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Estamos em 2019. Não em 1860.

Um jovem negro de 17 anos. Nu. Amordaçado. Chicoteado.

O motivo? Roubou uma barra de chocolate em um supermercado.

Antes de começar: eu não estou “passando pano” para o crime de furto. Mas eu quero falar sobre tortura. Em pleno ano de 2019. E questionar: roubar uma barra de chocolate em um supermercado justifica o crime de tortura?

Eu quero realmente entender a gravidade do crime para uma pena que não apenas envolve a “justiça pelas próprias mãos”, mas a forma vil e covarde em punir alguém.

Cada vez mais eu me convenço que as recentes escolhas feitas pelo brasileiro médio resultaram na queda das máscaras que foram utilizadas por décadas, onde muitos de nós se revelaram verdadeiros monstros nos aspectos morais e éticos e, em casos mais graves, sociopatas em potencial.

Discriminar o diferente não é o suficiente para algumas pessoas. Agora, elas se encontram no “direito institucionalizado” de humilhar, agredir e matar. Estão com o “direito legítimo” de sujar as mãos com o sangue alheio para estabelecer a justiça, em nome “da moral e dos bons costumes do cidadão de bem”. Alguns mais fanáticos alegam que praticam tais atos “em nome de Deus”.

Amém?

 

 

Eu imagino qual deve ser a punição para aqueles que manipulam o sistema financeiro, que contaminam o sistema judiciário, que recebem os salários de seus assessores em cargos públicos, de quem pratica o nepotismo, de quem prega de forma explícita o preconceito e o extermínio das minorias.

Cadeira elétrica? Gás letal? O paredão?

Para os brancos, com mais de 60 anos, engravatados e poderosos, existem os “direitos humanos”. Para um jovem negro de 17 anos, é preciso ser um “humano direito”. Caso contrário, você é despido nos aspectos físicos e morais (porque poucas coisas são tão humilhantes quanto essa situação), ter o seu corpo amordaçado e sua voz silenciada (ele não teve a chance de sequer expressar a sua dor através dos gritos diante de violência sofrida), e receber as chicotadas no corpo e na alma.

Tal e como os seus antepassados tiveram.

Chicotadas que minha alma sente até hoje.

De novo: vão me acusar de “passar pano” para bandido. E, de novo: eu não estou defendendo em nenhuma circunstância que crimes não devem receber punições. Mas defendo as punições adequadas.

Jamais vou aceitar a tortura. É inadmissível que, em pleno 2019, alguém seja tratado da mesma forma que os negros escravos eram punidos na época da escravidão. Em uma sociedade que afirma ser evoluída e civilizada, crimes como esse deveriam gerar revolta. Repulsa. Asco.

Nenhum ser humano merece ser tratado assim. E alguns que mereciam receber esse tipo de punição, por cometerem crimes absurdos contra a população, defendem tal prática.

Para concluir, algumas pessoas que eu conheço estranharam o fato dessa atrocidade não ganhar uma grande repercussão na mídia.

Então, eu pergunto: quem realmente se importa com o negro no Brasil?

Se fosse um jovem branco, filho de pais de classe média alta, que fosse violentamente agredido… a repercussão seria diferente? Tendo a acreditar que sim, pois com certeza alguns vão acusar esse texto de fazer vitimização, ou sugerir que eu adote o rapaz, já que eu estou com tanta pena dele.

Vamos separar as coisas. Será que a punição exemplar para o seu filho ou o seu neto seria a mesma se ele cometesse delito semelhante? Sim, eu estou AFIRMANDO que o seu filho e o seu neto podem fazer a mesma coisa no futuro. Especialmente se você entende que a punição aplicada ao jovem negro é algo “exemplar”.

Entendo que injustiças não escolhem a cor da pele. São as pessoas que praticam as atrocidades que escolhem os seus alvos.

“De forma curiosa” ou não, mais uma vez, o alvo foi um jovem negro, que dessa vez ainda sobrevive. Isso mesmo: ele não vai viver a partir de agora, mas sim, sobreviver.

Outros não tiveram a mesma sorte.

Ate quando?

 

 

P.S.: Deixei o vídeo do crime abaixo, para que o amigo leitor tenha a exata dimensão do que eu estou falando. As imagens são fortes, e não recomendadas para menores e pessoas sensíveis. A responsabilidade pela captação das imagens é do canal do YouTube que originalmente publicou o vídeo.

 


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