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Pelo menos uma vez por semana, eu me dou ao direito de almoçar fora com Lourdes Pessini. Eu já falei algumas vezes sobre ela nesse blog, mas nunca é demais reforçar o quanto que essa maestrina com os seus 70 e poucos anos é importante na minha vida, e o quanto eu acho ela o máximo.

Esse almoço semanal não precisa ter data para acontecer, e nem mesmo horário. A única coisa certa desse compromisso é que ele acontece pelo menos uma vez por semana, e tem como único objetivo a manutenção de uma amizade que já está chegando ao quinto ano de existência. No meio de tantos altos e baixo da vida (e das nossas vidas), manter um elo com essa força é algo raro nos dias de hoje. É uma preciosidade que eu quero guardar por muito tempo.

Normalmente, o convite para o almoço parte dela. Eu sei que ela gosta da minha companhia, mas eu não posso me fazer presente o tempo todo. A minha vida é muito mais corrida, com uma agenda bem mais apertada. Agora é que eu estou separando um tempo para fazer o que quero aqui em Florianópolis, e uma dessas atividades é o almoço semanal.

Pois bem. Nessa semana, eu inverti um pouco os papéis. Dessa vez, eu fiz o convite.

Eu fiz questão de estar com Lourdes Pessini nessa semana. Não porque ficamos longe um do outro quase duas semanas (algo incomum para pessoas que se encontram pelo menos uma vez por semana nos últimos 18 meses), o que automaticamente resulta em um sentimento de saudades pelas duas partes. Mas porque, dessa vez, eu sei que a minha amiga estava precisando desse encontro.

Na semana passada, em uma mesma quarta-feira, a minha amiga Lourdes Pessini perdia o seu sobrinho Leo, que foi derrotado pelo câncer. A Lourdes naturalmente é apegada a todas as pessoas que ela ama, mas para esse sobrinho era quase uma devoção. Ela estava cuidando da irmã no interior do estado de Santa Catarina, e eu estava cuidando dos meus pais no interior de São Paulo. Essa similaridade só foi quebrada porque, pontualmente, naquela quarta-feira, eu me desloquei para São Paulo, para cumprir um compromisso de trabalho.

Posso dizer que tive a sorte em virar a chave para trabalhar. Porque, dessa vez, eu senti a dor de Lourdes Pessini. Quase que literalmente.

Eu não sei se isso aconteceu porque eu já estava em um clima meio pesado na casa dos meus pais, diante das dificuldades de saúde que a minha mãe e a minha tia estão vivendo. Não sei se eu estava sentindo uma dor que precisava ser compartilhada. Ou porque eu encontrei um motivo claro para deixar a minha dor de lado e ser solidário com alguém. Mas eu senti a tristeza de uma amiga que perdeu um sobrinho que, para ela, era bem mais que isso. A Lourdes, que é passional por natureza, sentiu uma tristeza profunda, como em poucas vezes eu pude testemunhar nela.

E a distância nesse caso não ajudou muito.

Esperei pacientemente até o dia de ontem (30), para poder fazer o convite para o almoço. E fiz esse convite com a maior convicção do mundo. Porque, naquele momento, eu não queria dividir a minha dor com ela, mas sim absorver um pouco da dor dela, por entender que era uma dor maior que a minha.

Poder dar um abraço em Lourdes foi a melhor parte de um almoço que ainda iria acontecer. Ela tem um dos abraços mais fraternos que eu encontrei em um ser humano, e transmitir parte desse sentimento para alguém era apenas uma pequena ajuda de um processo de luto que ela ainda terá que passar. Mas eu tenho certeza que ela vai passar por isso de forma plenamente satisfatória.

Lourdes Pessini é mais forte e corajosa do que muita gente que eu conheço por aí. Muito mais forte do que eu, obviamente. Mas eu sei o quanto que ela está “destroçada por dentro” (palavras dela) com essa perda.

Lourdes… eu vou repetir o que você me diz sempre: eu estou aqui! Conte sempre comigo, aconteça o que acontecer. Você sempre terá o meu abraço sincero, o meu carinho e a minha solidariedade incondicional. Você, que por tantas vezes ofereceu a sua mão para a me ajudar e o seu ombro para chorar, conte comigo para que eu possa fazer o mesmo por você.

E obrigado, Lourdes Pessini. Não apenas por você estar no meu caminho, mas por ser uma ferramenta onde eu posso oferecer para alguém a gratidão, a retribuição e a amizade de forma plena. Por tudo o que você fez por mim nos últimos anos, o meu gesto de hoje é quase nada.

Ah, sobre o almoço?

Foi bom. Muito bom. Comemos bem e pagamos pouco (como sempre), nos divertimos com a curiosidade alheia, falamos bem e mal de algumas pessoas, demos algumas risadas, e terminamos com sorvete (algo que eu estou tentando evitar, pois os corais estão voltando).

Seria um almoço normal, como outro qualquer. Mas, para mim, foi especial. Pelo menos eu sei que ajudei a aliviar um pouco o peso do coração de alguém que tem muito mais amor no coração do que as mazelas e tristezas que os inevitáveis eventos da vida podem oferecer.

Um almoço regado com amizade e carinho faz bem até para a digestão. Os resultados estão mais que comprovados.


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