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O ator chinês que transformou a IA em arte (um tanto quanto desconcertante)

A internet foi surpreendida recentemente por um fenômeno curioso vindo da China. O ator Tianran Mu está transformando o que há de menos artístico — as falhas de inteligências artificiais generativas — em expressão criativa e sátira cultural.

Parece ser o caminho natural de tudo: fazer piada com as falhas produzidas pelos chatbots generativos e, por tabela, gerar conteúdo com isso. Entendo que é uma forma justa de criticar e ilustrar os erros ainda produzidos pelas plataformas de inteligência artificial disponíveis no mercado.

Mu ganhou destaque por inverter a lógica da tecnologia: ele imita, de maneira propositalmente imperfeita, os gestos e movimentos artificiais de vídeos gerados por IA. Sua arte provoca riso, desconforto e reflexão sobre o limite cada vez mais tênue entre o humano e o sintético.

 

Ascensão de um imitador da IA

Tianran Mu, de 29 anos, começou sua trajetória nos estúdios cinematográficos de Hengdian, mas a falta de oportunidades o empurrou para a criação digital. Em 2019, iniciou a publicação de esquetes curtos em plataformas chinesas, onde construiu uma base sólida de seguidores.

Com o avanço das ferramentas generativas, especialmente após o lançamento do modelo Sora 2 da OpenAI, o artista encontrou um novo campo de experimentação. Imitando os erros visuais e expressões incoerentes típicas da IA, seus vídeos ganharam tons absurdos e cômicos incomuns.

O público rapidamente reconheceu a genialidade da proposta: ao copiar a estética “não humana”, Mu acabou mostrando o quão desconcertante pode ser a perfeição tecnológica. Assim, seus vídeos se tornam um espelho distorcido da própria ideia de inteligência artificial.

 

Viralização nas redes

Nas redes sociais chinesas, especialmente no Bilibili e no RedNote, Mu acumulou milhões de visualizações. Nas últimas semanas, seus vídeos também começaram a circular amplamente no X e no Instagram, alcançando públicos ocidentais.

Parte do fascínio pelo trabalho de Mu vem do contraste entre o caráter artesanal de sua atuação e o caráter automatizado do que ele parodia. Ele reproduz falhas como olhares erráticos, gestos travados e sincronia irregular, gerando um humor involuntário e perturbador.

A viralização internacional reflete o cansaço coletivo com vídeos sintéticos cada vez mais indistinguíveis da realidade. Mu, paradoxalmente, humaniza a desumanização visual promovida pela IA — e transforma o erro em arte.

 

O limite entre arte e tecnologia

Em entrevistas à revista Wired, o ator confessou que parodiar os novos modelos generativos tornou-se mais difícil. “Em pouco tempo, não vai haver mais nada para imitar”, afirmou, reconhecendo que as IAs estão quase superando as limitações que o inspiram.

Seu trabalho também funciona como uma crítica indireta à opacidade do treinamento das IAs. Segundo discussões recentes no Xataka, Sora 2 e outras ferramentas utilizam vídeos de origem desconhecida, levantando dúvidas sobre direitos autorais e ética no uso de conteúdo.

Para Mu, a fronteira entre o trabalho criativo e a produção com IA é clara. Ele cria tudo manualmente, sem apoio tecnológico, justamente para ironizar o avanço automatizado que ameaça o ofício artístico.

Seu sucesso prova que, mesmo em tempos de algoritmos, o olhar humano ainda dita o que é arte. Mesmo que essa arte entregue um resultado final um tanto quanto bizarro e inusitado aos olhos dos humanos.

 

Via ArsTechnica