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“Eu sou um piloto, um vencedor. As coisas estão mudando… eu posso sentir!” 

Eu sou um perdedor. Você também é. Todos nós somos.

Todos nós, em algum momento, perdemos alguém, algo, ou pior, nos perdemos na vida. Perder não é apenas ter retirado de você algo que você dava valor, mas também deixar de conquistar algo que teria algum valor para você no presente ou no futuro. Ou também perder o GPS de sua jornada, o que é o mesmo de se perder completamente.

É óbvio que eu sou um perdedor. Perdi e me perdi por diversas vezes no caminho. Sou tão falível, que eu diria para você que não dá para confiar em mim porque, em algum momento, eu vou falhar com você. Ah, e um conselho desde já: não deixe a sua tartaruga de estimação comigo, pois sou tão desastrado que ela sozinha vai colocar fogo no meu apartamento… e desaparecer, pegando um ônibus para Pindamonhangaba (é claro).

Aliás, muita gente que me conheceu (e que me conhece até hoje) afirmou aos quatro ventos que eu sou um perdedor, um fracassado. Um Loser, como bem diz a letra. E eles tiveram os seus motivos.

1. Nunca fui o melhor aluno da escola. Na sétima série, eu surtei quando levei um boletim com a minha primeira nota vermelha. Eu não sabia como lidar com isso. Antes disso, eu desmontava meus brinquedos e não sabia remontá-los. Meus pais, furiosos, dizia que só um burro poderia fazer uma coisa dessas com os caros brinquedos que eles compraram.

2. Eu era considerado um perdedor porque desde criança eu preferia ficar em casa, ouvindo música e mexendo no computador, no lugar de sair e brincar com as outras crianças da rua. Curiosamente, nos mudamos para um bairro onde a rua não era de terra batida, e onde as outras crianças do bairro tinham mais vontade de jogar bola do que qualquer outra coisa. Mas essa é outra história.

3. Eu era considerado um perdedor pelos meus colegas de escola porque minha mãe me insistia em me acompanhar até o colégio quase todos os dias. Fui considerado um perdedor por dançar a primeira dança do baile de formatura com a minha mãe, e não com alguma menina bonita da qual eu estivesse a fim.

4. Fui chamado de perdedor quando comecei a cantar em coral, aos 16 anos de idade. Meus colegas disseram quase todo o tipo de coisas, inclusive que eu tinha uma “alma de velho”. Me criticaram por ter a coragem de usar bata para cantar, ou por cantar músicas do século passado (ou mais).

5. Fui diminuído na escola por conta do preconceito racial e de outras espécies. Fui chamado de “negro de merda” tantas e quantas vezes pude respirar. Minha mãe foi chamada de quenga aos quatro ventos por uma sala de aula inteira. Fui ridicularizado por um diretor que não olhou para nada disso quando me suspendeu quando decidi defender a honra da minha mãe.

6. Fui considerado um fracassado quando fui mandado embora do meu primeiro emprego, por um erro meu, um desvio de caráter meu. Talvez eu precisasse aprender essa lição o mais cedo possível, para aprender uma coisa: honestidade.

7. Me chamaram de perdedor quando eu me casei com uma mulher bem mais velha do que eu. Disseram que eu estava fazendo isso para dar o golpe do baú, para me encostar nos outros, ou porque eu era tão fraco emocionalmente, que eu não tinha a capacidade de conquistar uma mulher da minha idade.

8. Fui duramente criticado quando decidi deixar um coral porque não aceitei mais as diretrizes tomadas. Quando entendi que a regente tomou caminhos equivocados ao aceitar mudanças impostas por pessoas que estavam acima dela, que pouco ou nada entendiam de música, ou que fugiam completamente dos propósitos inicialmente estabelecidos para o grupo.

9. Fui considerado um derrotado quando fui convidado a me retirar de dois dos meus corais, por onde permaneci por sete anos. Fui acusado de ser arrogante, pedante, querer “mandar mais que a regente”. Fui acusado na época de ter um caso com a regente, que era casada.

10. Fui considerado um perdedor quando meu casamento acabou. Fui acusado de não saber amar, de não saber perdoar. Fui chamado de vingativo, rancoroso. Fui chamado de traidor por pessoas que nunca quiseram viver o meu casamento (e nem tinham o direito de viver, já que era uma relação que, em teoria deveria ser entre duas pessoas). Fui considerado persona non grata por pessoas que nunca fizeram questão de querer conviver comigo.

11. Fui considerado um perdedor quando meu primeiro relacionamento no Paraná não deu certo. Durou apenas três meses. Fui acusado de destruir uma estabilidade familiar, de querer de novo me encostar em uma mulher mais velha. Fui acusado de trair o amor de quem tinha amor para me dar.

12. Fui mais uma vez considerado um fracassado por ter me mudado para Santos e voltar no mês seguinte. Por não ter correspondido às expectativas de quem acreditou demais em mim. De ter traído e enganado quem me abriu as portas. Fui acusado de ser gigolô.

13. Recentemente, fui chamado de perdedor por não ter a humildade de reconhecer meus erros. Por ser considerado carente demais, por querer a atenção de todos, por querer que meus méritos sejam reconhecidos por aqueles que me detestam. Fui acusado de ser mimado demais.

Sim, meus amigos. Eu sou um perdedor.

Mas a vida me ensinou que as minhas derrotas e fracassos foram um caminho obrigatório para alcançar as minhas vitórias. Me convenci de uma vez por todas que, para alcançar o sucesso, é preciso lidar com as perdas da vida, as derrotas no meio do caminho. É preciso conviver com o fracasso de tempos em tempos.

E agora, olhando para trás, eu vejo como os meus fracassos me tornaram alguém bem sucedido. Em tudo o que eu perdi, sempre teve algo que eu aprendi e prosperei.

Eu explico:

1. Cada vez menos me preocupo com a perfeição das coisas. Sei que meu trabalho precisa ser o mais próximo possível da perfeição, mas se eu não alcançar esse resultado, ao menos sei que entreguei o meu melhor e, no final, o resultado será o melhor possível dentro das minhas possibilidades. E vou me sentir bem com isso. E desmontar meus brinquedos fez com que despertasse em mim o desejo de aprender como consertá-los e remontá-los. Hoje, eu economizo dinheiro consertando os meus próprios dispositivos, e ganhou um bom dinheiro consertando os dispositivos dos outros.

2. Foi por ouvir música que eu me apaixonei por ela. Foi por causa da música que as pessoas mais interessantes que eu conheço entraram na minha vida. É por causa da música que esse projeto existe, e me sinto muito orgulhoso por isso. Por causa da música aconteceram algumas das melhores coisas da minha vida.

3. Minha mãe sempre foi minha companheira. Sempre cuidou de mim. Felizes daqueles que tem uma mãe como a minha. Foram bons tempos da minha infância. Ao menos não me sentia sozinho nesse período da vida.

4. Música é a minha vida, e o canto coral faz com que eu me sinta em casa. Em família. Meus melhores amigos hoje estão em um coral ou estão relacionados à música. Hoje, conheço mais músicas do que poderia imaginar, trago mais de 5 mil músicas no meu celular, mais de 20 mil partituras para coral no Google Drive, e conheço detalhadamente cada partitura que ensaio. Hoje, finalmente estou em um bom conservatório de música, e tenho o respeito dos meus regentes. Bom, fazer isso por 22 anos me serviu de muita coisa.

5. Compreendi que o que passei no colégio foi muito mais bullying do que racismo. Aprendi com o tempo a vencer pelo meu talento, e não pelo coitadismo em relação à cor da minha pele. Minha capacidade está mais do que comprovada dentro da área de tecnologia na cobertura de eventos no país e no exterior, e meu valor como coralista é reconhecido em pelo menos quatro estados, com todo o histórico que tenho das atividades que realizei em mais de duas décadas. Logo… ser negro hoje para mim é um dos mais interessantes detalhes da minha vida. Mas é apenas um detalhe.

6. Se eu não aprendesse ali o que era ser honesto, eu jamais poderia hoje dizer de boca cheia que sou um profissional honesto. Ao longo de quase 10 anos escrevendo sobre tecnologia, fechei parcerias com as principais marcas do setor, cumpri com todos os meus compromissos, e meus sites continuam no ar, com prestígio e visibilidade, apesar de todas as dificuldades. Isso só é possível através de um trabalho honesto.

7. Eu me casei por amor. Meu casamento durou 12 anos, e teria durado mais se eu não tivesse pedido o divórcio. Eu cometi erros, ela também, e chegou em um momento em que os dois não queriam mais ver o outro sofrer. Minha ex-esposa é uma mulher maravilhosa, e foi decisiva para que eu me tornasse o homem que sou hoje. E se você pensar que 50% dos casamentos acabam no primeiro ano… quem é o fracassado mesmo?

8. Eu acredito em todos os projetos musicais que assumo. Acredito nos propósitos dos meus regentes, e me recuso a fazer qualquer coisa em música que eu não acredito. E um coral que tem como objetivo atender a comunidade com mensagens de amor, esperança e paz não pode se fechar para um mundinho de uma única instituição.

9. Aprendi na subordinações a ser subordinado com regentes que sabem impor respeito, aos regentes que conseguem me entregar o melhor de sua capacidade técnica para me fazer crescer. Parei de respeitar regentes que limitavam meu crescimento musical, que não me desafiavam. E sim… meu casamento já estava em crise e a regente era mal casada. Tirem suas próprias conclusões.

10. Já expliquei no item 7, mas… só para complementar: meu casamento era meu e da minha ex-esposa. Sempre foi assim e sempre deveria ser assim. Quando terceiros decidiram interferir ou assumiram o poder de uma relação que não era deles, eu decidi sair. É engraçado quando as pessoas chamam de mágoa e rancor quando estamos decidindo por nós e não em favor do interesse de outras pessoas, não?

11. Sendo bem direto: detesto pessoas que querem controlar minha vida em cada centímetro. Pessoas com distúrbio de personalidade (com diagnóstico comprovado), bipolares, que transferem a culpa de seus problemas para os outros. Adoro o Paraná, mas a cidade de Ponta Grossa está cheia de gente assim. Gente assim nunca sabe o que quer. E eu sei bem o que eu quero. Curioso é que, depois disso, eu remontei minha vida completamente, e prosperei. Tanto na parte profissional quanto na música.

12. A mesma regra do item 11, com um agravante: ninguém vai tirar de mim o que tenho de mais valioso na vida. E, mais uma vez, remontei minha vida. Cada vez melhor. Hoje, vivo em um lugar melhor, com melhores condições de trabalhar, com mais possibilidades de desenvolver meu trabalho musical. Ficar madrugadas acordado e, em alguns casos, sem ter para onde ir me deram foco e direção para seguir em frente.

13. Esse texto mostra claramente que sei sim reconhecer meus erros ao longo da minha jornada. Acontece que tem gente que é cega e surda para confissões alheias. Estão limitadas demais pelas suas próprias dores e fracassos, que não admitem em nenhum momento que outra pessoa é capaz de enxergar esses mesmos erros e buscar soluções. Talvez o sentimento de derrota seja tão forte nessas pessoas que, por medo de se sentirem sozinhas no vale do medo, insistem em puxar para baixo quem está buscando a luz.

Como podem ver, meus amigos… eu sou um perdedor. A vida me especializou em ser um fracassado.

Porém, eu agradeço. Todos os meus fracassos me levaram para um lugar bem melhor. Viver intensamente é tentar, arriscar, errar e se machucar. Mas principalmente aprender com os erros, para depois acertar e prosperar.

E, podem ter certeza: os meus erros eu aprendi. E não vou parar de evoluir.

E assim vai ser.

Até o fim.



“Loser”
(Beck Hansen, Karl Stephenson)
Beck, 1994


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