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O medo é uma força que não te deixa andar.


Eu fui alguém que teve muito medo ao longo de mais de 30 anos de vida. Eu queria tudo certo e perfeito em minha vida, que tudo funcionasse como um relógio. Eu não poderia falhar. Logo, tudo isso me dava medo. E eu não sabia lidar com isso.

Eu passei anos com crises de identidade e até síndrome de pânico por conta dos meus medos, e por não enfrentá-los da forma correta. Eu tinha medo de magoar meus pais, de decepcionar minha mãe, que tanto queria as coisas com retidão de caráter e perfeição na execução. Na verdade, minha mãe só queria o melhor para mim. Mas nesse melhor, ela queria a perfeição. E eu tinha medo de não ser perfeito.

Tinha muito medo de fracassar. Medo de desistir. Medo de perder. Eu não media esforços para vencer, por medo do que iriam pensar de mim se eu fracassasse. Acho que esses medos até foram positivos, pois me ensinaram o valor de um trabalho duro e da persistência. Porém, esse mesmo medo me limitou por diversas vezes a alcançar o lugar mais alto do pódio.

Tinha medo de ser rotulado, criticado e julgado. Até hoje não sei lidar direito com as críticas (principalmente de gente que não tem moral alguma para fazer isso), mas antes eu tinha medo de ouvir as criticas, medo do “o que a pessoa vai pensar de mim se eu fizer isso?”. Na verdade, eu tinha medo de olhar para mim mesmo nesses momentos, de não reconhecer em mim os meus problemas, de buscar soluções para eles. Eu basicamente tinha medo, de novo, de ver que não era perfeito, em um mundo que, em alguns casos, me cobrava a perfeição, mesmo não sendo um mundo perfeito.

Eu tinha medo de magoar pessoas, de decepcionar. Tinha medo de perder amizades que considerava ser para a vida toda, mas que só ficaram no tempo necessário que tinham que ficar. Tinha medo de fazer as pessoas chorar pelos meus erros e defeitos. Tinha medo de magoar. Tinha medo de me magoar pelas traições alheias. Tinha medo de trair, sem olhar para trás.

Tinha medo de chorar junto quando estava fazendo alguém chorar por algo muito ruim que eu tivesse feito.

Eu tinha medo de quebrar o braço ao andar de bicicleta, medo de cair da escada, medo de me cortar enquanto cozinhava. Eu tinha medo da dor. De sentir dor, sofrer de dor por algo que alguém fez, de causar a dor em alguém. Tinha medo de cair, por isso, evitava correr. Tinha medo da gripe, por isso eu não tomava chuva. Tinha medo das queimaduras de pele, por isso eu não tomava sol.

Eu tinha medo da morte, por isso, eu não aproveitava o melhor da vida.

Eu tinha medo. Tinha. Não tenho mais.

Eu não me permito mais a sentir medo por coisas que não mais preciso temer. A cada momento difícil da minha vida, eu respiro fundo duas ou três vezes, e vou em frente. Com coragem, esperança e vontade. Nada e ninguém pode me derrubar nesse momento da minha vida.

Eu não tenho mais medo de dizer “NÃO” sempre que for preciso. Não quero mais viver agradando a todos, por medo de ser rejeitado. Hoje, digo NÃO para dizer SIM  para mim, pois eu sou a pessoa mais importante da minha vida.

Não temo mais a solidão. Foi ela quem me ensinou que, nessa vida, eu posso contar comigo mesmo. E quem quiser se aproximar vai fazer por quem eu sou, e não pelo o que posso oferecer.

Eu não tenho mais medo de dizer as verdades que defendo e acredito. Não tenho mais medo da reação alheia, pois descobri que tem muita gente que tem medo das minhas reações quando cometem atos insensatos comigo. Logo, isso faz parte da vida. Da mesma forma que não tenho medo de perder amigos. Acho que meus verdadeiros amigos eu conheci na infância e adolescência, e com esses eu ficarei até o fim da vida.

Os amigos que agora chegar vão gostar de mim do jeito que eu sou, e eu estou bem consciente disso.

Eu não tenho mais medo de sentir dor, pois compreendo que o corpo humano é frágil. E que a dor é o primeiro sintoma do processo de cura. Não tenho mais medo de rir ou chorar, de amar ou de sentir ódio. Não tenho mais medo de afagar um rosto ou dar um tapa na cara. Não tenho medo de dizer “eu te amo” ou “vai tomar no meio do olho do seu c*”.

As pessoas certas terão as respostas certas. Pode ter certeza disso.

Eu perdi o medo de errar. Eu entendo que só erra quem tenta, e só aprende quem erra. Todos nesse mundo erram ou vão errar de tempos em tempos. O que iria me diferenciar dos demais é o fato que a borracha precisa gastar menos que o lápis. Eu perdi o medo de cometer erros e magoar pessoas, pois entendi que todo mundo é passível de erros. Qualquer pessoa pode me decepcionar. Logo, não sou eu que vou fazer diferente: muito provavelmente eu vou magoar muita gente com algumas das minhas decisões, posturas, opiniões e atitudes. Mas, se acontecer, quero me certificar que o farei priorizando o meu bem estar, e não o prejuízo alheio.

Eu não tenho mais medo. Sinto sim frio na barriga de tempos em tempos. Mas essa é a adrenalina que me motiva a seguir em frente. Sempre em frente.

O medo me impedia de andar. Me impedia de viver.

O medo me impedia de ser feliz. E hoje eu sou feliz. Muito.

E, se você está com medo, o meu conselho é: não sinta medo. Enfrente. Encare. Seja lá o que for. No final, você verá como foi melhor derrotar o medo do que deixar ele te dominar.

Na verdade, eu deveria era agradecer ao medo. Aprendi muita coisa com ele.

Mas estou muito ocupado. Na verdade, fiquei surdo.

Eu agora só ouço a voz que vem do fundo do meu coração.


“Miedo”
(Lenine, Pedro Guerra)
Lenine (com Julieta Venegas), 2006


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