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Talvez você não vai acreditar em nenhuma palavra que eu escrever nesse texto. Mesmo assim, eu vou tentar…

Talvez eu jamais tivesse te conhecido se eu não quisesse uma mudança radical de minha vida. Você pode não acreditar, mas quando eu estava a caminho do Paraná, a única coisa que pedi à Deus dentro de um ônibus cheio, com todas a minha vida em caixas no guarda-volume foi: “seja lá o que tiver que acontecer, que aconteça o melhor para mim”. Eu não tenho dúvidas que eu fui ouvido e atendido, e que isso acontece até hoje. E, acredite: você é uma dessas respostas.

Talvez a gente jamais tivesse se encontrado na vida se eu não quisesse arriscar. Tentar passos mais ousados, os desafios de estar em outra cidade, em outro estado, em uma cultura bem diferente da minha. Tudo isso me deu provas de que a minha coragem estava acima do que eu mesmo sabia ou desconfiava. Tudo o que vivi (e ao que sobrevivi) ajudou a moldar o meu caráter. Me deu personalidade e força. Sei que não sou igual aos demais. Sei que sou muito raro. Sei que sou único, por causa de tudo o que passei.

Talvez eu tivesse que passar por tudo isso para te encontrar.

Talvez eu tivesse que passar por um momento onde apurei ainda mais a minha sensibilidade musical. Talvez eu precisasse aprender a sentir ainda mais as canções que vivem em mim para cantar algumas delas para você. Talvez você ainda não tenha a maturidade ou compreensão para entender o que eu canto, mas… pelo amor de Deus, pelo menos sinta que tudo o que eu canto para você vem do mais profundo do meu ser.

Talvez eu realmente precisava encontrar você não só para me encontrar. Talvez eu encontrei você para me compreender.

Talvez tenha sido o seu sorriso que me cativou. Sua risada espontânea, seu jeito espalhafatoso, faladora, passional, de gente que “fala com as mãos e os braços”. Eu me descobri gostando desse jeito de ser. E isso aconteceu porque é você. E só poderia ser com você.

Talvez eu veja as suas limitações e defeitos como reflexo das minhas limitações e defeitos. Talvez eu tenha que aprender com seus defeitos a corrigir os meus. Talvez eu tenha que ser mais paciente com você e comigo também. Por causa dos defeitos? Nem tanto. Mas para não deixar que as coisas boas que guardamos nos nossos respectivos corações sejam apagados de vez por conta da nossa falta de percepção e sensibilidade diante dos desafios internos que não conseguimos vencer.

Talvez eu tenha que perder para ganhar. Talvez eu tenha que destruir para reconstruir. Talvez eu tenha que encerrar para recomeçar.

Talvez eu te peça um novo começo. Talvez eu te peça para que não seja o fim.

Talvez eu entenda mais de você do que você imagina. Você vive dizendo que eu não te conheço, mas eu tenho certeza que, a essa altura, você quer continuar esse texto. Quer seguir até o final, apenas para saber onde tudo isso vai dar. Ou porque reconhece que sou alguém importante o suficiente para você perder pelo menos mais cinco minutos lendo tudo o que eu tenho a dizer.

Talvez você não me queira mais. Talvez a ferida no coração seja tão grande, que ela não consegue mais ser cicatrizada. Talvez você chore pelo resto da vida o dia que eu deixei você para trás, quando acreditei que seria melhor viver o futuro do que o presente.

Talvez eu jamais me perdoe por isso. Talvez eu chore junto com você, apenas para que você se sinta melhor.

Talvez um dia eu me perdoe, não pense mais sobre o que aconteceu, e finalmente consiga seguir em frente. Talvez nesse dia estaremos brindando em algum restaurante a superação de nossas mágoas e frustrações mútuas. Quem sabe nesse dia eu consiga conceder à você a dança prometida, de rosto colado, desejando que o mundo pare de vez apenas para que essa dança não acabe.

Talvez eu me sinta até hoje maravilhado por você, em um universo cheio de pessoas comuns e sem graça, conseguir me olhar de forma diferente. Conseguir ver algo especial em mim, mesmo sendo um cara comum. Enxergar o que existe dentro de mim em um mundo cheio de superficialidades.

Talvez eu tenha sido o único que também conseguiu te enxergar por dentro. A ponto de sentir em você uma alma machucada, com dores do passado, que buscava se curar. Talvez eu jamais seja capaz de curar suas feridas, mas eu fico feliz por ter me deixado tentar. Talvez um dia eu ainda consiga fazer você se sentir em paz. Aquela paz que você tanto procura.

Talvez eu seja o único capaz de fazer isso por você. Talvez apenas não é a minha hora de fazer.

Talvez eu jamais consiga fazer. Talvez não é para ficarmos juntos.

Talvez eu me desespere diante desse cenário. Que eu queira desistir a pensar que não vou conseguir te fazer feliz. Que não serei feliz ao seu lado. Talvez eu chore por dias, sofrendo, porque isso não é possível nesse momento.

Talvez o futuro não represente uma felicidade entre duas pessoas que se completam. Nem sempre temos o que queremos, mas sim o que precisamos. E, talvez, eu não sou quem você mais precisa ter na vida para ser feliz.

Talvez eu esteja dizendo tudo isso como uma tentativa tola de querer que tudo volte a ser como era antes. Talvez eu não mereça isso. Talvez eu não queira isso também: eu estou tão machucado e de saco cheio de ver você cometer os mesmos erros, que talvez eu queira mesmo ficar sozinho, no meu canto. Pensando em como talvez poderíamos ser melhores juntos. Em como talvez seria incrível conhecer o mundo ao seu lado, acordar ao seu lado todas as manhãs e ver você crescer como pessoa em vários aspectos.

Talvez e gente brigue tanto porque eu queria na verdade era brigar por você e com você. Talvez e gente se agrida tanto porque o desejo de ter um ao outro é algo tão forte e, ao mesmo tempo, tão impossível, que começamos a machucar um ao outro. Na esperança de que um desista do outro. Na esperança que a dor da separação seja menor do que a dor de não estar envolvido nos braços do outro.

Talvez eu seja tão exigente com você porque eu quero ver você melhor. Porque eu preciso ver você melhor. Porque eu preciso ver você feliz. Eu preciso ver você superar a si mesma para ser alguém ainda mais incrível. Alguém que vou amar ter ao meu lado, hoje e sempre.

Talvez eu tenha medo de te amar. Talvez eu tenha medo de ser amado por você.

Talvez eu tenho muito medo de dizer ao mundo “eu te amo”.

Talvez eu tenha medo de berrar para todo mundo ouvir o quanto eu amo você e o quanto você é importante na minha vida. Talvez eu tenha medo das consequências.

Talvez eu tenha medo de pensar em você o tempo todo, de esperar tanto para te encontrar, de olhar no fundo dos seus olhos, na esperança de encontrar em você o brilho que falta para iluminar meus dias, para guiar minha caminhada.

Talvez eu tenha medo da sua alegria exacerbada, da sua espontaneidade, do fato de você ser maluca e dizer sempre o que pensa. Talvez eu tenha medo do seu espírito jovem me desafiando a deixar de ter um espírito velho. Talvez eu tenha medo das suas imperfeições me tirarem da prisão que eu mesmo construí; uma prisão de um mundo perfeito, onde eu, confortavelmente, insisto em querer me acomodar, na tola ilusão de que nela eu sou feliz.

Talvez eu tenha medo da forma em como você me tira do senso comum, me convidando a ser feliz da forma mais louca e imprevisível possível. Talvez a grande lição que ainda tenho a aprender com você é compreender que o fluxo da vida segue como uma força indomável e constante, e que a melhor forma de viver é efetivamente aproveitar desse fluxo. Seja para pegar as melhores ondas, seja para encontrar o caminho mais desafiador. Seja para passar por todos os desafios e vencer, com luta e coragem.

Talvez a melhor forma de viver é enfrentando essas correntes agarrado nos braços de quem não quer ver você se afogando. De quem quer respirar o mesmo ar que você. De quem quer ser ar para você.

Talvez eu tenha a coragem de dar o braço a torcer e dizer que preciso aprender com você. Talvez eu tenha a coragem de dizer para você que é você quem precisa descer do salto, não apenas para aprender comigo, mas para me beijar, porque você já é quase da minha altura.

Talvez eu esteja com medo de, ao precisar de você, me torne dependente. E, por não ter você, sofrer ainda mais. Talvez eu tenha medo de pedir ajuda para você. Talvez eu queira que você só me escute e me entenda. Talvez eu precise entender você melhor, para não mais fazer você sofrer.

Talvez eu esteja sozinho demais para querer estar com alguém. Talvez eu esteja sozinho demais para não querer outra pessoa a não ser você.

Talvez eu queira você não apenas para dar os passos na mesma estrada. Talvez eu queira você do meu lado para cantar comigo as canções que estão no meu e no seu coração. As canções que eu vou fazer para você, e para mim. Talvez eu queira você comigo para não deixar essas canções serem mortas pela minha solidão.

Talvez você pense que isso tudo é apenas literatura barata para tentar convencer alguém que vale a pena seguir em frente. Talvez você simplesmente ignore tudo o que escrevi aqui e decida novamente abraçar as suas mágoas e deixar tudo como está.

Talvez você me entenda e queira simplesmente me abraçar, apenas como um sinal de que tudo vai ficar bem. E que vamos seguir em frente, tal e como éramos como eu te conheci.

Talvez eu precise te pedir desculpas por toda dor que te causei. Talvez eu precise fazer um pacto com você, com o compromisso de ser mais paciente com suas fraquezas e imperfeições, na tentativa de não te fazer sofrer com minha impulsividade.

Talvez eu não devesse prometer isso, pois corre o risco de não ser capaz de cumprir.

Talvez eu devesse apenas dizer que não quero te ver sofrer por minha causa.

Talvez eu devesse encerrar por aqui. Não há muito mais o que dizer. Quero dizer…

Talvez você queira ter a certeza que um dia ficaremos juntos. Que um dia vou compreender seu ser. Que um dia eu vou te amar como você espera.

Talvez eu queira ter as mesmas certezas que você.

Talvez eu precise simplesmente dar tempo ao tempo. Talvez eu queira que tudo aconteça já, aqui e agora.

Talvez faltou dizer para você que, independente de como você vai receber esse texto, é importante que você saiba de uma vez por todas que… você já está no meu coração. E de lá não vai mais sair. Mesmo que um dia você não queira mais saber de mim. Mesmo que um dia o “adeus” que você insista em dizer seja finalmente algo real.

Talvez eu vá te procurar depois do “adeus”. Talvez eu te pergunte se eu posso ficar na sua vida. Talvez eu pergunte se você queira ficar na minha vida.

Talvez você não saiba que Paul McCartney escreveu essa canção para a sua esposa, Linda McCartney, durante o período de separação dos Beatles. E, talvez por isso, o amor entre os dois se tornou ainda maior. Porque ela era as respostas para todos os “talvez” da vida dele.

Talvez você seja todas as respostas para todas as 93 vezes que eu escrevi “talvez” nesse texto.

Talvez a felicidade nos pertença, ou que tudo isso foi uma linda história que duas pessoas que se gostam muito viveram, que chegou ao fim… e os dois precisam seguir em frente, onde cada um à sua maneira, tentará ser feliz.

Talvez.



“Maybe I’m Amazed”
(Paul McCartney)
Paul McCartney, 1970


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