
A criatividade está morta e enterrada em Hollywood, e quem pensa o contrário está errado. Os fatos mostram isso claramente.
E digo mais: as pessoas não querem mais histórias originais, com novos personagens e enredos diferentes do que já existem. Todo mundo quer reboot, remake e continuação do que já existe.
Mencionei o fracasso de “Elio”, que não só desconstruiu o seu personagem para atender aos anseios dos conservadores, mas também porque uma história nova e original não tem espaço no cinema atual.
Acontece que o “mais do mesmo” também está parando de funcionar nos aspectos criativos, e “Jurassic World: Recomeço” é mais um exemplo recente de um cinema que está cansado e, por tabela, está cansando quem quer que o novo apareça.
O blockbuster perdeu a sua originalidade

“Jurassic World: Recomeço” é um filme que eu (muito provavelmente) vou me recusar a assistir nos cinemas. Até porque eu não tenho muita paciência para essa franquia.
Mesmo assim: o contexto de lançamento de “Jurassic Park” em 1993 era completamente diferente do que esse que temos hoje. O filme liderou as bilheterias ao lado de uma diversidade de títulos com propostas originais e desconectadas entre si.
Naquela época, entre os 50 filmes mais assistidos, apenas quatro eram continuações, ao passo que hoje, as franquias dominam o mercado com fórmulas previsíveis e pouco ousadas.
A gente sente que aquela era uma “Era de Ouro” do cinema (entre tantas outras que aconteceram ao longo do tempo), com uma pluralidade de propostas que atendiam a todos, e com uma relevante criatividade latente vinda dos produtores e roteiristas.
Em 2025, com tantos recursos tecnológicos e temas diversos a serem abordados (e que são relevantes para o nosso tempo presente), os grandes estudos estão mais do que acomodados na zona de conforto.
É muito fácil reproduzir receitas testadas para garantir retorno financeiro, sacrificando a inovação narrativa. Mas chega uma hora que isso para de funcionar, e tudo se torna apenas uma grande irritação para quem prefere histórias inovadoras.
A hipocrisia cinematográfica

“Jurassic World: Recomeço” se transformou em um exemplo emblemático dessa preguiça de Hollywood, com uma certa pitada de hipocrisia.
Veja bem: o filme se chama “Jurassic World: Recomeço”. Ele sugere um REINÍCIO, ou um RENASCIMENTO no seu título no idioma original. Porém, de forma quase inacreditável, o longa protagonizado por Scarlett Johansson consegue repetir os clichês dos seis filmes anteriores da franquia, mostrando claramente a preguiça dos roteiristas, que nem se deram ao trabalho de tentar algo diferente.
Você, que já assistiu a algum filme da franquia “Jurassic Park”, sabe muito bem o que vem: pessoas fugindo de dinossauros em uma ilha, sem charme ou novidade, com toques de plots absurdos e incoerências dignas de roteiros escritos pelo ChatGPT.
E parte da “culpa” de filmes assim existirem é do próprio público, que alimenta o ciclo de repetição.
A audiência global parece estar satisfeita com o “mesmo de sempre”, recebendo obras pensadas por comitês corporativos, com efeitos visuais impecáveis, mas roteiros diluídos e inofensivos.
Aliás, a maioria da audiência não quer se dar ao trabalho de pensar ou raciocinar na história que está assistindo, optando por roteiros rasos e desprovidos de inteligência retórica.
E está tudo bem: a maioria só quer mesmo desligar o cérebro na hora de assistir a um filme. Afinal de contas, o cinema de entretenimento existe justamente para isso.
Mas lamento a estagnação cognitiva do público sobre algo tão transformador que é o cinema. É essa mesma audiência que promove a estagnação criativa dos roteiros, validando histórias que saem do nada e levam para lugar nenhum.
Existem algumas (poucas) exceções

É claro que toda regra tem sua exceção, mas dá para contar nos dedos de uma mão os poucos filmes blockbuster que escapam da regra do “mais do mesmo”.
“Missão Impossível: O Acerto Final” e “M3GAN” são filmes blockbuster de toda a regra, mas ao menos tentam experimentar formas narrativas dentro de suas próprias estruturas. São minorias em um mercado dominado por “refilmagens de si mesmos”.
Como um consumidor de cinema de todos os gêneros, eu imploro por uma maior diversidade narrativa e até mesmo coragem criativa. Tal e como temos hoje nas produções independentes e autorais, que ainda resistem fora do sistema dos grandes estúdios.
Diante do cenário atual, não será surpresa alguma se a inteligência artificial dominar a produção dos roteiros genéricos, tornando o cenário audiovisual ainda mais repetitivo e previsível.
Se é que isso já não está acontecendo. As comédias românticas da Netflix são um forte indício de que tem IA fazendo o papel de humano na produção dos roteiros.
Pois me recuso a acreditar que mentes humanas são capazes de produzir resultados tão ruins.

