Compartilhe

Foi quando percebi que “Lights and Sounds” não estava salva no meu smartphone, e precisava dessa música para escrever esse texto. E se você chegou até aqui, só pode ser por três motivos: 1) você gosta e conhece a banda Yellowcard; 2) eu mandei esse link via WhatsApp para você, que não faz a mais vaga ideia do que eu estou falando e 3) você está em isolamento social, fez uma busca no Google e está procurando um pouco de luzes e sons na sua vida.

Eu também…

Este silêncio ensurdecedor que se fez presente em nossas vidas por causa do isolamento social (e não pela quarentena em si, pois tem um monte de gente idiota nas ruas, achando que nada de grave está acontecendo no mundo) colocou todo mundo em uma escuridão de incertezas que, de forma inevitável, deixa o medo como ingrato presente. Tá, o mundo não parou de vez, mas somos obrigados a ficar distante uns dos outros para que todos superem a pandemia com segurança.

De repente, foram embora os encontros casuais, o happy hour com chopinho sagrado no barzinho do final de tarde de sexta-feira, ou o café com as amigas nas terças-feiras. Bater perna no shopping? Nem pensar. Os hábitos consumistas desapareceram, o restaurante que você tanto gosta pode não mais abrir as portas e, quem pode, trabalha de casa. Quem não pode, se arrisca para sobreviver.

Sabe do que eu sinto mais falta nesse momento?

Sinto falta da luz dos abraços. Não poder abraçar as pessoas que eu mais amo está me dilacerando lentamente. Mas sei que essa dor é pior do que ter um problema pulmonar por causa de um vírus que ainda não tem cura. E, por ironia do destino, tanto eu quanto as minhas melhores amizades estão no grupo de risco.

Ou seja, preciso me manter distante para proteger a tanta gente que eu amo e, ao mesmo tempo, me proteger.

Para escrever alguns dos textos que você lê nesse blog, uso algumas das músicas que compõem a trilha sonora da minha vida. Não cogitei usar “Lights and Sounds” para falar alguma coisa a meu respeito, mas nesse momento ela é uma das escolhas mais oportunas, por vários motivos.

Primeiro, porque é rock. Rock pesado. E o rock salvou o mundo. O baixo bem marcado, a guitarra impecavelmente distorcida e, principalmente, a bateria furiosa marcando o ritmo são a combinação perfeita para que o meu coração não pare de bater nesse momento com a solidão. Quero manter o meu coração batendo com energia, da mesma forma que essa música se propõe a fazer.

Segundo, porque “Lights and Sounds” não fala sobre a cura de uma pandemia, ou sobre a tristeza de se sentir sozinho em um mundo escuro e silencioso. Ao contrário: fala de um amor louco, frenético e energético, que simplesmente flui durante a escuridão, em uma corrida desenfreada de duas almas em busca de um ponto de luz para iluminar a estrada.

E é isso o que está faltando para mim e para muita gente que, nesse momento, está sozinha, no escuro, tentando respirar em um espaço sufocado, tentando se manter seguro.

Nesse momento, não temos os abraços e beijos para alimentar e iluminar nossas almas. Mas não está faltando amor para dar e receber, mesmo à distância. Não podemos acreditar na ideia que absolutamente tudo mudou depois da pandemia. É claro que vamos ser mais cuidadosos uns com os outros, mas… não vamos nos tornar impessoais.

Enquanto meus braços vazios esperam pelos abraços daqueles que eu mais amo, eu sigo aqui. Sozinho, mas com vocês, virtualmente. Mantenho minha posição de informar sobre o que realmente é preciso saber sobre esse momento crítico em que vivemos, mas jamais deixarei de ser uma voz de resistência em defesa do amor fraternal e da empatia espontânea.

Nossos corações e mentes podem estar em pedaços, pois estamos numa escuridão silenciosa, resultante de um mundo que hoje é diferente. Mas vamos começar a buscar as luzes e os sons agora, identificando os nossos cacos, colando pedaço por pedaço de nossos mais nobres sentimentos e, quando nos for dado o direito para abrir a porta e sair de nossas casas e apartamentos, estaremos prontos para construir um mundo novo.

É nossa missão a sobrevivência. É nossa obrigação a construção de um mundo melhor. Com mais luzes e sons para todos.

E o ponto final dessa reflexão ao som de um rock pesado é: quando a tempestade passar, vamos precisar de muito amor para recomeçar.

 

 

“Lights and Sounds”
(Ryan Key, Pete Mosely, Sean Mackin e Longineu W. Parsons III)
Yellowcard, 2006

 


Compartilhe