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Será que essa regra vai valer um dia para os arquivos em MP3 salvos no smartphone? Se sim, então estou basicamente escrevendo um post para mim mesmo no futuro. Ou então estou apenas sendo saudosista e nada mais.

Se bem que a volta do consumo das fitas cassete não tem nada de saudosismo para o mercado de música. Graças às crianças dos anos 80 que viraram adultos em 2020 buscando ouvir músicas em um Walkman (algo que jamais conseguiram fazer com a mesada dos pais) e o fenômeno produzido pelo filme Os Guardiões da Galáxia (que convenceu as novas gerações que usar um Walkman é coisa de gente maneira e descolada), as vendas de fitas cassete decolaram, e o consumo desse formato superou o CD, que cada vez mais cai no esquecimento.

O que aconteceu aqui?

 

 

 

Consumo de música pessoal e intransferível

 

 

Sobram motivos para defender a fita cassete em 2020.

Tá, os millennials dificilmente vão saber como é a experiência de ficar esperando uma música tocar no rádio para gravar, esperando os segundos finais para dar o pause na hora certa para evitar a vinheta de gravação cortando a música, voltar e retirar a tal vinheta que acabou gravando, emendar uma música na outra para ter uma mixtape, gravar fitas com canções românticas para seduzir a menina que você queria pegar…

Tantas conexões afetivas que as fitas cassete trouxeram…

Sem falar que, com o advento do Walkman (doravante conhecido como “o avô do iPod” – depois substituído pelo Discman), a música estava se tornando algo pessoal e intransferível. Você podia ouvir as suas músicas preferidas em qualquer lugar, sem atrapalhar a galera dentro do ônibus, e garantindo de forma precoce aquela surdez gostosa que você preserva até hoje.

Há quem diga que a qualidade de áudio da fita cassete, assim como acontece com o vinil, é algo singular, mesmo que com uma qualidade inferior a dos CDs e MP3. Aqui é uma questão de gosto e não técnica: ou você gosta do áudio que recebe ou vai ser modinha e assinar uma conta no Tidal.

 

 

 

É uma experiência afetiva, e isso está acima da qualidade

 

 

É importante deixar claro que ouvir músicas em fitas cassete em 2020 não é apenas uma experiência sonora. Não podemos nos limitar a olhar apenas para as questões técnicas envolvidas nesse tipo de consumo musical. É uma experiência afetiva, e isso precisa ser respeitado em qualquer tipo de mídia.

Entendo que é o mesmo efeito que assistir a um filme em VHS com uma TV de tubo. É basicamente uma viagem ao passado. Recentemente, a última unidade da Blockbuster em funcionamento nos Estados Unidos decidiu realizar uma experiência desse tipo, fechando a loja e colocando todo o seu acervo de fitas VHS para que uma família passasse uma noite assistindo filmes, com a tal TV de tubo e tudo.

E eu faria qualquer coisa para viver essa experiência.

Portanto, não estamos aqui para discutir a qualidade de som de um formato de mídia do passado. O que importa é o ouvir a música com aquele chiado característico, um certo abafamento talvez, quem sabe uma distorção típica de uma fita mastigada, fechar os olhos e recordar o tempo onde não tinha o Spotify ou o compartilhamento de músicas para retirar a mágica da espera pela canção tão desejada tocando nas rádios.

Quem sabe a gente acabe sentindo a mesma coisa com as músicas em MP3 que estamos armazenando nos smartphones e HDs externos. Quem sabe vamos olhar para o nosso iPod com saudosismo, nos lembrando em como era bom andar pelas ruas com ar descolado e com mais de 30 mil músicas ao nosso dispor.

Pois pode ter certeza de uma coisa: com o Walkman, a gente se sentia desse jeito.


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