está um pouco mais chuvoso. Mesmo com o sol intenso que brilha em Florianópolis nesse momento.

 


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