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Na vida, em alguns momentos decisivos, você só tem uma chance.

Eu estava na lona.

Ouvia aquela multidão gritando incandescida. Era um barulho ensurdecedor. Ao mesmo tempo, ouvia um zumbido forte na orelha esquerda. Era o golpe. O golpe dele.

Foi forte. Tão forte que eu não conseguia abrir os olhos. Mas sabia que ainda estava vivo. Na lona. Mas no meio daquele barulho todo, ouvi o juiz abrir a contagem.Se eu não fizesse nada naquele momento, eu iria perder a luta da minha vida. Ia me perder. Para nunca mais me encontrar.

A contagem vai até dez. Depois disso, acabou. Fim da luta.

Um.

Eu sabia que tinha que fazer alguma coisa, mas não conseguia sair do chão. Comecei a pensar em tudo o que fiz para chegar até ali. Estudos dos adversários, madrugadas sem dormir. Todos os treinos duros, quilômetros de caminhada, socos e pontapés dos adversários, críticas, xingamentos e ofensas.

Tudo o que eu passei para chegar naquela noite, e ter aquela chance.

Se eu não fizesse nada, tudo isso não terá valido de nada.

Dois.

Decidi me certificar se ainda sentia minhas pernas.

Sim, elas ainda respondiam ao meu cérebro. Mas fiquei apavorado quando percebi que essas mesmas pernas tremiam.

Medo? Alguma lesão na coluna? Um sintoma de AVC?

Abri minha boca para tentar respirar. Mais para oxigenar o cérebro do que para encher os pulmões de ar. Precisava raciocinar. Precisava pensar rápido para sair daquela situação. O tempo estava correndo rápido demais, e precisava me concentrar no que fazer. Algo que era bem difícil com aquela multidão gritando.

Ainda assim, eu ouvia a contagem avançar.

Três.

Minha boca sangrava muito. Meus dentes estavam quebrados. Provavelmente meu maxilar está quebrado. A dor é insuportável. Ainda assim, lentamente, abri um pouco mais a boca. Para respirar e, naquele momento, também para dar um sinal de vida para o juiz. Para ele perceber que eu ainda estava vivo e disposto a lutar.

Se bem que a melhor forma que eu tinha para mostrar que iria voltar para a luta era mesmo se levantando do chão.

Eu não conseguia. Minhas pernas começaram a se mover, mas pesavam 180 quilos cada uma. Provavelmente eu estava com alguma vértebra lesionada, ou era minha consciência me punindo por não ter dado o golpe certo, na hora certa.

Meu corpo estava respondendo.

Decidi abrir os olhos.

Quatro.

A primeira coisa que vejo é um clarão em branco.

Caramba, será que, além de ficar cheio de contusões e lesões graves, eu ainda tinha ficado cego?

Ou eu estava morrendo, sendo conduzido através da luz?

Não é possível! Ele me bateu de frente, sim, mas não afetou a minha visão. Eu ainda podia ver onde foi que eu errei, e tinha noção do que tinha que fazer para sair daquele quadro. Quero dizer, sabia que tinha que me levantar. Mas não sabia como.

Por outro lado, o clarão poderia ser a tal luz no fim do túnel. E, com sorte, não era o trem vindo na direção contrária.

A luz branca foi sumindo aos poucos. E deu lugar a uma visão simplesmente desesperadora para mim…

…minha mãe. Estática. Olhando meu corpo semi-destruído na lona.

Cinco.

Minha mãe estava com os olhos marejados. Ela testemunhou toda aquela luta, sem nada poder fazer para me proteger ou me salvar.

Estava parada, com as mãos juntas. Parecia rezar silenciosamente, pedindo por um milagre. Mas não fechava os olhos, esperando por algum sinal de vida vindo do meu corpo. Por alguma reação.

Uma lágrima rolou o meu rosto.

Ali, eu estava perdendo a luta. Perder fisicamente não era nada diante do fato de ver sua mãe testemunhar você na lona. Justo ela, que se sacrificou de todas as formas para que eu vivesse meus sonhos. Para que eu perseguisse esses sonhos. Para que eu tivesse a chance de lutar naquela noite.

Se eu não fizesse nada naquele momento, não era só perder a luta. Era dar uma decepção tamanha para aquela mulher, que eu jamais iria me perdoar.

Eu precisava fazer alguma coisa.

E comecei.

Seis.

Eram três cordas que rodeavam a lona. Para ficar de pé, eu tinha que me agarrar naquelas três cordas.

Mas meus braços não respondiam. Minhas pernas tremiam. Eu tinha dificuldades em respirar. As dores no meu corpo eram horríveis. Mas eu não podia ficar ali. Minha mãe estava esperando eu me levantar.

Lentamente, comecei a mover meu braço em direção às cordas.

Naquele momento, ouvi a multidão se espantar. Já estavam declarando a minha derrota, e alguns deles até a minha morte. Ninguém acreditava que eu ainda estava com alguma condição de seguir lutando.

Aquele barulho todo começou a me dar forças. Forças que eu não acreditava que ainda existiam. Ao mesmo tempo, começou a me encher de raiva. Aquela “raiva boa” (se é que ela existe), que a gente normalmente converte em energia produtiva para virar o jogo. Ou, nesse caso, mudar completamente uma luta.

Sete.

Eu consegui subir as cordas, mas minhas condições físicas eram críticas.

Minhas pernas não respondiam a todos os meus comandos. Eu mal sentia meus pés, mas sabia que eles estavam lá pelo formigamento constante. Meu corpo, com vários hematomas e feridas. Meus braços, pesados. Meu rosto, desfigurado, cheio de sangue e com as marcas daquela e de outras lutas que enfrentei.

Me apoiei nas cordas. Sentia as cordas nas minhas costas representando toda a pressão que eu estava sentindo naquele momento. Eu puxava o ar para respirar. Agora sim, para encher os pulmões de ar. Estava difícil sentir o ar entrando nos pulmões. Eram as costelas quebradas.

Olhei mais uma vez para a minha mãe.

Ela sorria, com um misto de desespero e esperança. Nem ela estava acreditando no que os seus olhos estavam testemunhando.

Eu olhei para o juiz. O juiz olhou para mim.

Oito.

Ele seguiu a contagem. Queria ter a certeza se eu realmente iria cometer aquela tentativa de suicídio.

Para mim, não era suicídio. Era a minha última chance.

Morrer ali não ia fazer diferença se eu não tentasse alguma coisa. Morrer ali sem tentar não ia mudar a minha história. Derrotar ele… isso sim, faria toda a diferença.

Não era só derrotar um adversário muito mais forte. Era derrotar os medos que estavam dentro de mim.

Nove.

O juiz se aproximou de mim.

Verificou se eu estava bem, se eu podia me manter de pé e se eu estava enxergando o adversário à minha frente. Todas as respostas foram positivas.

E assim, o juiz autorizou o reinício da luta.

O público foi ao delírio. O barulho se tornou insano.

Mas, no meio daquele barulho todo, meu adversário decidiu tomar uma atitude surpreendente: decidiu me tripudiar.

Ele simplesmente baixou a guarda, se colocou diante de mim, a menos de 30 centímetros de distância do meu rosto, e perguntou:


“O que você vai fazer agora, seu fracassado?” 

Eu precisava ouvir isso.

Aquela raiva acumulada iria fazer sentido.

Eu respirei fundo. Rangi os dentes, apenas para sentir mais dor, e me lembrar por que eu estava ali, pelo o que eu estava ali, e o que tinha que fazer para vencer. E eu estava com muita raiva. Muita dor.

Eu precisava bater em alguém.

Discretamente, fechei a minha mão direita. Apertava os meus dedos com toda a força, para ter a certeza que toda a minha energia estava ali, concentrada naquela mão.

Eu olhei dentro dos olhos dele. Profundamente. Queria que ele sentisse medo de mim através do meu olhar. Queria destroçar a alma dele com o meu olhar. Um olhar de fúria, acompanhada de um silêncio que só ele conseguia ouvir.

O silêncio que precede o último golpe.

Sem pensar duas vezes. Sem uma segunda chance. Era uma única chance.

Movimentei meu braço direto com toda a velocidade, com a mão cerrada, e desferi o golpe. Sempre olhando nos olhos dele.

Meu punho fechado acertou em cheio a lateral esquerda de sua cabeça. Com toda a força, com toda a violência. Com raiva. Com ódio. Com vontade.

Um único golpe.

A cabeça dele ricocheteou em um movimento muito brusco. Era como se ele tivesse sofrido um acidente de carro com proporções medianas.

Quado sua cabeça voltou ao seu local de origem, ele ainda olhou nos meus olhos. Agora, seu olhar testemunhava o medo. Seus olhos lacrimejavam. Seu corpo começava a despencar.

Em câmera lenta, testemunhava aquele gigante cair.

Seu corpo caiu na lona de forma definitiva. Ele estava inconsciente. Agora era o sangue dele que era testemunhado por todos.

Eu não parei de olhar nos olhos dele. Queria me certificar que ele não iria voltar a lutar. Queria ter a certeza que derrotei aquele adversário de uma vez por todas.

Cinco segundos em que o mundo parou. Em um silêncio absurdo na arena.

O juiz decreta fim da luta. Nocaute. Acabou.

A multidão explode.

Naquele momento, eu sentia que venci maior luta da minha vida. Aquela noite ficaria para sempre na minha mente. Não apenas superei alguém maior do que eu. Superei a mim mesmo. Ali, aprendi o que é superação, determinação, raça, coragem… resiliência.

As luzes me cegavam. O ar voltou a faltar. Minhas pernas bambearam de novo. Tudo ficou escuro.

Eu estava desmaiando.

Mas não me preocupei mais. Deixei o meu corpo cair.

No meio da comemoração de todos, o meu corpo repousava na lona. Pensei naquele momento na ironia da vida: estar no chão é vencer e perder ao mesmo tempo. Cair é o melhor incentivo para você se levantar e voltar a lutar. Para vencer.

Minha mãe chegou até mim. Repleta de felicidade. Queria saber se eu estava bem.

Ela colocou as mãos no meu rosto, pedindo para que eu acordasse. Os médicos tentaram explicar para ela que eu estava inconsciente, mas ela insistia em dizer “é meu filho, ele é um campeão, não estão vendo? Ele é meu campeão… ele vai se levantar… eu sei disso…”.

Eu ouvi tudo isso. Com alegria.

Abri meus olhos. Olhei para aquela mulher que me deu a vida, e acabou de testemunhar eu arriscar a minha vida em nome os meus sonhos.

Ela me perguntou: “Quer falar alguma coisa?” 

Eu sorri. E disse…


“Quando será a próxima luta?”

“Lose Yourself” é uma das melhores canções de Eminem. Talvez a mais importante de sua carreira, que mal tinha alcançado o estrelato em 2002.

Porém, ao decidir colocar essa música na trilha sonora do filme “8 Mile: Rua das Ilusões”, que contava a sua história de luta até chegar no sucesso tão almejado, ele alcançou outro patamar.

A canção ganhou um Oscar de Melhor Canção Original e dois Grammys. É uma das músicas mais bem sucedidas da carreira de Eminem.

Já o mundo ganhou um autêntico hino dos os lutadores. Daqueles que se recusam a ficar no chão. Daqueles que reúnem forças de onde não sabem como e onde encontrar para se levantar.

Daqueles que decidem dar na cara do medo. Com toda a força.

Aproveitando uma única chance. Com sorte, a grande chance da vida.

“Lose Yourself”
(Eminem, Luis Resto, Jeff Bass)
Eminem, 2002


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