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Eu me lembro dos meus tempos de criança quando ouço a canção “O Bêbado e a Equilibrista”. Quando as primeiras notas da versão interpretada por Elis Regina começam a tocar, sou imediatamente transportado para o passado. Minha mãe ama Elis, e eu também. É a melhor cantora brasileira de todos os tempos, sem qualquer tipo de discussão.

Mas essas primeiras notas… esse acordeom tocando no estilo de canção francesa me inebriava. Eu ficava tão bêbado de emoção, que acabava chorando. Sério. Eu tinha quatro ou cinco anos de idade, e não entendia por que essa música causava essa reação emocional. Com certeza não entendia a relação das notas, mas assimilava a beleza das mesmas.

Hoje, com 41 anos de idade, compreendo que a transição do acordeom francês para a batida em estilo samba-canção representa a volta daqueles que foram obrigados a deixar o Brasil por conta de uma ditadura que colocava em risco suas vidas. Não era apenas a liberdade de expressão que era vetada. Para algumas pessoas, os direitos de respirar e existir para questionar a autoridade dos poderosos poderiam ser arrancados de forma súbita a qualquer momento.

Quando eu era criança, eu não tinha a real noção da importância de “O Bêbado e a Equilibrista” para o Brasil. Não sabia que essa música era um símbolo repleto de metáforas que representavam o sentimento daqueles que lutaram uma longa batalha. A boemia de algumas mentes brilhantes da música se misturavam com o cenário de ressaca moral e luto coletivo pelas perdas ao longo da jornada.

E no lugar de comemorar, refletiam sobre tudo o que aconteceu. Esperando por aqueles que vão voltar.

Na infância, eu já achava “O Bêbado e a Equilibrista” uma linda canção. Mas só na vida adulta compreendi que essa canção é lindamente triste. Tão triste quanto o dia de hoje, já que perdemos o compositor dessa obra prima, Aldir Blanc. Ele traduziu em sutilezas poéticas a angústia e o pesar que foi viver o período mais triste de nossa nação…

Até agora.

Talvez quem vive o Brasil de 2020 precisa se agarrar desesperadamente nas palavras de “O Bêbado e a Equilibrista” e entender que, para sobreviver às monstruosidades do presente, é preciso mesmo agir como um bêbado trajando luto, mas completamente louco para, em alguns momentos, ser irreverente com as nossas tragédias.

Parte de mim já começou a fazer isso quando chama um certo “ditadorzinho wannabe” de Barbie Nazista. Não é uma provocação ou agressão. É uma forma de evitar enlouquecer diante do discurso de ódio. E, de fato, me sinto como o bêbado com o chapéu torto, olhando para a equilibrista prestes a cair (e tentando bolar um plano em como salvar aquela mulher da queda quase certa).

Hoje, eu e muitos brasileiros lamentam que o COVID-19 promoveu a partida de Aldir Blanc. Mais um nome notável de nossas artes vai embora por causa de um vírus que um mentecapto chamou de “gripezinha”. Na verdade, estamos chorando por mais de 40 dias as partidas de pessoas que não vão voltar e, ao mesmo tempo em que está difícil respirar de tanto chorar, as lágrimas começam a secar. O que é uma pena.

Choram Marias e Clarices no solo do Brasil nesse momento.

Mas é fundamental nesse momento agradecer a Aldir Blanc pela sua sutil genialidade. Ele traduziu sim as nossas dores, mas deixou o remédio para a cura dessas mesmas dores com palavras sábias. Hoje, me valho dessas palavras para convencer a mim mesmo que tudo isso vai passar. Que uma hora tudo o que estamos vivendo hoje vai acabar.

Pois eu e você precisamos entender que…

 

“Mas sei, que uma dor assim pungente
Não há de ser inutilmente, a esperança
Dança na corda bamba de sombrinha
E em cada passo dessa linha pode se machucar
Azar, a esperança equilibrista
Sabe que o show de todo artista tem que continuar”

 

A equilibrista chamada Esperança não precisa ser salva por mim. Ela sabe andar na corda bamba. E é preciso ser consciente que a vida é, de fato uma linha. Cair e se machucar faz parte do jogo. Mas é a Esperança que me motiva a continuar em frente. Custe o que custar.

A dor que eu e você sentimos hoje não será inútil. Isso tudo vai passar. Porque Aldir Blanc um dia disse que seria assim.

Obrigado, Aldir Blanc. Muito obrigado por enriquecer a música brasileira, e deixar lições que vamos carregar em nós pelo resto da vida. Perder a sua mente brilhante nesse momento dói muito, mas saber que você está na eternidade da cultura brasileira é um presente que todos nós ganhamos.

Vamos continuar o show. Por você também!

 


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