Compartilhe

É claro que eu estou triste. Só machista atrasado não está. A eliminação dói, ainda mais quando é, de novo, para a França. Por que sempre a França? Por que sempre com um gol de bola cruzada na área? Por que o sobrenome Henry no nosso caminho?

Eu acompanho a seleção brasileira feminina de futebol desde 1996, pelo menos. Confesso que não tão de perto, porque a mídia entende que esse time não é midiático, ou que o futebol feminino não dá audiência. Tal entendimento, além de machismo institucionalizado, é de uma burrice sem tamanho.

Mas eu não quero cair no óbvio nesse artigo. Eu não quero ficar me repetindo com as reclamações sobre falta de investimento, de estrutura, de um campeonato nacional decente, de cobertura dos canais esportivos e da mídia, e de tudo o que vocês já sabem. Eu quero falar… que eu estou triste.

Essas mulheres lutaram contra tudo e contra todos. Derrotas consecutivas durante a preparação, jogadoras contundidas, um pré-mundial complicado, as contusões durante o torneio, enfrentar o time da casa com a torcida contra… eu mal consigo imaginar a dor que elas estão sentindo.

Porém, contrariando prognósticos mais pessimistas, elas conseguiram levar um jogo difícil, contra uma França que tem como base o time do Lyon (cinco vezes campeão europeu nos últimos cinco anos) e uma das favoritas ao título do torneio.

Para mim, essas mulheres venceram. E em vários aspectos.

É claro que eu estou triste. Não mais do que elas.

Marta, Debinha, Formiga, Cristiane, Bárbara e tantas outras corajosas mulheres. Muitas delas marginalizadas por não encontrarem oportunidades para alcançar uma condição profissional digna. Muitas delas marginalizadas por coisas que não podem mudar nelas mesmas. Superaram a indiferença do grande público, o machismo institucionalizado, o racismo, a homofobia… superaram a elas mesmas.

Até mesmo Marta, seis vezes a melhor do mundo, maior artilheira da história das Copas do Mundo, é questionada por ignorantes. Mesmo sendo considerada uma das melhores PESSOAS da história a exercer o esporte chamado futebol, é obrigada a superar desafios mais indigestos do que zagueiras adversárias.

Eu estou triste, porque o potencial da mulher brasileira para o futebol é enorme, mas por causa da ignorância do coletivo, ficamos na promessa há pelo menos 23 anos. Nossa “síndrome de vira-lata” resulta no ato irracional do coletivo diminuir Marta e enaltecer Neymar (que, convenhamos: está BEM ABAIXO da Marta, em todos os sentidos).

Mas… o que vai me deixar feliz amanhã diante de tudo isso?

O fato de, ao acordar amanhã, eu vou me lembrar do ótimo mundial que essas mulheres fizeram na França, e pensar que, pelo menos por uma tarde, eu voltei a torcer de verdade pela Seleção Brasileira de Futebol. Que essas mulheres entregaram a raça, vontade e entrega que eu espero de muitos marmanjos com heterossexualidade tão sólida quanto um vaso de cristal não conseguem apresentar. Que a tristeza da eliminação de hoje é muito melhor do que a revolta do 7 a 1.

Aplaudo as mulheres da seleção brasileira feminina de pé. Uma eliminação heroica para um grupo que teve que superar tantos obstáculos. Alguns deles históricos.


Compartilhe