
Os golpes envolvendo cartões-presente se tornaram uma forma comum de fraude digital nos últimos anos, especialmente quando voltados a públicos vulneráveis como idosos.
Aparentemente inofensivos, esses cartões são utilizados por criminosos para extorquir dinheiro de vítimas que, muitas vezes, não compreendem totalmente os riscos das transações que estão realizando.
E é um grupo etário que, na grande maioria dos casos, não entende muito bem como esses cartões funcionam, o que os tornam naturalmente mais vulneráveis aos golpes.
O caso recente de uma mulher idosa na Polônia chamou a atenção de forma particular. Ela gastou mais de 2 mil euros em poucos dias comprando cartões Steam em um supermercado, algo completamente anormal para uma pessoa na idade dela.
A situação intrigou um dos funcionários da loja, que decidiu compartilhar sua experiência na internet, obtendo uma confirmação preocupante: provavelmente se tratava de uma sofisticada tentativa de golpe.
Neste artigo, vou abordar os cinco principais aspectos que denunciou ao funcionário que algo de muito errado estava acontecendo.
O comportamento incomum observado no supermercado
O caso teve início quando um funcionário de um supermercado polonês percebeu que uma senhora idosa voltava com frequência para comprar grandes quantidades de crédito Steam. Em dois dias, a mulher gastou cerca de €2.000, um valor considerado extremamente elevado para usuários comuns da plataforma de jogos.
A não ser que ela fosse uma vovó gamer (e já vimos isso antes na internet), ou que o seu neto estivesse pedindo para ela comprar tantos cartões de uma única vez por falta de tempo (porque está jogando), o investimento por parte daquela senhora não se justificava.
O atendente relatou no Reddit que a idosa parecia agir sob orientação externa, o que aumentou sua preocupação. Segundo ele, a mulher afirmou que “estava apenas comprando os cartões para outras pessoas que lhe davam o dinheiro”.
A justificativa soou estranha, especialmente considerando que a usuária média do Steam tem entre 20 e 40 anos.
Sem treinamentos adequados para lidar com fraudes, os funcionários da loja se viram de mãos atadas. Por medo de retaliação, não chamaram a polícia.
A cadeia de supermercados não oferece formação para identificar golpes, o que deixa vários profissionais desprotegidos diante de situações como essa.
O uso indevido dos cartões-presente Steam
Antes de continuar, é importante colocar um detalhe em perspectiva.
Muitas pessoas já sabem disso – mas entendo que a audiência é rotativa, e outros tantos mais leigos vão ler este artigo -, mas os cartões Steam contam com uma função específica (e aqui, estou dizendo o óbvio), que é servir como crédito para compras dentro da plataforma de jogos da Valve.
Mas alguns criminosos se aproveitam da praticidade e da dificuldade de rastreamento desses cartões para aplicar golpes diversos, inclusive se valendo da engenharia social para alcançar os objetivos financeiros.
Conforme explica a própria Valve em sua página oficial, é comum que estelionatários finjam estar pagando vítimas em troca desses códigos. Muitas vezes, o valor pago pelos golpistas é falso, ou é emitido a partir de cartões de crédito roubados, deixando a vítima no prejuízo.
Além disso, uma vez que o código do cartão é raspado e informado ao golpista, não há como reverter a transação. O valor é automaticamente consumido ou transferido para contas difíceis de rastrear.
Essa característica torna os cartões-presente um instrumento eficaz e preferido por golpistas.
O que me chama a atenção é que a prática é conhecida, e a Valve aparentemente não se esforça para resolver a questão nos aspectos técnicos e burocráticos.
Os golpes existem, os usuários são prejudicados… e tudo continua acontecendo como se nada estivesse acontecendo.
Para mim, é um comportamento estranho por parte da Valve. Mas… vamos em frente nessa história.
Golpe do suporte técnico: um esquema conhecido
Entre as várias modalidades de fraude envolvendo cartões-presente, o chamado “golpe do suporte técnico” é um dos mais frequentes.
Nele, os criminosos entram em contato com a vítima fingindo ser representantes de empresas conhecidas, como Microsoft ou Google, afirmando que o computador da pessoa está infectado.
A partir desse contato, convencem a vítima a fornecer acesso remoto ao computador. Em seguida, apresentam erros falsos e sugerem que o problema pode ser resolvido mediante pagamento de taxas por suporte. E as taxas devem ser pagas, claro, com cartões-presente.
Como a maioria das vítimas é formada por idosos sem familiaridade com tecnologia, a história parece plausível. A urgência da falsa ameaça acaba pressionando a pessoa a agir rapidamente, sem consultar familiares ou buscar ajuda.
Com tudo isso, fica muito fácil ludibriar nossos idosos. É quase como se eles não tivessem qualquer tipo de chance ou oportunidade de se salvar de tais golpes.
Falta de preparo no varejo para lidar com golpes
Um dos elementos mais preocupantes do caso foi a constatação de que os funcionários da loja não tinham qualquer preparo para lidar com situações semelhantes. O próprio atendente relatou que foi orientado apenas a vender os cartões, sem instruções sobre como identificar comportamentos suspeitos.
Em outros países, como a Alemanha, já existem iniciativas que treinam balconistas para identificar possíveis tentativas de fraude, especialmente envolvendo cartões pré-pagos. Nessas regiões, há limites de valor para venda e bloqueios automáticos em transações repetidas.
A ausência desse tipo de prevenção em redes de varejo em muitos países, inclusive no Brasil, favorece a atuação de criminosos. A formação de atendentes e o estabelecimento de protocolos de segurança podem ser decisivos para reduzir a incidência de casos como o relatado.
De fato, não há um treinamento específico para os funcionários de grandes varejistas em lidar com comportamentos de compras que fogem dos padrões. Até porque os funcionários jamais seriam orientados a impedir uma venda dentro de um estabelecimento.
Afinal de contas, gerentes e donos de supermercados e atacadistas querem o lucro, e nada mais.
Observe que esse tipo de golpe dificilmente acontece nos e-commerces, pois a grande maioria já conta com sistemas de detecção dessas compras que são consideradas como anormais ou fora dos padrões da grande maioria dos clientes.
No comércio eletrônico, é mais fácil mitigar esses golpes. Sem falar que a eficiência do crime está justamente na manipulação de engenharia social combinada com a compra dos itens em lojas físicas.
Ou seja, é preciso toda uma reeducação de várias partes envolvidas, para que uma nova cultura de compras se estabeleça. Dessa forma, a mitigação dos golpes acontece de forma gradativa.
A vulnerabilidade dos idosos frente ao estelionato digital
A parcela da população mais afetada por esse tipo de golpe é composta por idosos. Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisa NASK, na Polônia, mais de 3.500 pessoas com mais de 65 anos foram vítimas de golpes telefônicos em 2022.
Esse grupo tende a confiar em contatos que aparentam autoridade e, muitas vezes, não compreende totalmente os mecanismos digitais envolvidos nas fraudes. O receio de ter cometido algum erro ou a vergonha de pedir ajuda a familiares também contribui para a perpetuação desses crimes.
Campanhas de conscientização, tanto em ambientes familiares quanto em instituições de ensino e saúde, podem ajudar a combater esse problema. Iniciativas comunitárias, como grupos de apoio e educação digital, também desempenham papel essencial na prevenção de fraudes contra a terceira idade.
E se você perceber que o idoso que está perto de você está com um comportamento estranho e, em paralelo à isso, as dificuldades financeiras aumentam, não hesite em abordá-lo de forma direta, porém gentil.
Procure por mais informações sobre a quantas andam as finanças dele e, se possível, investigue as mudanças de comportamento. Ele pode ser vítima de algum tipo de golpe que ele não está sabendo lidar ou gerenciar.
É o tipo de golpe que pode acontecer com qualquer um, a qualquer momento.

