Eu sou negro. Sempre fui negro. Mas antes de ser negro, eu sou um ser humano racional. Sou um ser vivo, pensante, produtivo. Alguém que tenta raciocinar sobre todos os aspectos da minha vida. Alguém que segue as regras (ou procura seguir, na maioria dos casos). Alguém que aprendeu, com o passar dos anos, que o que realmente importa nessa vida é ser uma pessoa de bem. Alguém “do bem”. Entendi que isso deveria ser uma norma básica para qualquer pessoa. Isso tudo se chama “ter consciência”.

Acho confuso e até desnecessário o “Dia da Consciência Negra” com o contexto que é dado hoje. Acho uma babaquice sem tamanho ficar pensando nos aspectos negativos da presença do negro em nossa cultura, dando um tom quase depreciativo à causa, e para os dois lados. Afinal, estamos em 2012, o tempo da escravidão já passou, e não vejo mais o negro como “vítima social e cultural da discriminação do branco do passado”. Prefiro pensar que todo brasileiro, independente de sua raça, cor, credo ou time de futebol, é vítima de pelo menos dois males comuns, maiores e mais imediatos: a corrupção e a impunidade. Mas isso é assunto para outra oportunidade.

O negro é discriminado no Brasil? É sim! Não venha me dizer que não. Quando criança, as principais piadas sem graça que fizeram comigo foram por causa da cor da minha pele. Mas com o passar dos anos, eu fui percebendo que isso ia diminuindo conforme eu mostrava a minha capacidade de realizar algo que os outros não eram capazes de fazer. Isso se mostra até hoje (ou você pensa que não sou chamado de “negro de merda” ou “preto imundo” em comentários de anônimos no TargetHD toda vez que falo mal da Apple?). Mas.. quer saber? O que realmente importa é que hoje eu sou muito mais visto pela minha capacidade de realização, e pela qualidade do trabalho que faço do que pela minha cor da pele. E tenho muito orgulho disso.

Eu sei. É uma merda você ser diminuído por alguém por causa de algo tão insignificante. Mas o mais importante é compreender que a melhor consciência que podemos ter no dia de hoje é a “consciência tranquila”. Brancos, negros, índios, mulatos, asiáticos, mamelucos, corinthianos… todos nós temos que cultivar ao longo de nossa vida valores e habilidades que nos tornem realmente relevantes para as pessoas que estão ao nosso redor. Para nossa família, amigos mais próximos… Ser pessoas “do bem”. O Brasil está precisando mais disso do que um dia onde, na prática, não se pensa no tempo do “Brasil escravo”. Aliás, isso é algo que nem posso lembrar, pois não vivi.

Quer valorizar o negro no Brasil? Por que então não vamos comemorar as contribuições que os povos vindos da África adicionaram no Brasil, tornando esse país único no mundo. Assim como os alemães, italianos, japoneses, espanhóis e holandeses fazem, cada um ao seu estilo? Só pra citar um exemplo: os japoneses vieram para o Brasil, e nos primeiros anos foram tratados como escravos de italianos nas fazendas do interior do estado de São Paulo. Vê se eles ficam todos os anos lembrando disso. Existe um “Dia da Consciência Japonesa” no Brasil? Eu acho que não…

Tirar de uma vez esse aspecto do “o negro é sempre discriminado no Brasil”, que faz com que muitos negros que eu conheço sejam as pessoas mais chatas do Universo, ou até mesmo se coloquem naquela posição de “vítima social”, que acho algo patético. E falo isso por conhecimento de causa: hoje é 20 de novembro, e a Associação Cultural Afro Brasileira de Araçatuba só abre suas portas de forma efetiva nesse dia. No resto do ano, fica com suas portas fechadas a maior parte do tempo.

Muito mais do que ter uma “consciência negra”, prefiro ter uma “consciência limpa”. A cor da pele não define ninguém. O que te define é o seu caráter, a sua coragem para pelo menos transformar o seu mundo, e principalmente, ser uma pessoa “do bem”. Não se iluda, amigo leitor: não sou racista contra a minha própria raça. Ser negro é lindo. A música negra é fantástica, somos mais aptos nos esportes, a arte e cultura negra é algo único no mundo, e a pessoa que é hoje o símbolo do combate à impunidade no Brasil é um negro. Logo, tenho motivos de sobra para me orgulhar de ser negro.

Mas, como disse lá em cima: antes de ser negro, eu sou um ser humano. E brasileiro. Logo, estamos todos no mesmo barco.

Aí, Brasil… dá pra pensar no papel do negro no país de forma mais positiva e otimista. Como? Olhar em tudo de positivo que o negro fez e está fazendo para que o Brasil seja um país melhor. E mais: fazemos isso com a ajuda de pessoas de todas as etnias. O Brasil é um país multicultural como nenhum outro no mundo é. O negro não precisa ser tratado de forma diferenciada. É só tratar o negro como um brasileiro como outro qualquer. Não somos melhores ou piores que ninguém. Somos diferentes, exóticos, audaciosos, especiais… assim como todo brasileiro é, por ser brasileiro.

É… o que precisamos mesmo é ter o “Dia da Consciência Brasileira”. Seria algo muito mais útil e objetivo.