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Que o sol de cada manhã aqueça nossos corações de esperanças e sonhos.

Tantos foram os lindos dias de sol que deixei de apreciar por ficar preso dentro de casa, escrevendo em um computador, assistindo TV ou jogando videogame. Tantas foram as oportunidades perdidas de ver a natureza mostrando sua forma e beleza sem travas, apresentando suas cores e traços de forma simplesmente genial. Quanto tempo eu perdi de caminhar por aí, sem destino. Apenas observando as diversas belezas feitas pelas diferenças dos detalhes apresentados.

Houve um tempo na minha vida que eu não prestava atenção para a luz do sol. Ignorava sua força e onipresença, independente do fato dos dias serem de céu azul ou nublados, como alguns dias da nossa vida são. Eu não me importava muito para o fato de estar chovendo lá fora ou se o sol estava raiando. Para mim, não fazia muita diferença. Desde que eu estivesse no meu mundinho particular, estava bom demais.

Como todo ser da geração conectada, eu preferia muito mais ficar conversando com amigos e amigas por chats e redes sociais do que caminhar por aí sem rumo e sentir o calor do sol. Ironicamente, trocava qualquer coisa para ficar no meu quarto vendo minhas séries de TV, lendo notícias na internet e batendo papo no ICQ. É, meus amigos… eu era bem nerd. De verdade.

Curiosamente, quando eu comecei a cantar e me interessar ainda mais por música (pois passei a fazer música e não apenas ouvir), as coisas começaram a mudar.

Eu me obrigava a sair de casa para ensaiar, o que já era uma vitória para quem ficava enclausurado, evitando ao máximo perder o episódio daquela série de TV que eu tanto gostava. E essa simples mudança de procedimento me obrigou a fazer outras tantas coisas que eu não estava acostumado, mas que seriam muito importantes para o meu futuro como pessoa.

Para começar, passei a conviver mais com outras pessoas. Não que eu não fizesse isso. Mas na escola, eu sentia que não tinha muita escolha. Ou era isso, ou eu entrava no grupo dos excluídos e solitários logo de cara. Nos corais, não: eu estava me relacionando com gente por escolha própria. E foi através desses novos hábitos que comecei a identificar em mim essa necessidade de trocar experiências, aprender e, quem sabe, ensinar algo. Crescer através da força conjunta de trabalho e do companheirismo.

Nesse momento, eu comecei a ver melhor o sol. A prestar mais atenção na função que ele tem na vida de todos e, obviamente, na minha também.

Comecei a notar que, independente do tempo, ele sempre estar lá. Faça chuva ou faça sol. Podemos não ver ele todos os dias, mas ele está lá. Sempre.

É uma metáfora curiosa da vida. Os nossos amigos mais leais são como o Sol. Perto ou longe, eles estão brilhando, emanando suas energias para que possamos ficar bem e seguir adiante. Aliás, é por causa do Sol que podemos ver todas as belezas do mundo, uma vez que ele tem uma luz tão intensa, que até mesmo quando está tudo nublado e cinzento podemos ver tudo.

Com isso em mente, passei a observar melhor o mundo que me rodeia. Nos trajetos de idas e vindas dos ensaios, observei as cores das árvores, carros e prédios. Os traços bem marcados da selva de pedra, combinando com as irregularidades asfálticas e dos passos apressados das pessoas. Passei a ver melhor as placas que me indicavam por onde seguir, os avisos que elas tentavam me passar, os atalhos que eu não poderia pegar.

A luz do Sol me mostrou que, por onde passo, passaram tantos outros. Com alguma sorte, vou ver as pegadas no caminho, e sempre tentar decifrar o que ali aconteceu, para decidir se é por ali mesmo que quero prosseguir. A luz do Sol me fez observar as folhas de outono que caem, mostrando que o ciclo da vida é constante, e que de tempos em tempos vamos ter aquele momento onde teremos que lidar com as perdas, mas sem lamentar as folhas caídas ou pétalas de rosa perdidas.

As rosas… a luz do Sol me mostrou como as rosas são belas. Algumas delas, mais belas e perfumadas. Porque, apesar de todas serem rosas, algumas são especiais e únicas. Aquelas rosas que nos cativam são singulares na nossa alma.

A luz do Sol me mostrou o caminho. Me mostrou as portas fechadas do caminho também. Mas ao mesmo tempo, me mostrou janelas abertas, pontes livres, outros caminhos que podem ser explorados. A luz do Sol me encheu de novas possibilidades para realizações fantásticas, para atos extraordinários e conquistas inimagináveis.

O Sol me mostrou que posso sim alcançá-lo sem usar asas de cera. Que minha capacidade criativa vai além da estratosfera, alcançando outros planetas e galáxias com um simples piscar de olhos. Me mostrou riachos tranquilos, onde meus pés tocaram e sentiam o correr das águas indicando o frescor do novo. Também vi as corredeiras pelo caminho, e me deu a certeza que, nessa vida, temos que simplesmente nos jogar no mar, lutar para não deixar esse mesmo mar nos engolir, e ainda sobreviver para pegar a onda mais incrível de sua vida.

A luz do Sol mostrou as minhas marcas mais profundas, as minhas cicatrizes mais doloridas. Mostrou para que eu não tivesse medo ou vergonha dessas marcas, pois elas representavam a luta de toda uma existência. Era as medalhas de quem lutou e não desistiu.

A luz do Sol iluminou o meu caminho, por onde passo hoje com os dois pés bem plantados no chão. Minha busca constante de conexão com a terra é tamanha, que meus calçados hoje são desnecessários. Quero sentir a terra entrando pelos meus poros, em um piso seco ou molhado, apenas para que a simbiose da vida se torne mais plena. Apenas e tão somente para me conectar ainda mais com a grande criação de Deus.

Por fim… a luz do Sol me mostrou tanta coisa… mas a principal dessas coisas é que ele está lá em cima, brilhando, emitindo sua luz e calor, com toda a força, apenas e tão somente para que cada um de nós possamos ter o livre direito de viver, e a capacidade de decidir qual será o próximo passo, o próximo caminho que ele vai iluminar.

O Sol brilha para todos, sim. Mas brilha mais para aqueles que tem a coragem de decidir. De dizer SIM e NÃO quando necessário. Que se entregam na experiência da vida de forma plena. Que enche os pulmões de ar para oxigenar o cérebro e o coração, alimentando assim a alma de alegria e paz para abraçar as coisas mais bonitas e significativas da vida.

Eu sou grato pelas melodias em Sol maior me mostrarem o Sol que brilha a cada manhã. Não sou daquele tipo de pessoa que aplaude o Sol quando ele se recolhe no final do dia, mas reconheço o seu espetáculo diário que, de forma infalível, mostra para todos nós as belezas da vida que não conseguimos ver por nos preocuparmos demais em ficar no nosso mundinho.

Ou pelo medo de nos cegarmos com a luz.

Luz do Sol… que traduz todos os dias as belezas da vida e da existência humana…

Obrigado por permitir que eu pudesse ver além do que os meus olhos estavam vendo.

Obrigado por me fazer enxergar no outro o que queria ver em mim.

Obrigado pelo caminho que hoje sigo.

E por testemunhar esse texto que acabo de escrever.





“Luz do Sol”
(Caetano Veloso)
Caetano Veloso, 1986


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