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Naomi Osaka materializa os recados do Japão ao mundo nos Jogos Olímpicos Tóquio 2020

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A tenista Naomi Osaka foi a responsável por acender a pira olímpica em Tóquio e, dessa forma, estão iniciados os Jogos Olímpicos 2020 (em 2021). E ela materializa o recado claro que o Japão quer deixar ao mundo após a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos.

Naomi é a tenista que está na segunda posição do ranking mundial, e é uma sumidade como atleta, com uma performance altíssima. É a principal esperança de medalha de ouro para o Japão. E, de quebra é filha de japonesa com um haitiano.

Logo, ela é oficialmente negra, já que não existe essa coisa de raça intermediária. O pejorativo termo mulato foi inventado pelo racismo estrutural brasileiro, e não existe em nenhum outro lugar do mundo.

Naomi Osaka. Mulher, negra, filha de imigrante/refugiado. Um símbolo máximo de diversidade acendeu a pira olímpica hoje.

O Japão quer mostrar ao mundo que está se esforçando ao máximo para mudar conceitos, filosofias e visões de mundo. Não deixa de lado o que há de mais rico nas suas tradições milenares, mas mostrou ao mundo que está aos poucos abandonando os conceitos claramente errados que aprendeu com aqueles que pouco pensavam em diversidade e aceitação.

Um sinal claro do que estou falando está no minimalismo de sua proposta visual para essa cerimônia de abertura. O país mais tecnológico do mundo apostou em elementos modulares, manipulados por mãos humanas.

Poucas pessoas no palco principal. Um minimalismo que se alinha à tradição cultural japonesa.

Tudo foi apresentado com elegância estética e intimismo.

Mas o que realmente valeu a pena nessa cerimônia de abertura foi aquilo que o meu coração pode sentir através daquilo que não era visível. Palavras e sons ilustram melhor a mensagem que os japoneses enviaram ao mundo hoje.

O minimalismo da proposta estética se alinha com os sentimentos de humildade, gratidão e união manifestos pelas falas e sons do evento. Uma trilha sonora que pontualmente combinou os sons do tradicional teatro japonês kabuki com as trilhas sonoras de videogames durante o desfile dos atletas. Por outro lado, não abriu mão de reconhecer a grandiosidade da cultura ocidental, transformando o trecho final em algo épico ao som de Bolero de Ravel.

E, se você não conseguiu entender os códigos visuais e musicais, com certeza compreendeu os discursos apresentados.

Um novo lema olímpico:

 

 

 

“Mais Rápido, Mais Alto, Mais Forte – Juntos”.

 

 

Uma simples palavra tem um peso enorme no conceito de um lema olímpico que se modifica em um momento onde ainda estamos separados por causa de uma pandemia global. Porém, juntos no desejo de voltar a nos abraçar e conviver com o outro, apesar de todas as dificuldades.

E essa mudança veio do Japão, um país que historicamente viveu isolado do mundo nos aspectos geográficos e culturais, mas que diante da derrota na Segunda Guerra Mundial, decidiu abrir fronteiras para conhecer e aprender com o outro durante o seu processo de reconstrução como nação.

Toda grande nação se faz de indivíduos de diferentes origens, histórias e visões de mundo. O diferente sempre agrega alguma coisa valiosa, que naturalmente se converte em algo ainda melhor do que aquilo que antes acreditávamos ser perfeito.

Na verdade, ainda estamos aprendendo que, na realidade, a perfeição está nas diferenças, nos detalhes. Juntos, os diferentes se completam.

O Japão também quis deixar bem claro para o mundo que está mais inclusivo nos mais diversos aspectos. Existe um esforço gigantesco por parte dos japoneses em reconhecer (finalmente) o lugar de direito das mulheres na sociedade.

E a melhor forma de dar o exemplo disso é fazendo a lição de casa: o antigo chefe do comitê organizador dos Jogos Olímpicos foi removido do posto depois de comentários sexistas, e foi substituído por uma mulher, medalhista olímpica, que jamais teve o reconhecimento devido no seu país por suas conquistas.

Executar “Imagine” de John Lennon foi também uma forma do Japão realizar uma reparação histórica com Yoko Ono, que nunca foi bem vista pelos próprios japoneses que sempre a consideravam alguém com uma visão muito ocidentalizada.

Por outro lado, nem o próprio ex-integrante dos Beatles fez justiça para sua companheira, pois só reconheceu a co-autoria de Yoko na canção pop mais executada de todos os tempos um pouco antes de ser assassinado em Nova York. Por isso, apenas em 2017 ela foi oficialmente creditada como compositora da canção.

Por tudo isso, não por um acaso, foi uma mulher – Naomi Osaka – quem acendeu a pira olímpica hoje.

O Japão também quis mostrar que está se tornando mais aberto ao diferente, abandonando de vez o orgulho de ser um povo de raça pura.

Para não dizer que só estou falando da Naomi, o que dizer de Rui Hashimura, mais um japonês negro, que foi o porta-bandeira do desfile do Japão hoje. Ele já está na história do esporte do pais: o atleta do time da NBA Washington Wizards é o líder do time de basquete masculino do país asiático, em sua primeira participação olímpica em 45 anos.

Se isso não é miscigenação e abertura para o diferente, eu não sei mais o que é.

A fala objetiva para os refugiados praticamente transformou este grupo de atletas em um sexto continente representado nos Jogos Olímpicos. E até acredito que essa mudança aconteça no futuro.

Povo refugiados sempre agregaram positivamente ao coletivo, oferecendo os seus códigos culturais para nações que precisavam aprender com o diferente para olhar para novos caminhos. É o que o Japão está se esforçando em fazer, sem abrir mão de suas tradições.

É um desafio gigantesco. Com certeza muitos japoneses torceram o nariz para Naomi Osaka acendendo a pira olímpica hoje. Mas toda mudança precisa ter um exemplo que é alçado para o ponto máximo de destaque. Aqueles que são excluídos por serem diferentes precisam de um exemplo para começarem a acreditar que o futuro será mais promissor.

E aqui está mais um motivo para Naomi Osaka acender a pira olímpica hoje.

Eu poderia falar por horas de todos os recados que o Japão tentou passar na cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos. Representatividade, igualdade, inclusão, respeito ao diferente, humildade, fé no futuro, harmonia, unidade de coletivo…

Mas o recado final veio dos cabeças da coisa.

O COI modificou o juramento olímpico para colocar os diferentes dentro de uma mesma visão harmônica, com o objetivo de promover o respeito e a igualdade de gênero, raça, condição sexual, religião, posicionamento político e outros aspectos que normalmente dividem os povos ao redor do mundo.

 

“O trabalho colaborativo está produzindo resultados mais rápidos e melhores do que se cada um trabalhasse sozinho e se protegesse do progresso do outro (…) Este é um marco no nosso desenvolvimento e envia um sinal claro. Queremos colocar um foco especial na solidariedade.”

 

 

Basicamente, a principal lição que a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 (em 2021) deixa para todos nós é que, diante da maior tragédia global do nosso tempo, onde todos nós caímos diante de um vírus mortal, o que mais importa agora é a nossa reinvenção coletiva, a partir da reformulação individual.

Precisamos reconhecer que crescemos e fomos criados por um código moral e ético arcaico, que implementou o preconceito como uma visão de mundo válida quando jamais deveria ser, subjugando as mulheres à humilhante posição de procriadora da espécie, desrespeitando de forma violenta visões políticas e religiosas divergentes, e estabelecendo a política do “vencer a todo custo” no lugar do “vamos vencer juntos”.

Chegou a hora de abandonar tais visões de mundo que não promovem o progresso individual e coletivo, e admitir que crescemos em uma sociedade cheia de problemas gerados por “valores” que hoje são questionáveis. O mundo mudou, e essa mudança não tem mais volta. E precisamos mudar ainda mais, todos os dias, para sermos melhores.

A Olimpíada em meio à uma pandemia tem como principal objetivo promover uma maior unidade de grupo, mesmo quando todo mundo precisa ficar a um metro e meio de distância (pelo menos) para que todos fiquem bem. Por outro lado, é fundamental que o diferente seja abraçado como ele realmente é, pois só assim vamos vivenciar o novo.

Será a Olimpíada da japonesa negra, do brasileiro cubano, do alemão nigeriano e dos refugiados que serão abraçados por todos. Será a Olimpíada onde teremos o primeiro jogador assumidamente homossexual defendendo o Brasil no vôlei masculino, assim como vamos aprender a usar termos como “todxs” e “elu”, em nome da inclusão e igualdade de gênero.

Será a Olimpíada onde, com sorte, vamos ver três mulheres brasileiras no pódio do skate, desafiando a lógica que esse sempre foi um “esporte de homem”. Quem sabe vamos chorar juntos de felicidade pela pequena manauara Rayssa Leal: aos 13 anos, ela materializa o sonho, e já tem o seu prêmio de todas as provocações que viveu na vida por querer andar de skate com os meninos no lugar de brincar de boneca com as meninas.

Rayssa preferia ter o skate nos braços do que segurar uma boneca com as mãos. Agora, está muito perto de ser uma criança com uma medalha no peito.

Além de torcer pelos atletas brasileiros, eu torço para que possamos aprender com o diferente nas próximas duas semanas. O Japão deu um recado claro ao mundo, e qualquer pessoa com o mínimo de sensibilidade entendeu tudo o que foi dito. E se alguém não entendeu nada depois de mais de três horas de cerimônia, ainda tem a Naomi Osaka acendendo a pira olímpica.

Naomi. Eu falei o texto inteiro nela porque é justamente ela a materialização de tudo o que o Japão quis contar hoje.

E com certeza vamos nos lembrar de tudo isso quando testemunharmos essa linda japonesa negra desfilando pelas quadras ao redor do mundo.

Os Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 (em 2021) não poderiam começar de forma melhor.


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