Foto: Eduardo Serafim/Estúdio Móvel

Demorou um pouco mais para começar porque as conexões de HDMI do MacBook que faria as projeções estavam apresentando problemas. Naquele momento, eu pensei:

“Caraca, até aqui vai dar problema? Será que vai ser um desastre hoje?”

Depois de tantas dificuldades que nós enfrentamos, com a saída de ótimos cantores veteranos, o afastamento da Dona Mércia por motivos de saúde, os desafios de fazer música com pouca grana, pouco tempo para divulgar o concerto e até problemas administrativos que apareceram faltando dois dias para o concerto acontecer… será que o problema com o MacBook era mais um final que todo mundo iria morrer na praia?

Eu queria que começasse logo. Queria que o Polyphonia Khoros mostrasse tudo o que ensaiou em dois meses, ou tudo o que sabia fazer depois de tantos ensaios. E eu queria responder uma pergunta muito importante: quantas pessoas foram ao Teatro do CIC assistir ao concerto?

Eu não poderia deixar de cantar para contar, mas era possível ter uma dimensão exata antes mesmo de entrar no palco: havia barulho, muito barulho. Dava para ouvir crianças conversando, o que era ótimo. Dava para sentir uma energia boa vindo daquelas pessoas.

Quase 15 minutos depois do previsto, com o problema do MacBook resolvido, a ordem para entrar no palco foi dada.

E quando colocamos o pé no palco… ah, meu amigo leitor…

Recebemos um golpe de alegria e entusiasmo. O público golpeou o coral inteiro com uma alegria que poucas vezes eu testemunhei. Uma energia acima do normal e, posso dizer, atípica para um coral que normalmente recebe os aplausos de uma plateia mais contida e formal. A informalidade entregue pelos presentes no Teatro do CIC ontem era o que nós, cantores, estávamos precisando.

Eu nunca deixei de acreditar nesse grupo de corajosos cantores. Mesmo procurando entender o que aconteceu nos últimos dias, eu tinha a plena convicção que, no final, tudo funcionaria. Ou que pelo menos o grupo entregaria um belo concerto para os presentes. De fato, não foi tudo perfeito. E nem poderia ser. A perfeição não existe. Porém, diante dos desafios e dificuldades, o que apresentamos é digno da marca Polyphonia Khoros. Honra uma jornada de 20 anos. Honra tudo o que a Dona Mércia sempre defendeu.

Entregamos música de qualidade para pessoas que estavam felizes e entusiasmadas em assistir um grupo de canto coral que iria cantar as canções que impulsionaram o imaginário popular de gerações. Eu tenho certeza que algumas pessoas fizeram uma viagem musical, revisaram momentos importantes de suas vidas, ou absorveram novas perspectivas a partir do momento em que descobriram nas letras executadas algumas lições que podem carregar em si para a vida.

E tais lições valem para todas as crianças presentes com 8 a 80 anos de idade. De mamando a caducando.

662 pessoas testemunharam, prestigiaram e aplaudiram aquele que foi o concerto de canto coral mais bonito do qual eu participei. Eu não sei se eu consigo colocar tanta gente no meu coração, e não vou me lembrar do rosto de todos que estavam no teatro. Mas a felicidade em saber que não vou esquecer da noite de 6 de junho de 2019 é o suficiente para que eu abrace a todas essas pessoas em pensamento, guardando cada uma delas na minha memória afetiva.

Nós, cantores do Polyphonia Khoros, aprendemos muitas coisas ontem. Para muitos, era a primeira vez cantando no PK, ou a primeira vez no desafiador teatro do CIC. Para vocês… que estreia! Aplaudo de pé a coragem e perseverança de um grupo novo na idade e na formação, mas entregando garra, dedicação e amor à causa.

Eu também aprendi muito na noite de ontem. Aprendi muito com cada um dos cantores do Polyphonia Khoros. Aprendi com o maestro Per Ekedahl, um farol para os seus coralistas. Aliás, acho que eu entendi: Per se vestiu de preto como nós porque é um de nós. Está conosco. Ter um regente assim é uma honra para mim.

Mas a lição mais importante que eu aprendi com o concerto do Polyphonia Khoros de 6 de junho de 2019 é que eu hoje vivo de novo o meu melhor momento como coralista. Antes do PK entrar na minha vida, eu passei meses me lamentando e afirmando que “os meus melhores anos de canto coral foram os primeiros 10 anos, entre 1995 e 2005, quando o Coral da UNESP de Araçatuba estava na minha vida”. Eu ainda vou insistir e afirmar que eu deveria ter aproveitado mais desse tempo, mesmo reconhecendo que tudo o que vivenciei nesses anos foram a base para que hoje eu faça a atividade de canto coral no nível que eu queria.

Mas… hoje? É tudo diferente. É melhor. E eu estou tão feliz quanto eu já fui um dia.

Posso finalmente deixar o saudosismo de lado e abraçar o momento presente como o meu melhor momento. Estou nos melhores corais de Florianópolis, capital de um estado que não é o meu de origem, mas que tem no canto coral uma das suas identidades culturais mais fortes. Trabalho com excelentes regentes, posso ajudar os meus grupos com as habilidades profissionais que eu desenvolvi ao longo de uma vida inteira e me tornei um coralista melhor, mais confiante e mais feliz.

Eu hoje sou uma pessoa mais feliz por causa de tudo isso.

Hoje, eu posso dizer com uma alegria enorme no coração, que em 6 de junho de 2019, com o Polyphonia Khoros, eu cantei o concerto mais bonito da minha vida. Eu estava me esquecendo em como era eu me sentir tão feliz ao fazer música. Eu ainda não processei todos os meus sentimentos, mas afirmo que não estou me segurando de tanta felicidade. E eu só posso agradecer a cada uma das quase 700 pessoas que compartilharam desse momento tão especial.

662 pessoas que compareceram ao Teatro do CIC
20 cantores no palco.
O maestro Per Ekedahl.
Joice, Leonardo, Jordain e todos que ajudaram na produção.
Dona Mércia e Seu Célio.

Se eu me esqueci de alguém, eu altero a contagem depois.

Ontem, em 6 de junho de 2019, foi incrível. Apesar do MacBook tentar dizer que seria o contrário.