
Eu sei, eu sei… vocês estão esperando pelas minhas opiniões sobre “Quarteto Fantástico: Primeiros Passos”. Eu sei que é a estreia do mês de julho nos cinemas, mas… tá chovendo em Florianópolis, e eu decidi ficar em casa.
E acabei assistindo “Nonnas”, telefilme da Netflix protagonizado por Vince Vaughn.
O que eu tinha a perder, afinal de contas?
Isso mesmo: absolutamente nada!
Era um telefilme indicado ao Emmy 2025. E… olha, Netflix… você conseguiu um filme de boa qualidade dessa vez (e não uma de suas comédias românticas de gosto duvidoso).
É um filme baseado em fatos reais, com uma história que funciona, tanto no mundo real, como no cinema.
Então, vamos conversar sobre isso.
Porque cozinhar é um ato de amor

Quando você pensa na Itália, você automaticamente pensa em comida.
Não, você não pensa em conflitos históricos. Você não pensa em Nero, nem em Roma pegando fogo.
Você pensa em comida. Pensa em cannoli, pizza, macarronada.
Pensa na paixão do italiano por comer bem.
Uma das melhores culinárias do mundo foi construída pelas mãos e mentes de nonnas italianas — senhoras que dedicaram a vida a alimentar seus maridos, filhos e netos.
E que entregaram ao mundo um gesto de amor.
Muitas pessoas entendem que cozinhar é um ato de amor — e de fato, é.
Você está dedicando o seu tempo para alimentar alguém. Isso não é algo que se faça de maneira frívola ou casual.
Há uma grande diferença entre preparar uma macarronada italiana legítima e um miojo que fica pronto em três minutos. Aliás, qualquer coisa na vida que leve apenas três minutos para ser feita provavelmente não é de boa qualidade.
A senhora entendeu, não é, dona Dulce? A senhora que aguenta o senhor Gervásio, entendeu o que quero dizer.
Cozinhar é um ato de amor indiscutível.
Talvez poucas pessoas te amem mais na vida do que a sua avó.
Pode ter certeza: ela não é apenas uma mãe com açúcar — ela é a mulher mais apaixonada da sua vida.
Ela é aquela pessoa que morreria por você, que ameaçaria alguém por você e que te alimenta de forma incondicional. Assim como ela ama de forma incondicional.
“Nonnas” parte dessa premissa que é bem original — tanto para um restaurante quanto para contar a história desse vínculo.
A conexão entre o amor do italiano com a comida, com as tradições familiares e com o desejo de trazer a essência da cozinha familiar e do almoço de domingo para os restaurantes — e para a vida das pessoas.
Tudo parte de um sentimento universal, que em algum momento atinge a todos: o luto.
A perda da mãe motiva Joe, o personagem central, a construir um restaurante onde ele possa não só estabelecer essa conexão com as duas mulheres que mais amou — sua mãe e sua avó — como também compartilhar esse amor.
Ele deseja dividir esse sentimento com pessoas que também estavam se sentindo sozinhas. Gente que queria se sentir em família ou que queria apenas apreciar um bom jantar numa terça-feira à noite.
A gente vê, em “Nonnas”, que Joe não é apenas um cara que quer manter tradições. Ele quer compartilhar amor — em forma de comida.
E esse é um dos gestos mais generosos que alguém pode ter.
É por isso que o filme é sinestésico e apaixonante: você acaba devorando a história como se estivesse realmente degustando uma lasanha ou uma pizza bem feita.
Um filme delicioso (literalmente)

São 1h53 de um filme que passa voando, mas que te coloca dentro de uma cozinha italiana. Te coloca dentro de uma família — e faz com que você se envolva com os desafios, as dificuldades, os conflitos existenciais.
As diferenças entre as próprias avós, que estão ali cozinhando, também ganham espaço. Tudo isso transforma o filme numa experiência sensorial emocionante e prazerosa.
É um filme muito agradável de se assistir. Muito bem produzido — a fotografia é excelente.
Você consegue perceber isso nas paletas de cores, especialmente nas cenas que mostram a cozinha da casa da mãe (e avó). Os armários verdes, os tons claros de amarelo e o vermelho intenso do molho são símbolos visuais que remetem diretamente à cultura italiana.
Tudo isso é retratado de forma cuidadosa no filme.
E que elenco trabalha de forma orgânica aqui.
Susan Sarandon, obrigado por sua existência. Linda Cardellini, obrigado por sua existência.
Drea de Matteo, que não víamos há tempos nem no cinema nem na TV — ela que apareceu para o mundo em Família Soprano. E Joe Manganiello, que tem até bastante falas aqui — lembra dele como o Alcide de True Blood?
Eu assisti recentemente a Magic Mike, que é bem melhor do que eu lembrava da minha cabeça de 10 ou 15 anos atrás. Prometo gravar um vídeo sobre o filme do Soderbergh — sim, o dos strippers.
Vince Vaughn também manda muito bem como protagonista (é melhor eu falar dele, antes que eu me esqueça).
Recomendo “Nonnas” porque ele não é apenas um filme sobre gastronomia. É, obviamente, um filme sobre luto — sobre perda e sobre como lidar com ela.
Fala também sobre seguir em frente sem abrir mão das tradições. Sim, podemos ter sentimentos ambíguos em relação a se agarrar ao passado.
Mas o filme fala sobre desapego, e também sobre a necessidade de manter as memórias vivas.
É também um filme sobre valorizar a melhor idade, sobre como ela pode ser relevante.

Essa melhor idade apresentada em “Nonnas” — apesar de conter traços conservadores — também carrega nuances de visão de mundo moderna. São mulheres maduras que, dentro de suas peculiaridades, mantêm uma abertura de pensamento.
E não desistem de viver uma vida produtiva, uma vida útil. Uma vida em que ainda são reconhecidas. É um filme sobre esse reconhecimento positivo.
É, principalmente, “Nonnas” é um filme sobre recomeços.
Praticamente todos os personagens estão recomeçando: o homem que sai do luto, a viúva que tenta um novo relacionamento. As avós que tentam restabelecer vínculos com filhos, netos e com elas mesmas.
Todas têm jornadas de ressignificação de suas próprias existências. E isso é sempre muito edificante.
O filme tem ritmo excelente. É delicioso de assistir — literalmente.
Prepare-se, porque vai dar fome. Dê uma pausa e faça uma boquinha, se necessário.
Eu mesmo fiz uma macarronada rápida pra continuar assistindo. Porque a estética dos pratos é muito atrativa — lembra um pouco o Food Network.
A captação das cenas de comida é feita com cuidado e bom gosto. Pode parecer frívolo, mas isso é parte essencial da narrativa.
Sim, o filme tem elementos importados de programas culinários. E isso ajuda a colocar o espectador dentro da perspectiva da trama.
Sua narrativa consistente e linear. Sem grandes “barrigas” de roteiro.
Claro, há algumas coincidências meio forçadas — tipo: “olha só, o mundo é pequeno e as pessoas se encontram nos mesmos lugares”. Mas nada absurdo. Tem espaço até para alguns plot twists bem interessantes.
O restaurante do mundo real ainda está em funcionamento, há pelo menos 15 anos. Eles continuam servindo os mesmos pratos.
E deu certo. O conceito não tinha como dar errado, porque estamos falando de culinária com sentimentos, emoções e tradição. Como o próprio filme coloca: é uma culinária feita pelas pessoas que mais vão te amar na vida.
Recomendo “Nonnas” também porque ele está indicado ao Emmy 2025 como melhor telefilme.
A Netflix finalmente entregou um filme que presta. E olha que isso não é pouca coisa.
É um dos meus favoritos — ou “preferidos”, se preferir assim. Espero que tenha sucesso na premiação, que acontece em breve nos Estados Unidos.
Mas recomendo “Nonnas”. Você não vai ter nada a perder — só a ganhar com esse filme.
E sim, é um daqueles filmes que te faz querer abraçar a sua avó no final. Se esse era o objetivo… ele foi alcançado com louvor.
Aliás, abrace a sua avó e peça pra ela fazer um prato de macarronada. Vai cair muito bem.
Só como registro final: durante boa parte da minha vida, eu quis ser filho ou descendente de italianos. Sempre achei a cultura maravilhosa.
Sempre achei o povo italiano alegre, divertido e animado. Os descendentes de italianos que conheço sempre foram gentis comigo.
Esse filme também é bom pra nos lembrar das diferenças boas que existem entre os povos. E de como outras culturas podem nos entregar bons momentos.
Gastronomia, história, cultura — enfim, é sempre bom aprender com o diferente.
E aprender com as “Nonnas”, então?
É maravilhoso.

