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Maria chegou na delegacia de cabeça baixa. Não tinha coragem ou forças para levantar a cabeça e olhar para frente. Porque chegar até aquele local foi algo muito difícil. Ela sentia medo e vergonha. Se sentia humilhada sem a sua dignidade.

Ela abraçava o seu corpo na tentativa de se proteger de tudo e todos, pois agora trabalhava em sua mente com o inimaginável. Não era apenas o medo do desconhecido, mas também a insegurança por não fazer ideia do que poderia receber das pessoas ao seu redor. Seu medo era que o ataque poderia vir a qualquer momento.

E de qualquer homem naquele local. Mesmo sabendo que uma delegacia é, em teoria, um ambiente controlado.

Maria não consegue se sentar no banco de espera com o conforto e a normalidade de qualquer pessoa, pois o seu corpo ainda sentia as dores da violência sexual que ela sofreu. Partes específicas de suas roupas evidenciavam manchas de sangue que falavam por si. Seu olhar marejado revelava uma combinação de tristeza, revolta, decepção, indignação e, principalmente, medo.

Ao mesmo tempo que esse medo era a motivação necessária para Maria ter a coragem em denunciar aquele ser asqueroso que não respeitou o NÃO É NÃO, era o mesmo medo que revoltava a nossa protagonista. Ela não queria sentir medo, mas era obrigada pela dor física e emocional que invadia a sua mente.

Maria então coloca a mão direita na boca e, com o sangue que mancha a palma de sua mão, constata que tem quatro dentes quebrados. Ela começa a se perguntar se vai conseguir falar o necessário para denunciar o monstro que acredita que “assédio é um direito do homem, e que toda mulher gosta de ser assediada porque isso massageia o ego”. Ironicamente, ela se questiona se o NÃO É NÃO dela resultou na tentativa de “massagem” de sua massa encefálica.

Provavelmente sim. Maria se lembra de ter dito o NÃO. Depois disso, só consegue registrar vagamente a imagem de ser agarrada pelos cabelos e puxada para dentro do carro pelo homem das cavernas travestido de macho alfa. As marcas de arranhões pelo corpo evidenciam que suas roupas foram arrancadas à força.

E quando ela tentou gritar… um apagão. Muito provavelmente porque ele socou a sua cabeça e o seu rosto.

Maria foi encontrada desacordada, às 6h da manhã, em uma rua qualquer, por uma senhora que estava indo para a missa de domingo. Depois de ser acalmada por medicamentos (evitando assim ter um colapso nervoso), nossa protagonista, cheia de dores no corpo e na alma, tomou a decisão de procurar uma delegacia para dar parte do seu agressor.

E pensar que tudo começou justamente porque ela não quis que o encontro terminasse em sexo.

Ela disse NÃO para ele.

Maria sente as dores nas regiões sexuais do seu corpo. Seios, nádegas e vagina, que deveriam ser acariciadas, estão violentamente machucadas e sangrando. Ela fecha os olhos e chora ao pensar que um desconhecido ainda vai testemunhar o estado de suas intimidades, e constatar que ela foi vítima de uma violência.

A delegada de plantão ouve o desespero de Maria nos corredores. Se levanta, para na porta de sua sala, e observa o estado deplorável de nossa protagonista. E diz:

– Pode entrar. Chegou a hora de ouvir você. Em detalhes…

 

 

Essa história não termina aqui.

Talvez eu realmente desejasse que essa história chegasse ao fim nesse ponto, assim como todas as outras histórias d tantas Marias e Alices espalhadas pelo Brasil que não conhecemos. Porém, como eu não consigo dimensionar qual é a dor que essa Maria está sentindo, é melhor eu parar essa narrativa, pois ela não seria autêntica.

Encerro essa história inacabada, na esperança que, um dia, as demais histórias semelhantes que acontecem a cada momento e não sabemos um dia encontrem um fim. Não posso dizer que o final será feliz, mas posso desejar para essa e outras tantas Marias que a dor um dia se apague. Ou pelo menos dizer “isso vai passar… um dia de cada vez…”.

Em uma semana onde fomos moralmente testados na nossa convicção entre entender que o próximo merece respeito e ouvir um ser irracional dizendo o que uma mulher deve receber ou suportar, eu senti algo que jamais poderia imaginar que passaria pelo meu coração diante de tamanhos absurdos ditos e reivindicados por pessoas que não estão dando a mínima para o próximo: medo.

Medo pelo o que pode acontecer com as mulheres mais importantes da minha vida.

Medo em saber que qualquer uma delas pode ser a próxima vítima.

Medo por não saber o que fazer para protegê-las.

Um texto é insuficiente. Infelizmente.


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