
Fim de semana, tédio e um campeonato de futebol esquecido. Eis que surge “Novocaine: À Prova de Dor”, promessa de desconstrução das comédias de ação, combinando “John Wick” com “500 dias com ela” nos cinemas.
Tá, eu estou exagerando. Mas me permito ao exagero, pois o filme em questão é exagerado de propósito. Logo, posso falar alguns absurdos e fazer analogias controversas para emitir uma opinião sobre 1h40 dessa história, certo?
Ainda mais com uma premissa como a desse filme: um protagonista que não sente dor.
A melhor parte é que “Novocaine” abraça o absurdo abraçado sem pudor, com sequências de ação frenéticas e resoluções inacreditáveis. Seu maior mérito é não se levar a sério.
Mas para mim, desligar o cérebro no cinema foi um enorme desafio. E eu sei que a culpa é minha neste caso.
O problema é que levo tudo muito a sério…

“Novocaine” entrega diversão, arranca algumas risadas e supera até mesmo certos “clássicos” nacionais como “Uma Advogada Brilhante”, passando bem longe de ocupar uma posição de destaque no ranking dos “piores filmes que assisti em 2025”.
Contudo, a coerência narrativa me pegou. O elemento fantástico da ausência de dor não é a desculpa para eliminar uma linha lógica narrativa para vários outros elementos que são parte de um mundo normal e corrente.
O protagonista insensível ao toque, calor e frio, teme mastigar, mas sente prazer. Uma regra peculiar que não explora antagonismos diretos. Se não sente dor, por que sente prazer físico e emocional?
Sim, eu sei que sentimentos são diferentes de sensações, e que o protagonista não sente dor por uma questão genética. Mas, por lógica, “sentir algo” é uma função cerebral e, neste caso, sentimentos e sensações partem da mesma origem.
Perceba como eu estou viajando loucamente, o que faz com que eu não abrace a farofa que é “Novocaine”, que não tem absolutamente nada a ver com a minha chatice como ser humano.

Mas… quer saber qual é a cereja do bolo (sem spoiler) da incoerência narrativa do filme?
A polícia de San Diego ser a mais incompetente da história do cinema.
Convenhamos, com um protagonista tão peculiar, facilitar as coisas com policiais burros parece um recurso preguiçoso.
Talvez o problema seja meu, preso à lógica enquanto outros apenas buscam a felicidade. E quem sou eu para discordar da busca pela alegria?
Conveniências narrativas também marcam presença em “Novocaine”, pois isso jamais poderia ficar de fora em uma narrativa sem lógica. Encontros oportunos, romances instantâneos e um conflito central apressado.
O desenvolvimento do protagonista é interessante, mesmo em meio ao caos narrativo. Mas a trama se desenrola por atalhos convenientes, culminando em um “deus ex machina” final que subverte as próprias regras estabelecidas.
Há limites para tudo, até para quem não sente dor. Fica a dica.
Algumas cenas beiram o inacreditável, enquanto outras flertam com um humor ácido, cutucando estereótipos.
Mas insisto: o problema reside em mim.
Quase passa de ano

Dou uma nota 6 para “Novocaine: À Prova de Dor”, o que deixa o longa em recuperação. É o filme da TV a cabo que você vai esquecer, mas deve assistir de novo quando estiver passando em algum canal em uma tarde de terça-feira.
Com alguma sorte (principalmente se for bem nas bilheterias), vai receber uma continuação ou, quem sabe, virar uma franquia que se estende para a TV. Nunca podemos duvidar da falta de criatividade dos executivos em explorar propriedades intelectuais, ainda mais com um produto totalmente original, como é o caso desse filme.
“Novocaine” poderia ter ignorado os absurdos, mas eles saltaram aos olhos e fazem parte da sustentação da premissa central do filme. Várias coincidências e soluções fáceis permeiam a narrativa, o que não prejudica a experiência do grande público.
Não é intragável, mas… uma nova sessão de “Novocaine”? Prefiro um shot de pimenta. Filme esquecível após os créditos, apesar do marketing massivo.
Mas se você se divertiu, ótimo! Eu fico feliz por você. De verdade.
