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Eu poderia falar de “New York, New York”, canção eternizada por Frank Sinatra. Mas escolhi uma das melhores canções pop da década de 1990 para falar sobre diversidade.

Em 1999, eu estava muito apaixonado pelo fato de poder fazer música através do canto coral. Logo, eu passava os meus dias cantando, ouvindo todos os estilos de música e, é claro, assistindo a MTV, quando ela ainda se chamava Music Television. Naquela época, eu era feliz, e sabia disso: do meu jeito, eu dava continuidade ao DNA musical adotado em casa, onde desde os primeiros anos da minha vida eu ouvia música através dos discos que o meu pai ouvia para a seleção musical da rádio que ele trabalhava.

Por diversas vezes eu disse que a música salvou a minha vida. E essa é uma das mais sinceras verdades que eu posso dizer para você. E em outras tantas oportunidades eu escrevi que o rock salvou o mundo. Aliás, o rock foi uma das ferramentas que ajudaram a salvar a minha existência nesse planeta miserável, apresentando alguns dos meus heróis musicais.

Mas se existe um gênero musical que prevaleceu no mundo e na minha vida foi, sem dúvida, a música pop. O meu grande medo era crescer e envelhecer como um roqueiro decadente, perdendo assim a capacidade de ouvir outros estilos musicais. O pop me livrou desse mal, pois foi o estilo que melhor abraçou outros estilos para prosperar e dominar o cenário da música ao redor do mundo.

E isso, na minha opinião, se chama diversidade.

Quando eu ouvi “New York City Boy” pela primeira vez, eu simplesmente pirei na música. Muito bem produzida, com uma batida envolvente e dançante, arranjos de instrumentos bem feitos e uma letra descritiva, falando da capital do mundo e, ao mesmo tempo, uma das cidades que melhor abraçou a diversidade em todos os aspectos. Nova York não seria nada sem os imigrantes. Fato.

E quantas pessoas chegaram na cidade, olhando para a Estátua da Liberdade e desejando prosperar na terra das oportunidades. Jay-Z bem disse que Nova York é “a cidade das 8 milhões de histórias, onde metade dessas histórias estão despidas”. Mas essa é outra música. É história para outro texto.

Em 1999, eu nem pensava direito na palavra diversidade. Eu só pensava em música, e no fato de “New York City Boy” ser uma música foda. Um hit, como tantos outros que a dupla Pet Shop Boys entregou ao mundo. E sim… eu sabia que a canção não apenas fazia parte do álbum Nightlife, como também era parte da trilha sonora do ótimo filme Studio 54.

E foi apenas assistindo ao filme Studio 54 que eu entendi o real contexto da canção.

“New York City Boy” é uma grande celebração da cultura LGBT na cidade mais cosmopolita do mundo, assim como o Studio 54 era a central de cultura pop para esse e outros segmentos da sociedade. Não era o local mais correto e regrado do mundo, pois álcool, drogas e sexo rolavam com uma certa liberdade naquela casa noturna. Por outro lado, era o local seguro para que todas as tribos celebrassem a diversidade.

O próprio Studio 54 assumiu um papel importante na cultura LGBT do nova-iorquino, ainda mais depois da tragédia do Stonewall Inn em 1969, quando policiais da cidade invadiram o estabelecimento, agredindo e assassinando homossexuais, em nome das “políticas” da época.

Lembre-se, amigo leitor: é preciso conhecer o passado para compreender o presente. E é preciso compreender o real contexto para que alguma coisa (ou alguém) se torne ainda maior diante dos seus olhos.

No caso de “New York City Boy”, saber que esse era um hino para os gays de NYC não fez diferença alguma diante das minhas convicções pessoais. Com 20 anos de idade, eu já estava convicto da minha heterossexualidade. Tão convicto, que no lugar de discriminar quem tinha uma condição diferente da minha, eu agradecia a Deus pela existência dos gays, pois isso significava mais mulheres no mundo para serem conquistadas.

Pode parecer misógina essa teoria. Mas, veja: eu falei CONQUISTAR, e não “pegar mulher”. E é melhor pensar assim do que ser homofóbico.

“New York City Boy” continua a ser uma música foda para os meus ouvidos. Porque qualquer hino que celebra as diferenças e fala em defesa das minorias vai muito além de ser uma simples música. Representa algo maior. E música, para mim, tem a função de ir além do lugar comum. Falo isso não pelo politicamente correto, mas porque eu também sou uma minoria. Ou melhor, faço parte de uma maioria que a sociedade brasileira adora diminuir.

E eu sempre defendi canções que promoviam positivamente a raça negra. Por que não faria isso com uma canção que celebra a felicidade em ser você mesmo na cidade mais cosmopolita do mundo?

Eu escrevo esse texto dançando ao som de “New York City Boy”. Porque é sim uma baita música. Mas escrevo esse texto em uma semana onde testemunhei a homofobia explícita de boa parte da população de Florianópolis por causa da Parada do Orgulho LGBTQ+ que acontece na cidade justamente hoje, 8 de setembro. Também escrevo esse texto na mesma semana em que o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, no alto do seu moralismo hipócrita disfarçado de defesa dos princípios cristãos, tenta censurar uma HQ da Marvel na Bienal do Livro do Rio de Janeiro, chamando de “pornografia” a imagem de dois homens se beijando.

Esse texto não é para ser bonitinho diante da comunidade LGBTQ+. Quem me conhece sabe que eu sou uma pessoa desprovida de preconceitos. Ou quase: eu odeio gente hipócrita. Mas escrevo esse texto porque, apesar de não comparecer na parada de hoje (pelos mesmos motivos que não me motivam a sair de casa para ver o carnaval), eu com certeza vou passar a minha vida dançando ao som de “New York City Boy”, “YMCA”, “Vogue”, “Born This Way” e tantas outras canções que viraram hinos para um grupo de pessoas que, com toda certeza, amam mais e são mais felizes do que muito macho alfa enrustido na “broderagem” cotidiana.

Porque, para mim, música é vida. A música ensina a olhar e conviver com o diferente de forma fraterna e criativa. E porque música boa e pessoas boas merecem ser celebradas.

E minha heterossexualidade vai muito bem. Obrigado por perguntar.

“New York City Boy”
(Neil Tennant, Chris Lowe)
Pet Shop Boys, 1999

 


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