barbosa

O meu avô foi um ingrato. Aliás, toda a geração do meu avô foi muito injusta. Culpar Barbosa pela derrota do Brasil contra o Uruguai na final da Copa do Mundo de 1950 é de uma injustiça sem tamanho. Pra começar, um time é composto de 11 jogadores. Depois, ninguém coloca o mérito do Uruguai nessa vitória. Por fim, depois da humilhação sofrida pelo time do Felipão ontem, a primeira coisa que meu avô e seus amigos velhinhos que falam mal de tudo e de todos sentados no banco da praça jogando dominó deveria fazer é pedir perdão para Barbosa, e para todo o time de 1950.

Aliás, não só nossos avós. Nós, brasileiros, como um todo, precisamos pedir perdão ao time de 1950.

O 7 a 1 sofrido ontem faz o 2 a 1 de 1950 parecer um ótimo resultado. De novo: eu sei que foi triste na época. Muito triste. Foi tão traumático, que nunca mais o Brasil jogou de branco. Mudamos tudo, a ponto de vencer cinco campeonatos mundiais depois disso. Mas não podemos mais tratar a derrota de 1950 como “vexame”. Foi uma decepção. Uma dor profunda, que nos motiva a mudar as coisas para melhor.

Aliás, a derrota de 1950 significou muito mais uma decepção por não conquistar um título mundial em casa do que qualquer outra coisa. A festa interrompida. A alegria arrancada. E isso aconteceu por conta de um time que jogou melhor do que o Brasil. Um Brasil que lutou, mas não conseguiu.

Então, vovôs e vovós do meu Brasil… comecem a perdoar de uma vez por todas a seleção de 1950. Absolvam a alma de Barbosa de uma maldição injusta, imposta por vocês. Diferente do que aconteceu ontem, o time de 1950 lutou, fez o que pode, e não conseguiu. O tal “Maracanazzo” acabou, de vez. Não existe mais esse trauma. Não existe mais o medo do Uruguai. Apenas isso.

Vamos exercer a prática do perdão. Todos nós. Esse capítulo triste do futebol brasileiro foi superado.

Já o time de 2014? Ele entra para a história como o time que sofreu a pior derrota da seleção brasileira. A mais humilhante derrota de nossa história. E eu prefiro ter dentro de mim o sentimento de decepção do que de humilhação. Aliás, por mais indiferente que alguns se sintam à essa seleção brasileira e ao futebol como um todo, é impossível não se sentir parte desse atropelamento.

O Brasil de 2014 é agora o nosso grande fantasma a ser superado. O nosso novo trauma. A nossa nova vergonha, e com dimensões que em 1950 eram inimagináveis. Afinal de contas, em 1950 não existia a transmissão de TV via satélite, a internet, o Twitter, o Facebook, o Instagram… em 1950, a “vergonha” foi doméstica. Hoje, toda e qualquer humilhação é transmitida para o mundo todo. E o mundo todo falou disso.

Aliás, que a derrota do Brasil de 2014 deixe uma grande lição para o “torcedor brasileiro”. Sim, coloco a expressão entre aspas porque não considero nem gente aquele cara que chega nas redes sociais e prega a pena de morte para um zagueiro do time adversário que tira o craque do Brasil em uma jogada desleal, ou que ameaçam estuprar a filha pequena desse mesmo zagueiro em uma foto no Instagram.

Esse “valentão do sofá”. O tipo de brasileiro que fode com o Brasil.

Que a derrota do Brasil de 2014 consiga “baixar a bola” desse tipo de brasileiro. Um brasileiro que não sabe perder, e muito menos ganhar na vida. Um brasileiro que é arrogante, prepotente, se acha o melhor do mundo, e acha que tem que ganhar a todo custo. Ou vencer de qualquer jeito.

Esse “torcedor brasileiro” é o que mais deve sofrer com essa derrota. Enta na conta dos humilhados de sua própria falta de discernimento, de inteligência. É praticamente um filho travestido do José Maria Marin (presidente da CBF), o “filhote da ditadura militar”, que jamais jogou futebol na vida.

Amigos… temos um novo trauma. Temos um “Mineiraço”. Será que vamos mudar tudo de novo? E não… aposentar a camisa amarela não vai resolver nada dessa vez.

 

P.S.: O título desse post é uma metáfora. O meu avô faleceu há 11 anos, e ele não perdoou Barbosa até a morte.

P.S.2: Barbosa faleceu em 2002, sem ser perdoado pelo povo brasileiro. Esquecido, injustiçado. Quem sabe agora a sua alma pode descansar em paz.