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Apenas o silêncio.


Todo novo texto começa com uma folha em branco, e por mais que eu imagine como começar uma nova história a ser escrita aqui, eu jamais sei como essa história vai terminar.

É sempre um recomeço. Uma nova oportunidade para uma reinvenção. Uma redescoberta em mim, ou mais uma forma de contar mais uma vez quem fui, quem sou, como estou e como pretendo ser.

Ou em muitas vezes eu simplesmente não sei como começar um texto. Como está acontecendo nesse momento.

Eu poderia simplesmente contar como essa música se tornou uma das canções que fazem parte da trilha sonora da minha vida. Mas seria algo bem simples, como “me apaixonei pela primeira vez que eu ouvi”. Ou algo do tipo “a letra era impactante demais, me absorvendo por completo”. O que é verdade: a letra de No Surprises é excelente, mesmo sendo uma canção de protesto.

A letra fala do protesto contra o mundo cotidiano, a necessidade das pessoas em sempre perseguirem seus sonhos, como se isso fosse determinar um sucesso ou fracasso de vida. Na verdade, esta não é uma contradição, mas sim uma constatação sobre como nos tornamos dependentes da necessidade em sermos bem sucedidos e conquistar.

Não é exatamente um discurso contra correr atrás dos seus sonhos, mas sim o anseio em fazer tudo dar certo. Qualquer resultado que não represente a vitória é considerado um fracasso completo. E tal pressão vem de todos: família, amigos, patrões, sociedade.

É o reflexo claro do mundo capitalista que vivemos. Sim, o mesmo sistema capitalista que eu amo. É o reflexo claro que não mais respiramos. Apenas sobrevivemos, enfrentando nossos monstros internos, que muitas vezes acabam nos derrotando… por escolha nossa.

A canção também fala da monotonia de viver uma vida sem perspectivas de futuro. Onde o governo te controla, onde o seu emprego de controla, o seu salário te consome, as suas doenças te limitam… onde você só deixa o tempo passar, até que um dia o tempo para de correr para você. Na covardia de não parar o tempo, você espera que o tempo pare com a sua vida.

A letra tem um texto pessimista, e a melodia é naturalmente melancólica. Sabe, todas as vezes que ouço No Surprises, eu consigo perceber claramente a melancolia do vocalista Thom Yorke. Percebo como a sua existência é naturalmente incompleta, e acabo imerso nesse sentimento. Não é algo tão ruim como pode parecer. Na verdade, eu me coloco sempre em estado de reflexão.

Essa canção é um sinal de alerta para mim.

Gosto das surpresas boas, mas quero me afastar das surpresas que me causam decepções e mágoas. Me coloco sempre alerta, para não cair na tentação de confiar e acreditar nas pessoas erradas. Procuro não magoar ninguém, mas hoje vejo que isso é inevitável, ainda mais em um mundo tão competitivo.

Na verdade, procuro seguir minha vida para não cair na letra dessa canção. Para que as últimas preces da minha vida não sejam de misericórdia, ou pedindo perdão pelos males que causei para pessoas que amo. Quero viver de forma que a minha consciência fique tranquila na maior parte do tempo e, aos poucos, e sempre que possível, me desvincular da ideia de que só posso ter a vitória como única resposta válida para as questões da minha vida.

Eu quero sim vencer. Quero as boas surpresas da vida. Mas quero evitar ao máximo as pedras no caminho. Sei que elas estão no caminho. Não posso impedir que elas sejam atiradas na minha direção. Mas posso começar a desviar delas.

Preciso aprender a me colocar mais em silêncio diante das pedradas. Preciso aprender a suportar a dor de forma calada. Gritar apenas quando sei que meu grito vai derrubar muros. Até lá, vou respirando e segurando o fôlego.

Enfim… mais uma divagação sobre minha existência.

No Surprises me rendeu como surpresa dissertar sobre aquilo que me incomoda no mundo moderno: a necessidade de sempre vencer.

Pode não ter me dado resposta alguma. Pode não ter me dado alguma resposta que eu procuro nesse momento.

Mas ao menos me deixou em silêncio por alguns minutos, enquanto eu escrevia esse texto para vocês.

Aos poucos eu percebo que é no silêncio que as melhores reflexões acontecem. Que as melhores respostas aparecem.

É no silêncio que a comemoração da vitória começa.

“No Surprises”
(Thom Yorke, Jonny Greenwood, Colin Greenwood, Ed O’Brien, Philip Selway)
Radiohead, 1998


 


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