E lá vamos nós de novo…

Eu não queria escrever esse texto. De verdade, eu não queria. Mas eu devo fazer isso. Não vou mudar a mente dos ignorantes, mas posso despertar o sinal de alerta em quem ainda raciocina, ou em quem consegue raciocinar de forma construtiva.

Eu entendo a frustração do brasileiro médio com a eliminação do Brasil na Copa do Mundo 2018 para a Bélgica. Entendo que não é legal ser eliminado antes das semi-finais, mas também compreendo que não é a primeira vez que isso acontece.

O que eu não entendo é essa “síndrome do Pacheco” que o brasileiro adora ter. Sabe… o pensamento em acreditar que ninguém pode vencer o Brasil no futebol porque “temos o melhor futebol do mundo”. Não só essa ideia é falsa, como mostra como esse tipo de gente está bem desinformado, desatualizado, e não entende absolutamente nada sobre o que acontece no futebol moderno.

Para começar, o Brasil perdeu porque a Bélgica jogou melhor. Teve melhor disciplina tática, melhor planejamento e se preparou melhor para enfrentar o time brasileiro. O nó tático dado pelo treinador belga se configurou quando deixou Lukaku como o responsável para puxar os contra-ataques, e não Kevin De Bruyne ou Eden Hazard, como se imaginava como uma alternativa lógica.

Sem falar nas mudanças táticas e de formação do time, como a entrada de Marouane Fellaini, até então reserva, para neutralizar o melhor jogador brasileiro na Copa até o momento: Phillipe Coutinho.

Sem falar que tem muito brasileiro que é bem desinformado e desatualizado sobre futebol internacional, algo inconcebível em tempos onde todo mundo pode ver todo mundo pela TV a cabo ou via internet. Os grandes talentos da seleção belga jogam nas melhores ligas do mundo, ao lado dos nossos craques. Ou seja, no mínimo estão no mesmo nível de preparação e conhecem as características de cada um dos nossos jogadores, e de perto.

Você até pode argumentar que os craques deles não contam com os mesmos recursos técnicos que os nossos craques. E você até está certo ao pensar assim. Porém, taticamente, eles são muito superiores. Mais disciplinados, os belgas não só conseguem executar com inteligência o seu plano de jogo, como conseguiu se adaptar ao time brasileiro, sem mudar as suas características, e sem deixar de transparecer as suas deficiências defensivas, algo que quase lhe custou a eliminação contra o Japão nas oitavas.

E, curiosamente, aqui está outro mérito do treinador belga: corrigir os erros para se adaptar ao estilo de jogo do Brasil. Passar pelo susto para colocar ênfase no que realmente era importante para superar uma seleção que eles desde sempre admiram.

É claro que o Brasil cometeu erros. Alguns deles pontuais, que já foram detectados antes mesmo da Copa começar (sempre me preocupou o fato do Marcelo não ter propriedades defensivas, o que poderia ser um problema no contra-ataque, além da própria zaga brasileira, que era a mais velha da história em copas). Alguns problemas foram pontuais do jogo: poucos chutes a gol, erros de passes, ansiedade na finalização, entre outros.

Mas jamais podemos dizer que o time não lutou. Podemos questionar o fato do time só decidir correr atrás do prejuízo após o 2 a 0. Porém, mesmo antes do segundo gol, era possível ver a seleção brasileira reagindo bem e tomando iniciativas para buscar diminuir a desvantagem. Ao menos isso.

E, o mais importante: não é culpa de um jogador.

O brasileiro médio, que considero burro nessas horas, sempre quer achar um culpado para o fracasso de uma derrota em uma Copa do Mundo. Isso acontece desde 2006, quando Thierry Henry marcou aquele gol de cabeça e eliminou o Brasil nas quartas de final.

Aliás, ninguém olha para os detalhes que vão além de ter apenas um jogador como culpado.

Por exemplo: as últimas quatro eliminações em Copa do Mundo foram para seleções europeias que, ou chegaram na final, ou foram campeãs do mundo (na ordem: França, Holanda, Alemanha e Bélgica). Só aqui já devemos entender que perdemos para seleções melhores.

O último jogo eliminatório onde derrotamos uma seleção europeia em Copas foi justamente a final de 2002 contra a Alemanha. Depois disso, perdemos todos os jogos de mata-mata para europeus, e temos que incluir a decisão de terceiro lugar para a Holanda em 2014.

Em cinco jogos eliminatórios contra os europeus em Copa do Mundo, nós tomamos 15 gols e marcamos apenas três.

Ou seja… será que é um problema de um jogador pontual? Ou de uma filosofia esportiva que já não funciona há muito tempo?

Não é de hoje que deixamos de ter a melhor seleção do mundo. Aliás, desde 2007 (Kaká), nós sequer temos o melhor jogador do mundo em cada temporada. O jogo coletivo sempre prevaleceu no futebol. O que diferenciava o brasileiro dos demais eram os talentos individuais que cresciam pela competência coletiva. E até mesmo aquela seleção de 2002 mostrou isso ao mundo. Era um time muito bom com Marcos, Cafú, Roberto Carlos, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo… talentos fantásticos, que trabalharam juntos de forma construtiva.

Logo, vamos parar de achar culpados. Vamos parar de colocar a culpa em alguém quando o coletivo da Bélgica é superior. Não perdemos para uma zebra. Perdemos para um ótimo time de futebol, que pode sim ser campeã mundial pela primeira vez. Eu mesmo aposto nisso.

E, principalmente… não esconda o seu racismo nas críticas contra um jogador de futebol.

Mas isso é tema para outro post.

Aguarde e confie.